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terça-feira, 23 de julho de 2013

Em Portugal vai mudar alguma coisa?

O Vias de Facto publicou alguns excertos de um artigo polémico, mas assertivo, publicado pelo colectivo do Passa Palavra sobre os buracos sem fundo e sobre os cheques em branco do messiânico governo de esquerda. Ficam alguns excertos que me parecem mais significativos.


Quando a esquerda limita o seu alvo à constituição de um governo de esquerda e, acima de tudo, quando considera essa via como possível de reverter o quadro de austeridade está a ser demagógica. Nada temos contra o alívio das condições de vida dos trabalhadores. Mas é ilusório pretender que um governo de esquerda, por si só, será a variável independente que irá reverter a austeridade e trará o crescimento económico, o emprego e a melhoria da situação dos trabalhadores. A demagogia não existe no vazio. Ela é expressão dos interesses dos candidatos a gestores que pululam à esquerda.
Mas discutamos brevemente o que realmente significaria um governo de esquerda. E aqui duas questões se levantam.
Em primeiro lugar, como é que o conjunto da esquerda à esquerda do PS pensa poder constituir governo? No actual cenário parlamentar português só é possível constituir governo integrando o PS num governo. Ora, como este partido considera que o Memorando de Entendimento com a troika é para cumprir e que a austeridade vai continuar, como é que a esquerda lidará com esta questão?
Em segundo lugar, mesmo que fosse possível criar um governo empenhado na reversão da austeridade, como seria isso possível a partir de um único país, ainda por cima quando o Estado português não tem meios de se autofinanciar? E aqui entra o nó górdio do nacionalismo, Uma economia minúscula, endividada e pouco produtiva como a portuguesa não conseguiria lidar com a pressão das instituições europeias e escapar à austeridade. Qual o caminho desse governo português de esquerda? Ou se renderia aos termos do possível e se limitaria a negociar pequenas moderações à austeridade e, nessa situação, muito pouco se distinguiria do PS. Ou tentaria uma fuga em frente e o abandono da zona euro surgiria como o horizonte a considerar. Ora, como procurámos repetidamente demonstrar em vários artigos publicados neste espaço, uma saída do euro representaria um autêntico desastre económico e social para as condições de vida dos trabalhadores, agravando muitíssimo a austeridade. E, por inerência, representaria o funeral de qualquer veleidade autonomista da classe trabalhadora por anos e anos.
(...)
Não há que ter medo da realidade. Derrotar um governo é sempre positivo nos instantes seguintes à sua queda. Mas após os dez segundos iniciais de felicidade, se não houver lucidez e espírito crítico e se essa queda não derivar de lutas massivas dos trabalhadores, então as mesmas práticas, as mesmas políticas e os mesmos princípios de organização da vida em sociedade reproduzir-se-ão no governo seguinte. Derrotar um governo e colocar um outro governo, que de esquerda só levará o nome e fornecerá um novo fôlego de legitimidade à continuação da austeridade, servirá a prazo para desanimar milhares e milhares de trabalhadores e de activistas que colocaram as suas melhores energias e expectativas numa falsa solução.
A aposta da luta política contra o actual governo dos capitalistas não é errada por criticar a austeridade. A panaceia da batalha eleitoral para a formação de um governo de esquerda é um erro por não ver a austeridade como continuação da exploração económica por meios políticos e fiscais. O problema de fundo não é a austeridade, é a exploração. E, de imediato, é errado dar a prioridade à luta eleitoral relativamente à construção de um movimento de base.
Neste sentido, jogar toda a luta política no destino que se dê ao actual governo é uma aposta errada, porque se insere unicamente num desejo de renovação das elites no interior da classe dominante. São ingénuos os que crêem que um qualquer governo de esquerda poderá sequer minorar a austeridade. Só um vasto movimento internacional de base, auto-organizado pelos trabalhadores em torno das suas necessidades prementes e concretas, poderá criar condições para uma real alternativa emancipatória.

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