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terça-feira, 17 de maio de 2011

Moutinho - a maçã, a árvore e a floresta - Rui Santos

O Sporting negociou João Moutinho com o FC Porto e perdeu não apenas um dos seus ‘símbolos’, mas também um jogador de contraste relativamente à lógica de formação dos jogadores ‘fabricados em Alvalade’.

Quando José Eduardo Bettencourt (JEB) concretizou a operação, ouviu-se de tudo, mas não me esqueço da opinião publicada (generalizada): que sim, que era um excelente negócio para o Sporting.

Nunca fui dessa opinião e, agora que terminou a Liga 2011-12 e a primeira temporada ao serviço do FC Porto, é tempo de fazer o balanço.

Parece-me óbvio que foi o FC Porto a sair a ganhar e era mais ou menos expectável que assim fosse.

O perfil de João Moutinho, perfeitamente fácil de desenhar a partir da sua segunda época na equipa principal do Sporting (2005-06, com 34 presenças na Liga!), de um jogador anti-fogacho e, portanto, sólido, consistente e resistente, dá garantias de competitividade.

Desde 2005-06, com 19/20 anos, não houve uma única temporada em que Moutinho não oferecesse mais de 25 jogos como titular da sua equipa.

Aconteceu sempre no Sporting (34+29+30+27+28) e volta a acontecer, agora, no FC Porto (26+1).

Um jogador que joga e compete a um nível de exigência acima da média é sempre um bom ‘activo’.

O Sporting não tinha, no plantel, jogadores com estas características e no historial de ‘clube formador’ não conseguiu aproveitar da sua ‘linha de montagem’ muitos casos como o de Moutinho. Pelo contrário: número significativo de ‘talentos puros’; poucos ‘jogadores de equipa’, duradouramente competitivos.

O Sporting, com JEB, fez o mais difícil: deixar estragar um fruto colhido da sua própria árvore, um fruto raro que importava estimar.

Houve, como é sabido, a degradação das relações pessoais entre o jogador, o presidente e a estrutura que o rodeava, mas Moutinho foi acima de tudo vítima do ambiente de confusão, fraca liderança e pouca exigência que se tem vivido, há muitos anos, em Alvalade.

Chegou ao Dragão e foi o que se viu: um jogador acarinhado, que possui as características que tinham de lhe ser reconhecidas, só podia voltar aos níveis de rendimento já exibidos. E, com grande facilidade, ‘apenas’ enquadrado num regime que apela à responsabilidade, transformou-se num dos atletas mais importantes do ‘FC Porto 2010-2011’. Um jogador muito disciplinado tacticamente, que assegura o preenchimento dos espaços de uma forma inteligente e avança e recua consoante os ditames de cada jogo e de cada situação. A ‘maça podre’ transformou-se, sem surpresa, numa viçosa ‘amora silvestre’.

Na óptica do interesse do Sporting seria importante abrir o debate: por que razão o clube de Alvalade consegue ‘produzir’ grandes talentos e não os consegue rentabilizar nem desportiva nem financeiramente?

Se quisermos atalhar, a resposta é simples: incompetência e má gestão.

O Sporting é o clube onde se formaram, a título de exemplo, Futre, Luís Figo, Simão, Cristiano Ronaldo, Quaresma, Varela e Hugo Viana. Por onde passaram Carlos Martins, Custódio e Pepe. Entre muitos outros.

Cristiano Ronaldo é um daqueles casos ímpares. Mas, entre tantos especialistas, que fazem do futebol a sua única actividade, que vivem com os jogadores ano a ano, mês a mês, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, custa a acreditar que não haja um ‘golpe de vista’ -- já não digo um ‘golpe de génio’ -- para salvaguardar um pouco melhor os interesses de um clube tão especial mas ao mesmo tão incapaz de rentabilizar o produto do seu trabalho e daquilo que parece ser uma importante vocação.

Mesmo considerando os dias que correm, pouco propensos, infelizmente, ao rigor, ao método e à visão prospectiva, não instantânea, das organizações e do seu objecto primacial, julgo que vale a pena ao Sporting um derradeiro esforço no sentido de não negar a vocação, mas corrigir aquilo que tem sido o seu maior ‘pecado’, isto é, não deixar fugir os jogadores que 'forma' para adversários ou rivais; apostar em mais atletas com o perfil de Moutinho e fazer uma rendibilização mais criteriosa dos seus ‘activos’, quer desportiva quer financeiramente.

Essa também é uma tarefa para Godinho Lopes entre os 'mil trabalhos', todos muito difíceis, que a presidência do Sporting tem pela frente. É preciso cuidar da árvore. E sobretudo da floresta.

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