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terça-feira, 4 de junho de 2013

A nova esquerda é igual à velha

Uma aproximação do PS à esquerda, a acontecer, deve ser no campo dos valores e não no campo partidário, porque um e outro não são a mesma coisa.

soares

A esquerda anda em alvoroço. Na semana passada, decorreram duas conferências (uma nacional e outra internacional) cujo propósito foi o de lançar as bases para uma nova esquerda - leia-se uma esquerda onde caibam vários protagonistas e vários partidos. O que significam estas movimentações? "É o começar de qualquer coisa", disse um dos intervenientes. Pois. Só falta descobrir o quê.

A "próxima esquerda" terá de integrar partidos políticos e movimentos sociais. Esta convicção, sublinhada na conferência internacional, obteve a concordância de todos, incluindo António José Seguro. O mote para a conferência nacional, uns dias depois, estava lançado: "os partidos de esquerda têm de se entender de uma vez por todas". Porquê? De acordo com Vasco Lourenço, porque "a população está sedenta que isso aconteça". Mário Soares, promotor da coisa, concorda: há a "necessidade absoluta de o país ter um governo de esquerda" pois "este governo já não é legítimo, foi eleito por engano". Os alvos eram a austeridade e o governo, mas Cavaco Silva não escapou aos disparos. Perante uma plateia que vociferava sempre que ouvia o seu nome, Mário Soares responsabilizou o Presidente da República pela violência que atingirá as ruas num futuro incerto. Seguro não esteve presente.

Há quem se tenha entusiasmado com isto, sem entender que nada disto é novo e que disto nada de novo sairá. Tudo isto é velho - como Soares. É velha a crença de que a esquerda manda no regime. É velha a convicção de que só é legítimo o governo que a esquerda aceitar. É velha a manipulação retórica das eleições (se a esquerda perde é porque o povo se enganou). É velha a tentação de ser porta-voz da vontade do povo, que só a esquerda conhece. E é velho o apelo à violência popular, que só é legítima se alinhada com a esquerda. Achar que aqui está um novo futuro para a esquerda é, forçosamente, uma ilusão.

Isto leva-nos ao problema de fundo destas conferências e demais iniciativas de união das esquerdas: como é que se pode preparar o futuro sem discutir ideias? De facto, evento atrás de evento, a única coisa que ficamos a saber é que, nessa nova esquerda, terão de caber socialistas, comunistas, trotskistas, capitães de Abril e Sampaio da Nóvoa. A aproximação tenta-se, pelos vistos, pela convivência e não pelas ideias políticas.

Percebe-se porquê. No campo das ideias políticas não dá. Num dia, o PS de António José Seguro defende "mais tempo para consolidar as contas públicas". No outro, ouvem-se apelos à radicalização: "não há alternativa com memorando, o que foi roubado terá de ser devolvido", exclamou Cecília Honório (BE) com a concordância do PCP que, para não se ficar, piscou o olho à saída do euro e exigiu a renegociação, incluindo a recusa da componente "ilegítima da dívida". Não admira que, por mais que Soares insista, António José Seguro se mantenha longe. De facto, não parece boa ideia o PS aproximar-se de quem, sendo governo, rebentaria as contas públicas num trimestre.

Estas iniciativas conduzem a uma dupla evidência: uma nova política de esquerda só depende do PS, e só será de facto nova se o PS, no seu debate interno, decidir romper com os interesses instalados que, por constituírem a sua base eleitoral, continua a proteger. Uma aproximação do PS à esquerda, a acontecer, deve ser no campo dos valores e não no campo partidário, porque um e outro não são a mesma coisa. Todo o resto da discussão é paisagem, muitos excessos retóricos e os protagonistas de sempre.

Alexandre Homem Cristo in iOnline (03-06-2013)

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