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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Os pobres que paguem a crise...

Portugal é um país encantador. Tem praias fantásticas, cidades lindíssimas, um clima maravilhoso e uma história de conquista e de descoberta de outros mundos.

É certo que, como dizia o oficial romano, nunca tivemos jeito para nos governarmos, nem para sermos governados. Muito se discute a actual crise. Fala-se muito no facto de estarmos a perder regalias, mas não se fala tanto nos desempregados. Fala-se muito nos grandes poderes instituídos, mas os cães ladram e a caravana passa, utilizando aqui uma expressão bem popular.

Há uns meses todos os cidadãos que dispunham de uma antena para receberem os quatro canais de sinal aberto, foram obrigados a comprar um aparelho para poderem entrar na era da Televisão Digital Terrestre. Muitas famílias sem meios para comprarem os medicamentos necessários para terem uma vida com a mínima dignidade, viram-se na contingência de desembolsarem entre 30 a 80 euros. Alguns não tiveram outra alternativa que não fosse aderirem a uma das operadoras que ‘oferecem’ os canais por cabo.

Apesar do esforço, muitas famílias viram-se privadas da televisão, único meio que as mantinha em contacto com o mundo. Falou-se alguma coisa da injustiça da medida, mas o ‘programa’ continuou. Afinal, os mais desfavorecidos têm pouco tempo de antena e, eventualmente, quem ganhou com o negócio fez de conta que tinha de ser mesmo assim.

Agora o Governo anunciou e colocou em prática outra media, esta bem mais grave, que obriga pequenos comerciantes a comprarem máquinas de 1.200 euros para poderem passar facturas de meio quilo de batatas ou de uma alface. Mas será que não há limites para os sacrifícios? Não se estará a obrigar pessoas que já vivem com grandes dificuldades a desembolsarem uma verba que só conseguirão recuperar com dois ou três meses de trabalho? No mercado onde me abasteço, vejo pessoas que se levantam às cinco da manhã para comprarem os legumes e a fruta que venderão na praça. Sem a tal máquina, estarão a cair na alçada das multas. O papel gasto nestas operações será bem mais caro que alguns dos produtos. Imagine-se a venda de rebuçados avulsos. Por cada um será preciso passar uma factura. Fará isto algum sentido? E o que dizer de pequenos agricultores que vivem do que ganham com os produtos da sua horta? Vão ser perseguidos?

Ainda há semanas estive em Paris e nos mercados de rua onde comprei fruta não vi uma única máquina registadora... As classes mais desfavorecidas precisam de poder viver.

Vítor Rainho

Fonte: Sol

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