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terça-feira, 9 de abril de 2013

Carta aberta ao Infante Tó Zé


Caro To-Zé Inseguro,

Escrevo-te esta missiva porque me dizem que aprecias a palavra escrita e valorizas algumas tradições que a ditadura dos mercados e o neo-liberalismo tecnológico eliminaram do debate político, com a sua “deslocalização” – a terrível “deslocalização” – para plataformas on-line, facebooks, blogs, smartphones, e uma panóplia de ambientes virtuais onde todo e qualquer um tem direito à opinião. Longe estamos do tempo em que o debate se fazia de forma ordeira, em salas luminosas, com o brilho novecentista, preenchidas pelas boas ideias que os mapas de excel – um destes dias tenho de te mostrar um – teimam agora em contrariar. Economicismos…

Ontem, ao ouvir-te na caixa mágica da televisão púbica, renasceu em mim a Esperança. Vejo em ti o Infante de que o País precisa para voltar a Sonhar. Sim, porque já dizia o poeta, Portugal só se concretiza na Utopia dos homens, que Sonham, para que a Obra nasça.

Sim, caro Infante, “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. E as tuas palavras, aparentemente inconsistentes, carregam essa ânsia de infinito, nesse sonho que “é ver as formas invisíveis, da distância imprecisa, e com sensíveis movimentos de esperança e da vontade, buscar na linha fria do horizonte a árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte – os beijos merecidos da Verdade”.

Sim, caro Infante, muitos te irão apontar que “o esforço é grande e o homem é pequeno”, e que o mostrengo, esse, por aí continua a pairar. “Esse mostrengo que do Centro da Europa, se ergue e paira e está aí sempre a cobrar, o que nós, Portugueses, insistimos em gastar”. Mas confiamos em ti, trémulo Inseguro, para que ergas as mãos várias vezes, e lhes digas, ao Mostrengo e aos seus lacaios, mesmo a tremer três vezes, “passa para mim o leme, porque eu sou mau, mas aqui, hoje, sou mais do que eu, sou eu e um povo que quer o dinheiro que é teu, e mais do que tu, troika, que a minha pobre alma teme, e rodas nas trevas do fim do mundo, manda a vontade que me faz querer o leme, de afundar o que ainda sobra deste Portugal Profundo”.

Sim, caro Infante, da pérfida Europa dir-te-ão, “Senhor, falta cumprir, Portugal”. Mas não te preocupes com isso, sempre foi assim, e já cantava também o poeta, “a alma é divina e a obra imperfeita, que, da obra ousada, é minha a parte feita: o por-fazer é só com Deus”. Sendo tu laico, e socialista, podes sempre mais tarde culpar os mercados, o sistema financeiro, a Goldman Sachs, e a senhora Merkel pelo fracasso.

O que importa é que o teu esforço vale a pena. E, diga-se, conhecendo as tuas limitações, a tua ambição não é pequena. Mas se queres ir além do Rato, é bom que deixes a palavra, e passes mais ao ato. De contrário, o Império não será teu. Mas do gajo que acabou de voltar de Paris.

Com amizade,

Zé Povinho

Fonte: O Insurgente

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