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sábado, 20 de julho de 2013

Como esfolar um gato

Nicolau Santos, no Expresso:


Estamos na terceira semana de crise política. O país espera que saia fumo branco das negociações entre PSD, CDS e PS. E o Presidente da República instiga os partidos a despacharem-se. Pelo meio, teremos uma moção de censura ao Governo apresentada pelos Verdes. 
Como é óbvio, esta moção de censura dá a mão ao Governo e entala o PS. O primeiro-ministro disse-o claramente: "a moção de censura é muito bemvinda". Assim, o Governo dispensa-se de ser ele a ter de apresentar uma moção de confiança. E enquanto neste caso o PS votaria contra sem nenhum problema, no caso de uma moção de censura passa a estar numa posição mais difícil. 
E mais difícil porque é obviamente contraditório estar a negociar um acordo de salvação nacional com os partidos que sustentam o Governo e ao mesmo tempo votar uma moção de censura que assenta precisamente na crítica à política conduzida pelo Executivo, que o PS partilha. A opinião pública vai ter dificuldade em perceber esta contradição. 
Por outro lado, ao aceitar o repto do Presidente, o PS corre o sério risco de vir a ser responsabilizado pelo falhanço das negociações - e logo de estar contra o interesse nacional. E corre esse sério risco porque não se vê como o PS possa concordar com o corte de 4,7 mil milhões na despesa pública, com as novas regras aplicadas aos funcionários públicos, com a manutenção da enorme carga fiscal sobre os portugueses - tudo coisas que seguramente terão de estar nesse acordo. Ou então terá de ser rasgado o memorando assinado com a troika, coisa que não está em cima da mesa. 
Tudo visto e revisto, o PS teria sido avisado em deixar nas mãos do Presidente a resolução da crise, ou aceitando a remodelação do Governo ou avançando para eleições antecipadas. Ao aceitar negociar, o PS coloca-se a jeito para se tornar o bode expiatório do eventual falhanço da solução de salvação nacional que o Presidente pediu. 
António José Seguro só poderia ter aceite o reprto do Presidente, desde que logo à partida colocasse condições, porque neste momento é ele que está em melhor posição. Ao não o fazer, caiu na armadilha que lhe estenderam. Qualquer que seja o resultado do acordo, o PS sairá sempre pior desta situação. E mesmo a liderança de Seguro passa a estar em risco.

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