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quinta-feira, 4 de abril de 2013

Cinema Paraíso: Taxi Driver

Uma versão digital e restaurada de “Taxi Driver”, de 1976, chega hoje aos cinemas.

“Taxi Driver” tornou-se um clássico e é apontado como uma das obras-primas de Martin Scorsese, o que só veio comprovar, já naquela altura, o seu talento como realizador. Trata-se de um retrato violento da solidão e alienação, com um argumento de Paul Schrader, que conta uma história de ansiedade pessoal mas também política e social. Robert De Niro desempenha o papel de Travis Bickle, um taxista ex-veterano da guerra do Vietname atormentado pelas suas experiências passadas, numa interpretação que fez história no cinema como uma das mais intensas alguma vez trazidas ao ecrã.


Sinopse:

Travis Bickle, um veterano da guerra do Vietname, conduz um táxi em Nova Iorque no turno da noite. Solitário e com insónias, Travis passa a noite a trabalhar, testemunhando a vida sórdida das ruas.
Após sucessivas frustações, que incluem um encontro falhado e a tentativa de libertar uma prostituta de catorze anos, Travis, numa mistura de revolta e impotência, decide comprar quatro armas e parte numa cruzada violenta pela cidade…
O filme recebeu quatro nomeações para os Óscares nas categorias de melhor actor (Robert De Niro), melhor actriz secundária (Jodie Foster), melhor banda sonora (Bernard Herrmann) e melhor filme (Julia Phillips e Michael Phillips).

Trailer:




Crítica:

“Taxi Driver” é uma daquelas obras essenciais. É já hoje um daqueles filmes seminais, repleto de imagens que se celebrizaram, fazendo já parte da cultura popular ocidental. A narrativa em si, não tem grande profundidade, podendo ser reduzida a duas ou três frases. Travis Bickle (Robert De Niro num dos seus melhores desempenhos – papel que esteve pensado para Jack Nicholson ou Harvey Keitel) é um indivíduo perdido num mundo só seu. Vagueando pelas ruas de uma New York violenta, conduzindo um táxi, que usa como armadura ou máscara, Travis vive de obsessões. Primeiro a obsessão com a própria cidade, reduzida ao microcosmo de Time Square. Depois a obsessão com Betsy (Cybil Sheperd), uma bela mulher que trabalha junto da campanha politica do candidato presidencial Palantine.
Falhada que será essa relação (dir-se-á que o próprio Travis a sabota …), outra obsessão: Iris (Jodie Foster no seu segundo filme com Scorsese), uma prostituta adolescente, símbolo máximo da degradação moral que Travis associa à cidade e a tudo o que o rodeia. Travis caminha de obsessão em obsessão, em tentativas constantes para ter algum reconhecimento numa sociedade que o aliena. Uma espiral que se arrasta, adivinhando a ruptura que resulta num banho de violência e, na ironia suprema, de uma redenção final e heroificação de Travis Bickle. Taxi Driver dá-nos, ainda hoje, uma fabulosa reconfiguração de vários géneros. Por um lado temos a clara desconstrução da figura do vigilante americano, o herói “one man show”, levado ao extremo pelas personagens de Clint Eastwood (Dirty Harry). Por outro lado, temos a actualização do western, como muitas leituras do filme salientam. O argumento de Paul Schrader é brilhante e dificilmente veríamos o mesmo filme com um outro actor que não De Niro ou um outro realizador que não Martin Scorsese.
“Taxi Driver” é um daqueles filmes paradigmáticos, que nos recordam a verdadeira arte do trabalho cinematográfico. É um trabalho de equipa, colaborativo e Taxi Driver é essencialmente fruto de uma equipa. Paul Schrader, Robert De Niro e Martin Scorsese formaram uma equipa ganhadora, que viriam a repetir em filmes posteriores. Schrader empresta ao filme a sua história de vida pessoal, o próprio percurso conturbado que seguia (a roupa de Travis Bickle é inclusivamente sua). Segundo o próprio, terá escrito o argumento em dez dias, enquanto vivia nas ruas de New York e deambulava pela cidade, logo depois de ter saído de um casamento e várias frustrações pessoais. Taxi Driver mostra ainda a dimensão de De Niro enquanto actor. De Niro, saído de uma colaboração com Scorsese em Mean Streets, dá a Travis um misto de humanidade e perversão que, não deixando que a personagem seja repelente aos nossos olhos, a leva para o campo da ambiguidade, permitindo que se transforme num ícone urbano. O filme ilustra ainda o “método”, a escola de representação de Niro. Para a composição da personagem Travis é agora famosa a preparação que o actor seguiu. No período anterior à rodagem do filme, De Niro optou por experimentar a vida de taxista, seguindo muitos dos percursos que a personagem faria. A experiência, segundo consta, foi perturbadora, mais ainda para Scorsese que o acompanha numa das viagens. A juntar a todos estes elementos, temos ainda um Martin Scorsese no seu melhor, apoiado claro está por um conjunto de profissionais que começavam então a sua carreira. O director de fotografia, Michael Chapman ou a editora Marcia Lucas são bons exemplos disso mesmo. Depois temos também um veterano, Bernard Herrmann, que compôs para Taxi Driver a sua última banda sonora – viria a morrer pouco antes da estreia do filme –, aumentando ainda mais a sua intensidade dramática.
Claramente inspirado na tradição do film noir (Schrader é um fã confesso, tendo mesmo escrito vários textos sobre esse subgénero), Taxi Driver é um filme dos anos 70 que, dificilmente, poderia ter sido feito noutra altura. Visualmente é perturbador, surrealista, intenso e tremendamente desafiante para o espectador. O technicolor é trabalhado de uma forma interessante. Scorsese dá a cada frame uma cor pastel que, apesar de ser característica mais ou menos comum dos filmes da geração, em combinação com outros elementos do filme, acaba por dar ainda mais significação à narrativa. De certa forma, tudo no filme é noite, como que não havendo distinção entre noite e dia ou mesmo passagem do tempo. Para Travis tudo é noite e degradação, mesmo os momentos que ocorrem durante o dia acabam por ser episódicos. A natureza quase vampiresca de Travis Bickle é reforçada por esse jogo de luz e cor. O estilo de realização, esse, é vincadamente europeu, deixando antever ecos da vanguarda francesa. São várias as referências e diálogos estabelecidos com Godard ou Troufaut. Eram afinal os anos de afirmação da geração de Andrew Sarris e da importação para os EUA do conceito de auteur, tão em voga na Europa. Scorsese, melhor do que muitos dos seus companheiros movie brats, segue à risca esses padrões, custando mesmo a acreditar que George Lucas tinha a primeira opção sobre Taxi Driver, já que Scorsese ainda não teria grande crédito em Hollywood no inicio dos anos 70, quando o guião de Schrader estava pronto. Exemplificativo da arte de Scorsese é uma das cenas mais citadas: a inacção da câmara no momento em que Travis é rejeitado por Betsy, depois de este a ter levado a um filme porno. Travis está ao telefone, tentando desculpar-se junto de Betsy. Progressivamente, a câmara afasta-se do protagonista, parando apenas no corredor que vai dar à rua. Enquanto ouvimos Travis, a imagem que nos chega é apenas a do corredor. O vazio de Travis será o vazio do corredor? Simbólica é também a cena em que a revolta interior de Travis é resumida na famosa captação que Scorsese faz de um copo, onde uma Alka-Seltzer borbulha, enquanto num café os companheiros de Travis se reúnem para trocar histórias. Numa outra perspectiva, mas mostrando de igual forma os elementos que caracterizam a realização de Scorsese, temos também a questão da improvisação. Outro dos aspectos que distingue o realizador ítalo-americano é mesmo o espaço que dá aos actores e o respeito que tem por eles – elementos que Robert Altman, por exemplo, detestava.
Nos seus filmes são já famosos os trechos em que houve improvisação. A tal ponto que Taxi Driver veio mesmo confirmar Scorsese junto da critica como “The King of improv. (improvisation)”, sendo De Niro o seu parceiro principal. É já conhecida, por exemplo, a história por trás do “Are you talkin’ to me?” em frente do espelho. Cena completamente improvisada por De Niro, apenas gravada por Scorsese porque este manteria a câmara ligada devido ao ruído imenso que se ouviria na rua, algo que levava Scorsese a acreditar que nada do que filmava no quarto de Travis se conseguiria ouvir sequer. Diálogos inteiros (principalmente no táxi) foram também improvisados, algo que assustaria qualquer realizador da era clássica de Hollywood. Porém, também esses improvisos são “previstos” por Scorsese (tirando talvez as cenas no quarto de Travis claro).
Considerar um filme como Taxi Driver é também considerar o contexto em que foi produzido. É, antes de mais, um filme que se assume como de rompimento com a estética da clássica Hollywood (Scorsese afirma-o em vários momentos). Estávamos a sair do momento de contra-cultura simbolizado pela rebeldia de um filme como Easy Rider ou de figuras como Dennis Hopper. A geração de Scorsese apostava sobretudo em destacar-se da corrente, em deixar a sua assinatura na tela. A juntar a isso, viviam-se tempos de grande conflituosidade social. Conflitos sociais, crime e mesmo o assassinato de figuras políticas eram marcas desse clima de contestação. O filme retrata um caminho rumo à violência que também se sentia na rua, daí a força que teve quando saiu. Como que enquadrando tudo isto, temos a guerra do Vietname. Chegava ao seu fim, mas eram muitas as cicatrizes. Apesar de Scorsese não apostar essencialmente nesse caminho, Bickle tem um passado ligado ao Vietname, já que fora um marine.
Datado que esteja Taxi Driver visualmente, a verdade é que continua a ser um filme actual, mantendo um intenso diálogo com a actualidade. Mostrando talvez uma New York que já não existe, continua a mostrar uma América bem viva e actual. A violência genética que marca a vida americana está lá. O fetichismo surrealista e doentio em relação às armas também, reforçado pelo cameo (também casual) de Scorsese no táxi. Mostra-nos também uma violência urbana, psicológica, que nos toca pela imensa solidão que a reforça. Travis é tão ambivalente, misturando aspectos tão familiares e estranhos, que somos tentados pelo que representa. De certa forma, todos somos, por vezes, um Travis Bickle. Taxi dá-nos uma imagem de quotidiano que perturba, acabando por transmitir um forte sentimento de “rua”, algo que poucos filmes conseguem transmitir, marca indelével do cinema de Scorsese. A rua é de facto assim: dura e ambígua. Taxi, ao misturar esse realismo puro com uma certa natureza fantástica acaba por ser um comentário sobre nós, sobre o sentimento humano e a forma como é moldado pela sociedade. Mais perturbante ainda é o comentário sobre a sociedade como um todo.
Ao fim e ao cabo, a mesma sociedade que afasta pessoas como Travis, é aquela que, no final, o absolve e o eleva ao estatuto de herói redentor. A degradação moral da cidade americana será talvez a degradação moral do ocidente. Concorde-se ou não com o que Taxi nos apresenta, facto é que tudo no filme respira arte. É um filme a ver ou a recordar, não só pelo que simboliza visualmente, mas também pela influência enorme que deixou em vários segmentos da cultura popular ou mesmo no trabalho de vários realizadores que se seguiram.

Realizador: Martin Scorsese
Argumento: Paul Schrader
Intérpretes: Robert De Niro, Jodie Foster, Cybill Shepherd, Diahnne Abbott, Victor Argo, Peter Boyle, Albert Brooks, Brenda Dickson
Estreia Mundial: 1976

Mais Info: IMDB

Fonte: Best Cine

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