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terça-feira, 15 de maio de 2018
O Livro da Semana: Políticas e Políticos da Educação
Descrição
Coordenado pelos Professor Doutor João Ruivo e Dr. João Carrega, o livro reúne entrevistas a governantes e a líderes de opinião, que sobre a educação se pronunciaram, e que jornal Ensino Magazine publicou nos últimos doze anos, casos de Eduardo Marçal Grilo, Júlio Pedrosa, Pedro Lynce, Augusto Santos Silva, Maria de Lurdes Rodrigues, David Justino, Bagão Félix ou Mariano Gago, entre outros.
São pontos de vista que determinaram a agenda educativa e a história recente da educação em Portugal, pelo que constituem um repositório empírico incontornável e indispensável a todos quantos se interessam pela investigação em Ciências da Educação.
Mais pormenores em:
http://www.ensino.eu/loja-virtual/livros/livro-politicas-e-politicos-da-educacao.aspx
terça-feira, 8 de maio de 2018
O pequeno polegar vai à escola
Hoje, para a nova geração dos nascidos-digitais, o dedo polegar é referência de perícia metódica no manuseamento dos teclados dos dispositivos móveis, para o envio de mensagens, fotos, filmes….
Só um inqualificável distraído poderia não se ter apercebido das novas tarefas atribuídas pelos nossos jovens aos seus pequenos polegares. Polegares que invejamos, porque deslizam com velocidade estonteante sobre as letras dos teclados, sem precisarem sequer da ajuda de um olhar, até mesmo quando os jovens mantêm, em simultâneo, uma qualquer conversação, ou desenvolvem uma outra tarefa. Polegares que permitem estar "fora", mesmo quando se está "dentro": dentro da sala de aula, ou de qualquer outra situação, seja ela mais ou menos familiar, ou mais ou menos formal. Polegares que obrigam ao desenvolvimento de áreas outrora menos solicitadas do córtex cerebral, com implicações que a ciência ainda desconhece. Polegares que induzem novos modos dos jovens estarem consigo e com os outros. Que permitem a alternância entre a euforia e o desespero, entre a partilha e o total autismo social.
As novas competências atribuídas ao pequeno polegar mantêm um efeito gerador de intencionalidade comunicacional. Mas alteraram significativamente o sentido da mensagem e o uso do canal de comunicação.
A comunicação prêt-à-porter possibilitada pelos dispositivos móveis e pelas redes sociais, aliada à massiva utilização dos smartphones, tablets e congéneres, configuram uma das maiores contradições dos nossos tempos: por um lado, são janelas de liberdade e de comunicação que tornam o mundo pequeno e a solidão quase impossível; por outro, são olhos que nos atrofiam, já que espiam e registam cada momento da nossa vida.
Nestes contextos, o controlo do grupo de amigos é total e concentracionário. É viciante e estigmatiza. Onde se está, o que se faz, até quando e porquê - são perguntas que os grupos de pares dirigem aos jovens, dezenas de vezes por dia, e cujas respostas ajudam a manter a coesão do grupo. Hoje, é quase impossível supor que um amigo não saiba o que outro está a fazer… nesse preciso momento. Ou que não sinta uma imperativa necessidade de comunicar aos outros sempre e quando mude de "programa" ou de lugar. Nunca perguntam "como estás?". Antes interrogam: "onde estás?". E, nesse aspecto, a sociedade do conhecimento releva, sobretudo, uma enorme superficialidade: a de gerar uma informação permanente sobre o que "os outros" fazem.
O Homem Unidimensional de Marcuse metamorfoseou-se no Homem do Pequeno Polegar: o Homem que faz uso simultâneo dos novos meios de comunicação e das novas tecnologias ao serviço de muito hedonismo e de alguma realização pessoal.
Resta muito para saber e para discutir sobre a diferença entre o controlo e o conhecimento de si; entre o controlo e o conhecimento dos outros. Resta muita observação e muito estudo para que os educadores, finalmente, percebam que o perigo da televisão era um tigre de papel se comparado com os efeitos da massiva utilização que os alunos fazem das redes sociais. Ou para que compreendam que qualquer vida, aparentemente simples e padronizada da sua aluna mais "regular", pode ocultar uma inimaginável e fantasiosa dupla personalidade, diariamente jogada em qualquer aplicação disponível na Internet.
Estes são os tempos que correm. A escola, os pais e os educadores que se cuidem! Quem prefira ficar fora deste novo mundo proporcionado pelas TIC partilhará, certamente, o mesmo espaço da geração dos pequenos polegares. Mas certamente que já não partilha com ela os mesmos tempos. Como cantava Dylan: The Times They Are A-Changin'.
Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico
sábado, 7 de abril de 2018
A escola pública e a valorização da cidadania
A opinião e reflexão de João Ruivo sobre a Escola Pública e sobre a realidade educacional da sociedade portuguesa das últimas três décadas.
A escola pública é, talvez, a maior conquista educacional da sociedade portuguesa das últimas três décadas. Uma escola democrática, inclusiva, de todos e para todos, que valorize a cidadania, a aprendizagem, a formação e a educação de crianças e jovens, não pode ser mais um dos mitos elaborados no seio das ciências da educação.
Os professores estão de parabéns. Com a defesa da escola pública têm dado, mais do que ninguém, um contributo inigualável para o atenuar das desigualdades sociais e para a futura construção de um Portugal, também ele menos desigual.
Não estranha, pois, que em momentos de fortes emoções, os profissionais do ensino com mais consciência social e cultural vejam os perigos que espreitam a esta escola democrática, erguida sobre a estrutura de um ensino elitista que o Portugal do após 25 de Abril herdou da ditadura.
Porém, o então ainda sonho de pensar uma escola que promovesse a igualdade de oportunidades e atenuasse as desigualdades sociais viria a revelar-se como uma das grandes motivações para a acção das últimas décadas do século XX.
Conseguiu-se ainda pouco? Estamos a trabalhar para resultados que apenas serão visíveis daqui a duas ou três gerações? As políticas educativas, por vezes, colocam no caminho obstáculos que atrasam esses objectivos?
É verdade. Todavia, isso não invalida que, mesmo os mais cépticos, não reconheçam que as democracias europeias estão longe de poder inventar uma outra instituição pública capaz corresponder, com tanta eficácia, às demandas sociais, quanto o faz ainda hoje a escola pública de massas. Mesmo sabendo-se que há sempre novas variáveis que colocam imprevistos desafios à concretização dessa mesma escola pública, como o são o aumento da violência nas escolas e generalização do bullying (sobretudo o mais sagaz e traiçoeiro, que é o que utiliza a internet e as SMS), o abandono e o insucesso escolar, a reprodução das desigualdades dentro da comunidade educativa, a incapacidade de manter currículos que valorizem para a vida, a erosão das competências profissionais dos docentes, acompanhada pela perda de estatuto remuneratório e social.
Todos sabemos, ou julgamos saber, como deve ser e o que deve ter uma escola pública que promova a aprendizagem efectiva dos seus aprendentes e o bem-estar e a profissionalidade dos seus formadores.
Todavia, há um grave problema que introduz toda a entropia nas escolas: é quando os governos se deitam a fazer contas sobre quanto custa garantir esses direitos. Sobretudo, quando a classe política sabe que o investimento em educação só produz efeitos a longo prazo, o que não se compagina com a gestão do calendário dos seus curtos ciclos eleitorais.
Não queremos uma escola que seja de baixa qualidade. Por isso, estamos com todos quantos defendem ser urgente relançar a defesa dos princípios fundadores da escola pública. Uma escola que seja exigente na valorização do conhecimento e promotora da autonomia pessoal. Uma escola pública, laica e gratuita, que não desista de uma forte cultura de motivação e de realização de todos os seus membros. Uma escola pública que, enfim, se assuma como um dos pilares da democracia e como um dos motores da construção de um país onde seja orgulhoso viver e conviver.
Formar a geração de amanhã não é tarefa fácil. Mas será certamente altamente gratificante!
Por tudo isso, é importante que continuemos a exigir políticas públicas fortes, capazes de criar as condições para que essa escola democrática seja, de facto, universal, gratuita e compensadora, e que se assuma, sem tibiezas, que o direito ao sucesso de todos é um direito fundador da Democracia e do Estado de Direito.
Antes, é uma realidade que se tem vindo a construir dia a dia, com muito esforço e sacrifício de toda a comunidade educativa, porque é um princípio por que vale a pena lutar, já que fortalece a democracia e a construção de um mundo com mais harmonia e mais respeito pela natureza e pela pessoa humana.
Os professores estão de parabéns. Com a defesa da escola pública têm dado, mais do que ninguém, um contributo inigualável para o atenuar das desigualdades sociais e para a futura construção de um Portugal, também ele menos desigual.
Não estranha, pois, que em momentos de fortes emoções, os profissionais do ensino com mais consciência social e cultural vejam os perigos que espreitam a esta escola democrática, erguida sobre a estrutura de um ensino elitista que o Portugal do após 25 de Abril herdou da ditadura.
Porém, o então ainda sonho de pensar uma escola que promovesse a igualdade de oportunidades e atenuasse as desigualdades sociais viria a revelar-se como uma das grandes motivações para a acção das últimas décadas do século XX.
Conseguiu-se ainda pouco? Estamos a trabalhar para resultados que apenas serão visíveis daqui a duas ou três gerações? As políticas educativas, por vezes, colocam no caminho obstáculos que atrasam esses objectivos?
É verdade. Todavia, isso não invalida que, mesmo os mais cépticos, não reconheçam que as democracias europeias estão longe de poder inventar uma outra instituição pública capaz corresponder, com tanta eficácia, às demandas sociais, quanto o faz ainda hoje a escola pública de massas. Mesmo sabendo-se que há sempre novas variáveis que colocam imprevistos desafios à concretização dessa mesma escola pública, como o são o aumento da violência nas escolas e generalização do bullying (sobretudo o mais sagaz e traiçoeiro, que é o que utiliza a internet e as SMS), o abandono e o insucesso escolar, a reprodução das desigualdades dentro da comunidade educativa, a incapacidade de manter currículos que valorizem para a vida, a erosão das competências profissionais dos docentes, acompanhada pela perda de estatuto remuneratório e social.
Todos sabemos, ou julgamos saber, como deve ser e o que deve ter uma escola pública que promova a aprendizagem efectiva dos seus aprendentes e o bem-estar e a profissionalidade dos seus formadores.
Todavia, há um grave problema que introduz toda a entropia nas escolas: é quando os governos se deitam a fazer contas sobre quanto custa garantir esses direitos. Sobretudo, quando a classe política sabe que o investimento em educação só produz efeitos a longo prazo, o que não se compagina com a gestão do calendário dos seus curtos ciclos eleitorais.
Não queremos uma escola que seja de baixa qualidade. Por isso, estamos com todos quantos defendem ser urgente relançar a defesa dos princípios fundadores da escola pública. Uma escola que seja exigente na valorização do conhecimento e promotora da autonomia pessoal. Uma escola pública, laica e gratuita, que não desista de uma forte cultura de motivação e de realização de todos os seus membros. Uma escola pública que, enfim, se assuma como um dos pilares da democracia e como um dos motores da construção de um país onde seja orgulhoso viver e conviver.
Formar a geração de amanhã não é tarefa fácil. Mas será certamente altamente gratificante!
Por tudo isso, é importante que continuemos a exigir políticas públicas fortes, capazes de criar as condições para que essa escola democrática seja, de facto, universal, gratuita e compensadora, e que se assuma, sem tibiezas, que o direito ao sucesso de todos é um direito fundador da Democracia e do Estado de Direito.
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