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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Um homem do ‘contra’


Em Portugal, há um certo temor reverencial em relação a Mário Soares.
Os políticos e os comentadores evitam criticá-lo e, quando o fazem, usam punhos de renda – embora Soares não use a mesma diplomacia e seja, por vezes, muito cáustico no ataque político e mesmo pessoal.
O documento agora divulgado apelando à demissão do primeiro-ministro, de que ele é o primeiro subscritor, é surpreendente num ex-Presidente da República, que se presume ser uma pessoa sensata e ponderada.
Soares acha que o Governo é mau, e tem todo o direito de o dizer.
Mas apelar à sua queda, numa altura em que o país está sob resgate estrangeiro, é uma perigosa irresponsabilidade.
Parece que, como o Partido Comunista ou o Bloco de Esquerda, Soares pensa: ‘Deita-se o Governo abaixo e depois logo se vê’.
Ora o Governo pode deitar-se abaixo – mas existe um Memorando que os três maiores partidos assinaram e que impõe obrigações ao país.
O que se faz com ele?
Rasga-se, como a extrema-esquerda defende? E que consequências isso terá?
Soares parece não perceber que o mundo mudou muito desde os tempos em que estava no activo.
Hoje há mais exigência, há mais interligação entre os países e os mercados, e isso obriga a mais cautelas.
Se o Governo agora saísse, o estrangeiro passaria de um dia para o outro a olhar-nos com tremenda desconfiança, o crédito internacional cairia a pique, os juros disparariam, a situação ficaria fora de controlo.
Não basta, pois, querer derrubar o Governo: é preciso apresentar alternativas aceitáveis pelos credores; ora Soares não as apresenta, porque não as tem.
Há dois tipos de pessoas: as que foram feitas para construir e as que foram feitas para destruir.
As que foram feitas para encontrar soluções e as que foram feitas para arranjar problemas.
As que olham para o lado positivo da realidade e as que vêem sempre o lado negativo.
Ora Soares, por maneira de ser, foi sempre – ou quase sempre – um homem do ‘contra’.
Sempre esteve mais do lado de criticar do que do lado de fazer.
Sempre esteve mais do lado de levantar problemas do que de resolver problemas.
Antes do 25 de Abril, era da oposição – como mais de metade do país.
A seguir ao 25 de Abril, distinguiu-se na luta contra o PCP, o que também correspondia ao sentimento da grande maioria dos portugueses.
Houve, depois, um período em que Soares esteve na área do poder – mas aí envolveu-se na luta contra o Presidente da República, general Ramalho Eanes.
Depois, esteve contra a AD de Francisco Sá Carneiro.
E após ascender à Presidência da República, assumiu como principal tarefa o combate contra o primeiro-ministro, Aníbal Cavaco Silva.
Depois de sair da Presidência, continuou a estar sempre mais ou menos na oposição, excepto durante o Governo de Sócrates, o que não deixa de ser curioso; talvez fosse o pagamento pelo facto de Sócrates ter apoiado a sua candidatura presidencial – apoio que acabou por ser um presente envenenado, pois a candidatura saldou-se por um rotundo fracasso.
Mas, também aí, Soares candidatou-se sobretudo por razões negativas: para tentar anular a candidatura de Manuel Alegre.
Mário Soares foi, pois, sempre um ‘homem do contra’, mesmo quando era chefe do Estado, pelo que a sua posição actual não choca.
Mas há algo que não encaixa no seu percurso.
Uma das principais glórias de Soares como primeiro-ministro foi ter salvo o país da bancarrota em 1983-85, através de um plano de austeridade assistido pelo FMI.
Soares foi muito elogiado por isso: pela coragem de ter avançado com políticas impopulares, de braço dado com o ministro das Finanças, Ernâni Lopes.
Ora, este documento mostra que Soares rejeita a austeridade, tornando claro que a política de 1983-85 não foi obra sua – foi obra exclusiva de Ernâni Lopes, em colaboração com o FMI.
E este dado obriga a reescrever a História.
Muitas vezes, quando alguém referia a ‘irresponsabilidade’ de Mário Soares em matéria financeira, a sua falta de sensibilidade para estas questões, a sua ignorância dos números e dos dossiês, dizia-se: «Isso é desmentido pela posição que assumiu em 1983-85».
Agora sabe-se que essa política não foi implementada por ele – foi implementada ‘apesar dele’.
A atitude actual de Soares, embora legítima, coloca-o definitivamente ao lado dos radicais, dos que querem derrubar as instituições sem olhar ao dia de amanhã, dos que acham que as questões financeiras são irrelevantes e que a bancarrota é um papão da direita.
Mário Soares é herdeiro dos líderes republicanos que entre 1910 e 26 levaram a cabo uma agitação política frenética, que deixou os portugueses à beira de um ataque de nervos e as finanças públicas de rastos – e que acabou como tinha de acabar: com um golpe militar para pôr o país ‘na ordem’.
Os homens que têm mais vocação para arranjar problemas do que para encontrar soluções, acabam por conduzir os países para situações explosivas.

José António Saraiva
Fonte: Sol

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