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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Cinema Paraíso: Crítica - Lincoln (2012)


Realizado por Steven Spielberg
Com Daniel Day-Lewis, Joseph Gordon-Levitt, Tommy Lee Jones, Sally Field


Um bocado limitado mas satisfatório. É o que posso começar por dizer sobre “Lincoln”, de Steven Spielberg. Baseado no livro “Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln”, de Doris Kearns Goodwin, “Lincoln” retrata os atribulados últimos meses de vida de Abraham Lincoln (1809 – 1865), focando-se especialmente nos eventos políticos que rodearam a apertada votação que Lincoln (Daniel Day-Lewis) propôs na Câmara dos Representantes para aprovar a 13ª Emenda à Constituição Americana, que visava legitimar a ilegalização da escravatura. O espetro narrativo/ histórico deste filme pode parecer redutor, porque na realidade é extremamente redutor, no entanto, convém mencionar que, para além do importante mas agastado tema central, são explorados, de uma forma mais restrita e limitada, outros temas periféricos como o sangrento desfecho da Guerra Civil Norte-Americana (1861 – 1865). No geral, “Lincoln” não convence como produção biográfica/ dramática sobre a vida do 16º Presidente dos Estados Unidos da América, porque não nos permite ficar a conhece-lo melhor ou, pelo menos, ficar com uma impressão mais pessoal da sua personalidade, já que são raros os momentos que puxam pelo seu lado mais íntimo ou até pelo seu polivalente lado politico que, por muito mérito que tenha, tem vindo a ser progressivamente contaminado pelo patriotismo exacerbado e pela visão destorcida de quem o vê como um herói sem falhas e não como um ser humano normal, não muito diferente de uma ampla variedade de políticos da época. A glorificação de Abraham Lincoln já era esperada e confirmou-se, mas não é só por este motivo que este filme defrauda as expetativas.


Já se sabia que “Lincoln” não ia abordar toda a existência de Abraham Lincoln, mas sim os seus últimos meses de vida. Este conceito é de criticar, porque a vida de Lincoln não se resume apenas aos seus momentos finais, mas sim a tudo o que ele viveu e tudo o que ele fez de bom e de mau. Os seus últimos meses foram, provavelmente, uma das suas melhores fases politicas, já que a Guerra Civil estava praticamente terminada e os Rebeldes/ Confederados estavam resignados com a derrota, a esmagadora maioria do povo idolatrava-o e apoiava todas as suas ações politicas, a sua vida familiar estava a passar por uma fase bastante estável, o seu partido apoiava-o quase sem restrições e até os seus rivais políticos não tinham grandes razões de queixa, assim sendo, este seria sempre o melhor momento da sua vida para ser retratado numa longa-metragem, já que acompanha a glorificação máxima da sua praticamente inigualável carreira política. No fundo, "Lincoln" retrata apenas o complicado apogeu da carreira desta importante figura histórica que, após acabar com uma guerra que partiu o seu país em dois e de ter conseguido abolir o flagelo da escravatura, foi assassinado de uma forma brutal e dramática. Esta importante mas diminuta abordagem dramática pode até encher as medidas a alguns espetadores, mas confesso que me parece extremamente incompleta, porque esquece quase por completo o resto da sua vida. Entre as partes biográficas negligenciadas estão os vários erros e falhas que o protagonista cometeu ao longo da vida e que englobam, por exemplo, o conturbado início da sua vida democrática ou a instabilidade da sua dinâmica familiar. Esta última até é timidamente abordada por força de algumas interações entre Lincoln, a sua mulher, Mary Todd Lincoln (Sally Field), e o seu filho mais velho, Robert Todd Lincoln (Joseph Gordon-Levitt), mas estas raramente vão ao cerne da questão e muito raramente dão a entender o que é importante, ou seja, não ilustram as consequências psicológicas e negativas que a loucura da sua mulher ou a morte de um dos seus filhos teve na sua vida. A traumática infância de Lincoln também só é recordada por uma vez durante uma conversa quase secundária, mas pelo menos é lembrada, ao passo que outros momentos importantes da sua vida e carreira são completamente esquecidos. Enfim, “Lincoln” deixa muito a desejar como um produto biográfico e histórico, porque não vai além da imagem patriótica e não explora todos os factos com imparcialidade. Já como uma produção politica, “Lincoln” é um filme muito bom. Todas as questões e jogos políticos que rodearam a polémica votação na Câmara dos Representantes para aprovar a 13ª Emenda à Constituição Americana, são retratadas com minucia, engenho e criatividade. A batalha pessoal e política que Lincoln travou, num curto espaço de tempo, para fazer cumprir o principal ponto da sua agenda política é explorada de uma forma magnífica, conseguido por isso conferir ao público aquela tensão e emoção que pauta os jogos políticos e a prossecução do grande objetivo do protagonista, objetivo esse que neste caso é conseguido quase a qualquer custo e com grande sacrifício. Os ganhos e vitórias de Lincoln são louvados e referenciados mas, neste capítulo, também nos são mostradas as suas derrotas, que englobam sobretudo as falhas catastróficas que pautaram as negociações de paz com os Estados do Sul e que acabaram por prolongar a Guerra Civil por mais três meses. É de aproveitar esta parte para falar um pouco sobre a caraterização psicológica e moral dos vários políticos da altura, uns mais liberais, outros mais conservados e uns extremamente radicais. A variedade é notória e exterioriza o ambiente de liberdade da altura. Os debates na Câmara dos Representantes estão muito bem executados e animam o filme, contrabalançando assim com os momentos mais calmos que envolvem os discursos internos e as histórias cáusticas do interveniente central.


A concluir “Linclon” está um desfecho ridículo, onde o melodrama desnecessário inunda o ecrã. Já todos sabemos como é que termina a história de vida de Abraham Lincoln, mas Steven Spielberg conseguiu a proeza de torná-la ainda mais trágica, pesada e pindérica. O evento fatalista não é diretamente retratado, mas antes fosse. A alusão à morte é feita indiretamente pela menção da notícia fatalista e pela reação direta da pessoa que mais gostava do presidente, sendo esta reação compreensiva mas largamente desnecessária para o objetivo do filme. Este momento dramático é completado por um par de sequências, onde é exibida a prova da morte e um discurso cliché que exprime os grandes ideais do protagonista. O filme termina mal e tem um desenvolvimento mediano. O que se salva então em “Lincoln”? A resposta reside na performance global do seu elenco e na sua componente técnica/ visual. O incrível Daniel Day-Lewis assina mais um trabalho de luxo sem falhas, tal como aqueles que teve em obras tão diversas como “There Will Be Blood” (2007), “In the Name of the Father” (1993) ou “My Left Foot: The Story of Christy Brown” (1989). A sua interpretação de Abraham Lincoln é sublime e merecedora de todos os elogios possíveis. A apoiá-lo está um conjunto de excelentes atores secundários como Joseph Gordon-Levitt, Tommy Lee Jones, Sally Field e David Strathairn. Tommy Lee Jones está perfeito como uma espécie de aliado mascarado de Abraham Lincoln que, ao longo do filme, envolve-se em diálogos muito fortes e alguns até cómicos, que tornam “Lincoln” muito mais apelativo. Sally Field também está muito bem como a única mulher de relevo do filme, mas a sua Mary Todd Lincoln necessitava de mais trabalho por parte da equipa de guionistas, já que esta figura foi muito mais do que aquilo que aparece no ecrã. O que falta a este elenco é um ator ou atriz afro-americano/a num papel de relevo, afinal de contas um filme sobre a questão da escravatura devia dar mais atenção aos afro-americanos e devia ter mais membros desta raça na sua trama. A direção de Steven Spielberg é tecnicamente exímia. Os seus planos podem ser um pouco pesados em certas alturas e, no meu entender, eram precisas mais sequências no exterior que mostrassem um pouco melhor o ambiente que se vivia nas ruas e os confrontos bélicos que se travavam nas zonas de batalha, mas fora isto não tenho grandes críticas a apontar ao trabalho de um dos grandes realizadores da história da sétima arte. A parte visual de “Lincoln” beneficia também dos contributos positivos e significativos dos departamentos de fotografia, direção artística, montagem, caracterização, guarda-roupa e banda sonora. Os ilustres desempenhos da maior parte destes departamentos foi reconhecido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos da América com nomeações aos Óscares, mas não sei até que ponto “Lincoln” pode ser considerado um claro favorito em qualquer uma dessas categorias, porque apesar de ser satisfatório, "Lincoln" não é o grande filme de que estava à espera nem o grande filme que eu queria que fosse.

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