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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

António José Seguro no trono de S. Pedro?

A oportunidade de assistir à demissão de um Papa é algo absolutamente fascinante, qualquer que seja o ponto de vista com que olhemos o acontecimento. Seja pela sua raridade (não por acaso se dizia que os Papas não se demitem: ou morrem ou são assassinados…), que não ocorria há mais de 600 anos, seja pela dimensão e importância do precedente que pode ter sido criado na vida da Igreja Católica, seja pelo que foi dado a entender sobre os motivos da renúncia, seja até pela insólita, mas admirável coincidência desta tão inesperada demissão ter ocorrido pouco tempo depois da divulgação do filme de Nanni Moretti, Habemus Papam (2011), em cujo conteúdo acidentalmente profético ninguém acreditaria até há poucos dias.

Não serei eu, leigo na matéria, que me atreverei a fazer interpretações desenvolvidas sobre esta demissão, A homilia de despedida de Bento XVI, há poucos dias proferida na Basílica de São Pedro, apresentou razões objectivamente mundanas sobre a sua decisão, não resisto a fazer-lhe alguns comentários.

O primeiro é que esta decisão foi objectivamente política, ela não se esgotou na idade do Papa e na sua eventual consciência de que lhe começavam a faltar forças para tamanho empreendimento. Bento XVI justificou a sua atitude com problemas no seio da Igreja , atitudes excessivamente mundanas («hipocrisia religiosa, o comportamento de que buscam o aplauso e a aprovação do público»), de guerra pelo poder («Penso em particular nos atentados contra a unidade da Igreja e nas divisões no corpo eclesiástico») e de desvirtuamento da missão da Instituição («O verdadeiro discípulo não serve a si mesmo ou ao público, mas ao Senhor, de maneira singela, simples e generosa»). E disse-se «bem consciente da gravidade deste acto». A conclusão evidente é a de que a Igreja Católica padece, afinal, das mesmas mazelas de todas as instituições humanas, sobretudo a do poder.

Outra observação é a de que esta atitude, não me parece nada inspirada pela fria racionalidade protestante alemã, mas sim pelo temperamento exaltado dos latinos, que batem com a porta quando estão fartos de aturar alguém ou alguma coisa. Uma atitude bem católica tradicional, portanto, no sentido que o Pedro costuma utilizar.

A terceira observação é de que os próximos tempos vão exigir um papa político, à João Paulo II. Bento XVI foi um papa eminentemente espiritual, um teólogo racional e inspiradíssimo, e sobretudo preocupado com as questões da fé, em contraponto com o perfil político da liderança de João Paulo II. Desse ponto de vista, a sua superior inteligência e racionalidade, e o seu afastamento voluntário das questões mundanas, prejudicaram a sua função de líder, de chefe político da Igreja. E, pelo que se tem visto por estes dias, aquela gente no Vaticano está mais interessada em questões de egos pessoais e em jogos de poder, do que em assuntos da fé. Nada de novo na casa, em verdade se diga. Mas á preciso pô-la (e, sobretudo, pô-los) na ordem.

Por mais que se simpatize com Ratzinger, e eu confesso a minha admiração por ele, a Igreja Católica sai do seu governo mais enfraquecida, dividida e confusa do que antes estava. Os conservadores não acharam graça nenhuma a esta demissão, a opinião pública interroga-se sobre o que terá acontecido, e muitos católicos começam a ter sérias reservas sobre a índole das pessoas a quem confiam a sua fé. E se o Conclave escolher um Papa frágil para fazer a transição, uma espécie de António José Seguro que deixe cada grupo com aquilo que é seu e fazer o que bem quer e lhe apetece, então, nesse caso, a Igreja Católica só poderá esperar por dias ainda mais negros. Esperemos que isso não venha a acontecer.

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