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sábado, 7 de abril de 2018

A escola pública e a valorização da cidadania

A opinião e reflexão de João Ruivo sobre a Escola Pública e sobre a realidade educacional da sociedade portuguesa das últimas três décadas.


A escola pública é, talvez, a maior conquista educacional da sociedade portuguesa das últimas três décadas. Uma escola democrática, inclusiva, de todos e para todos, que valorize a cidadania, a aprendizagem, a formação e a educação de crianças e jovens, não pode ser mais um dos mitos elaborados no seio das ciências da educação.
Antes, é uma realidade que se tem vindo a construir dia a dia, com muito esforço e sacrifício de toda a comunidade educativa, porque é um princípio por que vale a pena lutar, já que fortalece a democracia e a construção de um mundo com mais harmonia e mais respeito pela natureza e pela pessoa humana.

Os professores estão de parabéns. Com a defesa da escola pública têm dado, mais do que ninguém, um contributo inigualável para o atenuar das desigualdades sociais e para a futura construção de um Portugal, também ele menos desigual.

Não estranha, pois, que em momentos de fortes emoções, os profissionais do ensino com mais consciência social e cultural vejam os perigos que espreitam a esta escola democrática, erguida sobre a estrutura de um ensino elitista que o Portugal do após 25 de Abril herdou da ditadura.

Porém, o então ainda sonho de pensar uma escola que promovesse a igualdade de oportunidades e atenuasse as desigualdades sociais viria a revelar-se como uma das grandes motivações para a acção das últimas décadas do século XX.

Conseguiu-se ainda pouco? Estamos a trabalhar para resultados que apenas serão visíveis daqui a duas ou três gerações? As políticas educativas, por vezes, colocam no caminho obstáculos que atrasam esses objectivos?

É verdade. Todavia, isso não invalida que, mesmo os mais cépticos, não reconheçam que as democracias europeias estão longe de poder inventar uma outra instituição pública capaz corresponder, com tanta eficácia, às demandas sociais, quanto o faz ainda hoje a escola pública de massas. Mesmo sabendo-se que há sempre novas variáveis que colocam imprevistos desafios à concretização dessa mesma escola pública, como o são o aumento da violência nas escolas e generalização do bullying (sobretudo o mais sagaz e traiçoeiro, que é o que utiliza a internet e as SMS), o abandono e o insucesso escolar, a reprodução das desigualdades dentro da comunidade educativa, a incapacidade de manter currículos que valorizem para a vida, a erosão das competências profissionais dos docentes, acompanhada pela perda de estatuto remuneratório e social.

Todos sabemos, ou julgamos saber, como deve ser e o que deve ter uma escola pública que promova a aprendizagem efectiva dos seus aprendentes e o bem-estar e a profissionalidade dos seus formadores.

Todavia, há um grave problema que introduz toda a entropia nas escolas: é quando os governos se deitam a fazer contas sobre quanto custa garantir esses direitos. Sobretudo, quando a classe política sabe que o investimento em educação só produz efeitos a longo prazo, o que não se compagina com a gestão do calendário dos seus curtos ciclos eleitorais.

Não queremos uma escola que seja de baixa qualidade. Por isso, estamos com todos quantos defendem ser urgente relançar a defesa dos princípios fundadores da escola pública. Uma escola que seja exigente na valorização do conhecimento e promotora da autonomia pessoal. Uma escola pública, laica e gratuita, que não desista de uma forte cultura de motivação e de realização de todos os seus membros. Uma escola pública que, enfim, se assuma como um dos pilares da democracia e como um dos motores da construção de um país onde seja orgulhoso viver e conviver.

Formar a geração de amanhã não é tarefa fácil. Mas será certamente altamente gratificante!

Por tudo isso, é importante que continuemos a exigir políticas públicas fortes, capazes de criar as condições para que essa escola democrática seja, de facto, universal, gratuita e compensadora, e que se assuma, sem tibiezas, que o direito ao sucesso de todos é um direito fundador da Democracia e do Estado de Direito.

domingo, 18 de setembro de 2016

Fui transferido do colégio para a escola pública

Começou o ano lectivo e há cerca de 10000 alunos que foram transferidos do ensino privado para o público, depois dos cortes do governo no número de turmas financiadas pelo Estado em escolas particulares. São dez mil alunos que vão para o desconhecido e que serão largados na selva que é o sistema de ensino público, cheio de pessoas pobres e mal formadas. Tive acesso ao diário do Bernardo, 14 anos, que viu a sua vida sofrer uma mudança radical ao ser transferido para um desses ninhos de piolhos e tuberculose.

O relato que se segue pode ferir a suscetibilidade dos leitores mais sensíveis.



9:00h - Primeira aula e desde logo notei algo de muito estranho quando a professora fez a chamada: todos os meus colegas têm apenas dois nomes. Aliás, eu ia levando falta por não ter respondido «presente» quando a senhora professora chamou por Bernardo de Melo! Só respondo quando usam dois apelidos, Bernardo Campos de Melo! Notei, também, que os poucos que eram chamados com três nomes era porque tinham dois nomes próprios: Cátia Vanessa, Sandro Miguel, Andreia Patrícia. Estranhei, não o facto de terem dois nomes próprios, mas o facto de nenhum deles ser Maria.

9:30h - Cada um fez uma pequena apresentação sobre si e um dos colegas que me chamou logo à atenção foi o Wilson! Nunca tinha visto ninguém tão bronzeado! Aquilo só pode ser solário duas vezes por dia o que me leva a crer que os pais dele devem ter imenso dinheiro e ele tem um SPA em casa. E isso leva-me também a querer um para mim.
Note to self: falar com o papá para comprar um solário para colocar ao lado do jacuzzi.

9:45h - Outra colega que estranhei foi a Vânia que disse que depois das aulas trabalhava num café. Não percebi o conceito e peguei logo no iPhone Gold para pesquisar no Google e, ao que parece, existem mesmo pessoas que trabalham e estudam ao mesmo tempo! Até existe o termo que desconhecia por completo «trabalhador-estudante». Dizem que é para pagar os estudos e terem dinheiro para viver. Coitada, os pais dela devem ser mesmo forretas ou talvez tenham morrido e alguma tia lhe terá ficado com a herança e as casas todas.

10:30h - Pedi uma caneta emprestada ao Pedro Miguel (lá está mais um com segundo nome que não é Maria) e reparei que o estojo dele era muito giro. Perguntei-lhe onde tinha comprado aquele estojo, assim com ar vintage, e ele disse-me que não se lembrava, isto porque o tinha sido comprado no 5º ano. Diga, Pedro Miguel? Não percebi e perguntei-lhe «Como assim? Reutilizas estojos de um ano para o outro? Não compras sempre mochila, estojo e todo o material novo?» e ele respondeu-me «Não, porque eu estou no SASE.». Senti-me envergonhado por não ter percebido logo que ele fazia parte de um desses clubes de colecionadores que só utilizam artigos raros e antiquíssimos.
Note to self: pedir dinheiro ao papá para a joia de inscrição no SASE.

13:00h - Almocei na cantina e ao início fiquei satisfeito por ser arroz de pato, mas depois, percebi que era arroz de frango. Já que assim era perguntei se, ao menos, me podiam servir só com a parte escura do frango, já que o peito é muito seco. A senhora Custódia, da cantina, riu-se e perguntou se eu queria sobremesa. Perguntei o que havia e ela respondeu «Gelatina de morango, gelatina de ananás e gelatina de tutti frutti.» Já me tinham falado de praxes, mas não sabia que eram assim tão humilhantes. Esperemos que sejam só nos primeiros dias e que para a semana já haja pato e crumble de maça com gelado caseiro.

14:00h - Alguns colegas, como sabem que venho de um meio diferente e mais civilizado, convidaram-me para integrar uma lista para concorrer à associação de estudantes. Aceitei desde logo e perguntei quem eram os outros jotas para formarmos um grupo forte e com experiência política. Disseram-me que o único jota era o JP e que era ele que sacava as músicas do Anselmo Ralph para passar durante a campanha.

15:40h - No intervalo grande gerou-se uma discussão e dois alunos começaram a agredir-se. Um deles era claramente mais forte do que o outro (deve fazer parte da equipa de rugby). O outro rapaz ficou maltratado e disse-lhe «Vou chamar o meu pai e o meu tio!» o que me leva a pensar que deve ser filho de alguém importante e que os seus familiares virão cá à escola apresentar queixa. Os outros alunos que estavam a assistir a tudo bem que disseram «Agora é que vai ser, vem a família toda do Igor e vai ser só xinadas e fuscas na escola!».
Note to self: perguntar ao papá se conhece os Xinadas e Fuscas e se é uma família brasonada.

16:00h - Chego à aula de educação física e qual não é o meu espanto quando não vejo onde estão os estábulos dos cavalos para o hipismo! Nem campo de ténis e, afinal, não havia campo de rugby! Resta-me esperar que as obras que estão a fazer atrás do pavilhão sejam para construir um campo de golfe.

16:10h - Notei que alguns dos meus colegas não tinham roupa de marca. Esta altura do Verão às vezes é complicada porque as empregadas vão de férias e não há quem nos lave e passe a roupa e temos de usar aquela de andar por casa, tipo Zara e Springfield, que só usamos para dormir.

17:00h - Fui à aula de Educação Moral e Religiosa e finalmente uma professora que me pareceu competente. Freira, como as que tão bem me educaram no colégio do 1º ciclo, só para rapazes, onde andei. No fim, cantámos algumas das músicas de que mais gosto «No rabo é pecado.» e «Jesus melhor do que Phelps.».

17:50h - Um dos meus colegas atendeu o telemóvel no meio de uma aula e fiquei chocado! Já não há respeito! «Pai, vou sair daqui a bocado, vens buscar-me?», perguntou ele! A tratar o pai por tu? Será que também o faz com a mãe? E será que os pais também o tratam por tu? Começo a perceber que quando se dizia que as pessoas do ensino público não têm a mesma educação nem princípios é, de facto, verdade.

18:00h - Ao sair da escola, vejo três rapazes na minha direção e percebi logo que deviam ser irmãos do Wilson, pois estavam tão ou mais bronzeados do que ele. Fiquei pasmado quando me pediram dinheiro! «Como é que pessoas que têm solários em casa precisam de dinheiro emprestado», pensei. Mas, depois, percebi que era um assalto! Estavam a assaltar-me mesmo à porta da escola! Os mitos que se contavam no colégio afinal são mesmo verdade. A vida é injusta, se eu andasse por aí, como os irmãos do Wilson, a roubar dinheiro aos outros, também tinha possibilidades de ter um SPA com solário na minha moradia.

Arrepiante. Ao pé deste diário, o da Anne Frank é uma história para crianças. Resta-me deixar o apelo a todos para que partilhem este texto para que todos possam ver a desumanidade a que estão a ser sujeitados milhares de alunos que foram obrigados a sair da sua escola privada para esta zona de guerra que é a escola pública.

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