quinta-feira, 28 de junho de 2018

"Uma das coisas mais importantes num professor é admitir que não sabe"



Rogério Martins, matemático, defende que o nível dos exames "devia ser mais baixo" e que as perguntas deviam ser "mais diversificadas”. Sobre a importância que os pais têm no percurso dos filhos, sublinha: "Muda tudo quando uma criança aprende Matemática e tem pais que a entendem, que valorizam aquele saber."

Um bom professor faz analogias para explicar a matéria, cria empatia com os alunos e, acima de tudo, admite quando não sabe alguma coisa. Quem o diz é Rogério Martins, matemático, professor universitário e apresentador do programa Isto é Matemática que desde 2012 é transmitido na SIC Notícias. Defende que os exames nacionais do ensino secundário deviam ter estruturas diferentes todos os anos, para fazer com que os alunos se foquem na matéria e não na preparação específica da prova. Acha também que os enunciados deviam ser mais simples e ter "perguntas muito mais diversificadas".

Reconhece que as suas aulas não são tão divertidas como o programa que apresenta. Mas cada vez mais valoriza a importância de "criar uma boa relação humana com os alunos". E lamenta que o sistema de ensino já se tenha adaptado ao mundo das explicações — "O professor já conta que vai haver um apoio suplementar." Nada contra as explicações, garante. Contudo, "se tudo estiver a funcionar em condições deve ser suficiente ter um professor, um livro e estudar".



É possível dar aulas tão divertidas como o Isto é Matemática?

Não quero passar a ideia de que as minhas aulas são como no programa. Não são. Eu costumava dizer que fazer o programa é o sonho de qualquer professor. Primeiro, eu posso escolher o que quero ensinar. Posso ir buscar a parte mais divertida. Segundo, tenho uma lista de gente para tornar aquilo ainda mais giro. Uma equipa de profissionais de televisão e um guionista para criar um ambiente e uma história. As minhas aulas são muito parecidas com uma aula normal. É claro que conto as minhas histórias e tento motivar os alunos da melhor forma.

Como é que se motiva os alunos?

Quando era estudante comecei a ler muito além daquilo que era ensinado na faculdade. Lia, lia, lia... Depois começava a criar pontes. O que faço nas minhas aulas é tentar criar essas pontes. Falar sobre curiosidades. Podia fazer-se mais isso nas escolas. Mas eu também estou a dizer isto e a falar de “barriguinha cheia” em relação aos colegas que dão aulas no secundário ou no básico. Nós, na faculdade, temos mais alguma liberdade para ajustar o que queremos fazer. Estes outros colegas têm programas extensíssimos, muito minuciosos e que não lhes dão margem de manobra. Mas uma coisa boa é relacionar, porque motiva as pessoas.

O que é que tem um bom professor?


Uma das coisas mais importantes é admitir que não sabe. É mais do que natural que um professor não saiba tudo. É claro que se espera que tenha uma boa formação, não digo que não. Depois há aquelas outras coisas, como saber muito, ser claro, criar boas analogias... Eu no início achava que era importante saber muito. Nos últimos anos, uma das coisas que acho importante, é criar uma boa relação humana com os alunos.

Os professores de Matemática são bem formados em Portugal?


Temos muito bons professores. Em geral, é uma profissão que tem gente com vocação. No caso de Matemática, as pessoas preocupam-se. Os professores fazem um investimento para a tornar agradável. Nós queixamo-nos mas a verdade é que a escola está cada vez melhor.

Então porque é que os alunos portugueses continuam a ter tão más notas a Matemática?

Têm, mas não são tão más quanto isso. A forma como se ensina Matemática e como os alunos aprendem é todo um reflexo da forma como a sociedade foi ensinada. Nós somos um país com um histórico de educação muito curto.

De facto, os resultados dos alunos de 15 anos no PISA, um estudo que é feito de quatro em quatro anos pela OCDE, têm vindo a melhorar. Estávamos sempre no fim da tabela e agora estamos ligeiramente acima da média. Porquê?


Estarmos ligeiramente acima da média é bom quando o nosso sistema de ensino surgiu em massa a seguir ao 25 de Abril. As pessoas que agora estão na escola começam a ser os filhos de quem foi educado depois do 25 de Abril. Muda tudo quando uma criança aprende Matemática e tem pais que a entendem, que valorizam aquele saber, porque eles próprios também estudaram aquilo e conseguem acompanhar. A verdade é que melhoramos todos os anos e se agora estamos acima da média, é expectável que no futuro vamos estar ainda mais se seguirmos esta curva — é um bocadinho independente do programa em vigor, parece-me.

O que pensa dos actuais programas do básico e secundário?


O programa é muito ambicioso e acho que o devemos ser com as novas gerações. Apesar de não ter experiência no secundário e tudo o que digo ser baseado no que me comunicam, as pessoas dizem-me que se sentem um bocadinho asfixiadas pela quantidade de matéria. Tendemos a achar que quantidade é sinónimo de qualidade e não tem de ser. Se tivermos menos matérias mas pudermos aprofundá-las mais, conseguimos fazer com que os alunos entendam com mais profundidade e com que que faça mais sentido na cabeça deles. Talvez seja demasiado extenso e formalista. O formalismo é importante, sem dúvida, mas a intuição também é.

Em Portugal, as duas principais organizações que reúnem docentes de Matemática, a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) e a Associação de Professores de Matemática (APM), têm posições radicalmente opostas quanto ao que devem ser os programas da disciplina e quanto ao modo de os ensinar. Não é possível existir um "mínimo denominador comum" a este respeito?


Eu gostaria muito que houvesse. É pena que as pessoas não se sentem mais para discutir e criar consensos e que os programas não sejam mais estáveis.

Como é que se poderia alcançar a estabilidade dos programas?


Essa estabilidade só é possível se os programas forem independentes do ministério. Faria sentido criar um conjunto de cabeças pensantes que pudessem ter representantes das várias sociedades de professores e que chegassem, entre eles, a um consenso que fosse suficientemente estável para manter um programa dez anos ou mais. Se há área na qual isso é possível fazer é na Matemática. É pena que a SPM e a APM não estejam mais de acordo, mas isso tem todo um contexto.

Qual é esse contexto?


A SPM está mais ligada ao ensino superior, a APM mais ao ensino secundário. Sempre foram mundos de costas voltadas. E nós que damos aulas nos primeiros anos de faculdade percebemos isso. Não há uma continuidade. Basicamente, os programas mudam e tudo o que ensinamos [no superior] ignora o que está a acontecer.

Como é que se podem cruzar estes dois mundos?


Estou aqui a levantar uma possibilidade que nem sei se está na cabeça de alguém, mas uma coisa que achava muito útil era existir um maior cruzamento entre secundário e superior. Devia ser possível e seria extremamente útil, permitir a professores universitários fazer alguns anos no secundário. Porque é isso que faz falta. Mas isso não é possível.

Os exames do secundário são bem feitos?


Acontece em geral, não só nos exames, que quando as pessoas estão a avaliar exista uma certa tendência para se começar a fazer o mesmo tipo de perguntas [sempre]. Quando isso acontece, dá-se a volta ao sistema. Os alunos começam a preparar-se para o exame em vez de se preocuparem em aprender. É claro que a culpa disto não é dos alunos e nem sequer dos professores que preparam. A partir do momento em que eu, como pai ou aluno, percebo que é muito mais fácil arranjar um explicador, que me explica as perguntas que tipicamente aparecem no exame e que aquilo que eu tenho de fazer é perceber as resoluções, eu não estou a aprender Matemática, estou a aprender a fazer um exame.

Então defende um exame diferente todos os anos?


Sim. Eu defendo que os exames devem ser provavelmente mais simples, porque se criássemos exames com perguntas muito fora da caixa os alunos iriam ter muito más notas. O nível devia ser mais baixo e com perguntas muito mais diversificadas. A regra no exame devia ser que fosse sempre diferente. Eu estou a dizer que isto está a acontecer agora com os exames nacionais, mas se for à minha faculdade isso também acontece.

É preciso estudar muito para ser bom aluno a Matemática?


Há pessoas que estranhamente não precisam de estudar muito para serem boas alunas a Matemática. Há outras que estudam muitíssimo e não conseguem. É bom ter um bom método. Os piores casos que já vi são aquelas pessoas que estudam muito e não têm sucesso. São alunos que ficam muito centrados na matéria e não fazem as pontes.

E as explicações particulares, fora das aulas, são essenciais?


Infelizmente estão a ser. Eu não tenho nada contra as explicações, acho que são algo essencial. Deviam ser como uma terapia. Para mim essa é a forma saudável de ter explicações. Mas isso na prática não acontece muito. Muitos pais têm tendência para pôr os filhos na explicação de forma continuada. Algo que não censuro porque o sistema já se adaptou ao mundo das explicações. O professor já conta que vai haver um apoio suplementar. Agora, se é possível fazer o ensino sem ir à explicação? É. Se tudo estiver a funcionar em condições deve ser suficiente ter um professor, um livro e estudar o seu tempo.

Até porque há a questão do preço. As explicações também promovem as desigualdades?

Sim. E é uma pena que isso aconteça.

O que é que se perde ao ter jovens que não gostam de Matemática?


Perde-se uma parte importante da cultura. A Matemática é um mundo. Eu gostaria de dizer que se perde um lado de ver o mundo mais racional. Nós não temos de ver tudo de forma racional, mas às vezes as pessoas fazem escolhas que não são as mais certas. Estou a falar de coisas tão simples como a forma como compram um seguro, nas escolhas que fazem se compram este ou aquele carro. Não tem mal nenhum, mas é bom que percebam exactamente o que está em causa.



terça-feira, 26 de junho de 2018

Quem gosta de ir à escola?


Nos últimos anos temos vindo a assistir a um desenvolvimento significativo dos estudos que nos permitem conhecer as razões que levam os professores a atingirem estádios de "mal-estar", "desencanto" e "stress" profissionais, e muitos são os estudos de elevada credibilidade que revelam precisamente esses sintomas e efeitos do desgaste ou erosão profissionais.

É que, em boa verdade, todos sabemos, e já o repetimos até à exaustão, que a formação de professores, enquanto processo que visa a mudança, correrá sempre o risco de encontrar resistências. Umas, catapultadas por determinados "períodos" psico-profissionais que os docentes atravessam. Outras, resultantes das políticas educativas, da estrutura organizativa da escola, do estatuto regulador da carreira, e (porque não?), do próprio processo como essa formação foi levada junto dos docentes, de modo mais ou menos impositivo.

Não é menos verdade que, mesmo quando a adesão a iniciativas inovadoras é voluntária, a ausência de finalidade de alguns projectos de reforma (pontuais ou estruturais), a ausência de avaliação do processo e dos produtos realizados, a política "do alterar, pelo alterar", também têm contribuído para o "desinteresse", o "afastamento" e até a "resistência" de muitos dos docentes que, à partida, se galvanizaram nesses projectos.

Infelizmente, são demasiados os casos em que os professores se encontravam em ciclos da carreira de desinteressada dádiva ao sistema, à escola e aos alunos, e que os levaram a optimizar o seu investimento pessoal, uma e outra vez, até que o desencanto os contaminou, inesperadamente. Acresce ainda que o sistemático retomar de promessas incumpridas de verdadeira descentralização do sistema educativo, e a negação de se atribuir mais poder de decisão aos professores e às escolas, também têm contribuído para que a resistência se enquiste no sistema, transformando as sinergias naturais em processos de entropia, por vezes incontroláveis.


À falta de poder e de controlo dos professores, no que respeita ao seu trabalho, transformando-os em simples executores de decisões tomadas por hierarquias distantes e sem rosto (a partir das quais as "ordens" se tornam impessoais e difusas, e em que as responsabilidades se diluem), tem conduzido à progressiva desprofissionalização dos professores.

E atribui-se essa situação a muitos factores: o cansaço físico e moral, a falta de reconhecimento social do papel dos docentes, a falta de protecção perante o vandalismo e a violência com que acrescidas vezes se deparam nas escolas, a falta de recursos, os horários inadequados à sua função formadora, a escassa formação para gerir novos programas, a pressão dos pais e outros agentes sociais, a intensificação da atribuição de novas tarefas e funções, a perda do seu estatuto remuneratório…

Esta desprofissionalização, que alastra em boa parte dos sistemas educativos europeus, é uma das razões apontadas para a criação de um progressivo clima de mal-estar nos sistemas educativos. Pelo que é necessária alguma clarividência para conhecer os factores que fazem peculiar o acto educativo, reconhecendo-se a necessidade de procurar as causas estruturais que condicionam essas situações vivenciadas pelos docentes, já que os professores devem ter expectativas ajustadas às suas possibilidades.

Apesar dos êxitos e dos fracassos se alternarem na sua actividade, os docentes deveriam manter expectativas positivas e o entusiasmo que os faz correr ao encontro de novos caminhos e da utopia, mantendo a força das ilusões, apesar dos fracassos circunstanciais. E até porque não se mudam instituições sem mudar as práticas que as produzem no dia-a-dia.

Daí que todas as iniciativas que ajudem a promover a auto-estima dos docentes e o seu bem estar profissional se revelem indispensáveis para combater o desalento que grassa em boa parte das nossas escolas e que se arrisca a minar, irremediavelmente, o sistema educativo português.



Este texto não segue o novo acordo ortográfico

segunda-feira, 25 de junho de 2018

DIPROF - Por uma avaliação digna e equitativa dos alunos



Comunicado à Imprensa
(23 de junho de 2018)

“Por uma avaliação digna e equitativa dos alunos”

A DIPROF vem por este meio tomar uma posição pública face às recentes situações de desrespeito pelos alunos, professores e famílias, assim como às constantes pressões exercidas por parte de alguns intervenientes educativos.

Para a DIPROF, é essencial relembrar a importância dos conselhos de turma/de docentes na avaliação dos alunos. A DIPROF salienta que os conselhos de turma são os responsáveis pela avaliação, aprovando e validando as propostas dos professores em cada disciplina, assim como pela análise de casos específicos, tendo em conta o percurso e as condicionantes de cada aluno.

O trabalho dos nossos alunos merece todo o nosso respeito, sendo que a avaliação é um processo contínuo. Avaliar é uma responsabilidade de TODO o conselho de turma, dado o perfil global do aluno.

Todos os intervenientes no processo de avaliação dos alunos devem assim agir de acordo com a Lei, cumprindo-a rigorosamente, em defesa de uma Educação Equitativa e Dignificando a profissão.

PELO RESPEITO...

… aos ALUNOS;

… ao Professor como formador e educador;

… a uma Carreira Docente digna;

… a um processo de avaliação justo e equitativo ;

… ao cumprimento da lei;

… aos projetos educativos;

… da Escola.

A DIPROF é uma associação que promove a dignidade da profissão docente, assim como a qualidade do seu exercício na área da educação, tendo como objetivo principal a criação da Ordem dos Professores.


A Direção Nacional
DIPROF - Associação pela Dignificação da Profissão de Professor

Website: http://www.diprof.pt
Email: direcao@diprof.pt e inscricao@diprof.pt
Facebook: https://www.facebook.com/groups/690914337777475/

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Respondendo a Miguel Sousa Tavares – Anabela Bragança


Não resisto a publicar aqui uma carta aberta brilhantemente escrita pela colega Anabela Bragança a propósito de um artigo de opinião de um "comentadeiro" da praça e que normalmente se dedica a debitar "vómitos" relativamente à classe docente, sem estar minimamente informado sobre o que escreve.



Caro Miguel 

Desde já peço desculpa pela familiaridade do trato, mas como nos conhecemos tão bem sinto-me no direito de ser mais tu-cá-tu-lá consigo. Li o seu artigo sem adulteração, aquele do Expresso do último sábado, do dia 15 de Junho de 2013. Escrevo a data completa porque a quantidade de textos que debita poderiam criar na sua cabeça alguma confusão sobre o espaço temporal a que me refiro. Devo dizer que é um texto bem escrito, daqueles que se aprendem a escrever quando se tem uma professora à moda antiga, das que nos ensinam a amar o saber e fazer da vida uma busca continua desse mesmo saber, das que nos ensinam a ter espírito critico, das que nos ensinam a pensar e a usar com racionalidade essa fundamental característica que é uma das que nos distinguem das restantes espécies da Classe Mammalia. Como se deu ao trabalho de fazer uma breve introdução romanceada do seu percurso pelo primeiro ciclo, então escola primária, vou, também eu, essa breve introdução, sem as figuras de estilo que o Miguel usa, porque em mim a escritora não pode florescer por falta não de vocação que essa até tenho, mas de tempo, e a seu tempo entenderá o porquê. Então vejamos, em 1976 entrei na escola primária. A escola que me acolheu, uma das obras positivas do tempo assumidamente autocrático, era linda, branca, com casas de banho que por acaso não funcionavam mas estavam lá, com as paredes preenchidas pelos trabalhos de desenho dos meus colegas mais velhos que a minha arte ainda não se tinha manifestado. Sabe porque é que a minha escola era linda? Porque eu não sou filha de nenhuma escritora, nem nenhum deputado, nunca os meus olhos tinham visto tanto livro junto, e refiro-me a meia dúzia que havia lá pela minha escola de aldeia, longe de Lisboa e do Porto. Sabe Miguel, acredito que pense efectivamente que sabe, ou não tivesse sido aluno da D. Constança, as vivências da realidade são diferentes de ser humano para ser humano, e por isso o quadro feio e negro da escola do Miguel pode ser belo e muito colorido para alguns dos seus colegas de carteira. Mas deixemos isto e continuemos na saga do meu percurso escolar. Tal como o Miguel também na minha escola éramos muitos, tanto que nem me lembro do número, será porque isso nunca foi relevante? É que das pessoas ainda me lembro bem, das brincadeiras também, das aulas também… As duas salas estavam sempre cheias, como um ovo, havia dois turnos de aulas com 4 professoras, duas de manhã e duas de tarde. A mim calhou a D. Maria Isabel, uma mulher linda, com o seu cabelo cinzento e os lábios pintados de uma cor fabulosa, um tom de laranja doce. A D. Maria Isabel acabou de me ensinar a ler, que alguma coisa a minha teimosia já me havia feito aprender. Sabe Miguel, em algumas situações a teimosia é uma característica boa, de tal forma que no final do primeiro período já eu substituía a minha avó na leitura de “O amigo do Povo” às suas comadres analfabetas. Vou agora refrescar-lhe a memória em relação ao que era o primeiro período: – período de tempo que mediava entre Outubro e meados de Dezembro, suponho que entende o que lhe estou a dizer, mas se não informe-se junto de alguns psicólogos e pedagogos credíveis. Abreviando um pouco, e quase para terminar este parágrafo, devo dizer-lhe que a minha professora foi tão boa que em 3 anos resolveu comigo as questões que para muitos se resolviam em 4, e para outros muitos em mais de 4. Tal como a sua, também a minha deixou em mim um apetite voraz para as letras, chamava-me “papa livros” tal era a minha voracidade, e todas as semanas, levava de Coimbra para mim muitos livros. A minha professora Maria Isabel era uma mulher completa com marido, 3 filhos, sendo um surdo-mudo, pais e sogros. Vivia do seu trabalho e como tal faltou algumas vezes, pois não tinha possibilidades económicas para delegar responsabilidades. Mas sabe o que lhe digo, foram muitos os alunos que mandou para a universidade, que hoje até lêem o que o Miguel escreve com espírito crítico. Neste momento poderia considera-lo um mentecapto e situar este comentário no seu texto brilhante, mas não o vou fazer, porque o Miguel também teve uma boa professora na escola primária.
 

Mudando de parágrafo e de assunto, tal como o Miguel, sei que o país está à beira da bancarrota, mas na minha família só o direito ao voto responsabiliza por essa situação, sabe porquê? Nunca nenhum dos meus progenitores ocupou lugar em nenhuma das cadeiras da Assembleia da Republica, por partido nenhum quanto mais por dois e ainda mais relevante, nunca nenhum dos meus progenitores foi ministro. Sinto muito Miguel por ter que lhe lembrar que algumas das responsabilidades da miséria que crassa por esse Portugal fora tem genes que lhe foram a si entregues. Mais ainda, na minha família toda a gente produz, desde tenra idade. Sobre trabalho o Miguel, por certo, teria muito a prender comigo e com os meus. 

Voltemos agora ao ainda cerne desta questão, a greve dos professores. Sabe Miguel, depois de ler o seu texto, volto a dizer, sem adulterações, fiquei a pensar se o seu sistema digestivo seria igual ao dos restantes mamíferos. E confesso que esta duvida já me assaltou algumas vezes frente aos seus escritos. Em relação aos professores o Miguel não sabe nada do que pretende dizer, seria bom e revelador de algumas sinapses activas, que se calasse até conseguir saber sobre o que se pronuncia. Eu sou professora, há já muitos anos, executo a profissão que sempre quis ter, lá por causa da minha rica professora Maria Isabel, e trabalho que me desunho, e não falto, e estou disponível para os meus alunos até para ser mãe. O meu horário semanal ( e o da maioria) tem sempre muito mais do que as 40 horas agora na moda, tenho que me preparar, nem sequer para cada ano é mesmo para cada turma, pois são sempre diferentes os alunos e as suas interacções; tenho que os avaliar, e isso exige muito pois sou acérrima defensora da avaliação formativa; tenho que tentar manter-me actualizada pois lecciono uma disciplina das ciências mais vanguardista, e isso requer muito tempo ( percebe agora porque não me dedico mais à escrita?). Eles, os meus alunos, que são quem me importa, sabem disso! Acho de uma arrogância tola o Miguel vir pronunciar-se sem saber do que fala. Eu também sou leitora e agora vou aqui falar de um escritor medíocre que já li. Vou tecer comentários sobre obras e escrita que conheço, não sobre números de origem duvidosa! O Miguel escreve com a qualidade necessária para ser comercial, isto é para ganhar dinheiro, muito por sinal. Quer assumir-se como um Eça? Sabe que está a anos luz, sobra-lhe a capacidade descritiva, mas falha nos pormenores, vou dar-lhe um exemplo concreto: descreve cenas de sexo/amor com minúcia, mas impraticáveis por imposição das leis da física. Tenta ser um critico social, mas o seu azedume natural tira-lhe a graça e a leveza que tornam Eça sempre actual. Poderia continuar mas acho que já consegui perceber onde quero chegar. O Miguel é um escritor medíocre, mas isso não faz com que todos os escritores de Portugal o sejam, repare a sua mãe até ganhou um prémio Camões. Até sei que vai pensar que estou a ser ressabiada, será um argumento de defesa legítima uma vez que o estou a atacar, mas totalmente desprovido de verdade. Entenda o que lhe quero dizer de forma clara, há professores medíocres mas a maioria é bastante boa, empenhada e esforçada. Esta greve serviu apenas para mostrar ao governo que o caminho da mentira e do enxovalhamento publico tem que acabar. Os direitos dos alunos estão a ser salvaguardados, é certo que temos menos alunos, mas também é certo que cada ano as turmas são maiores e os problemas sociais, que entram sempre pela sala de aula dentro, são cada vez mais. Sabe Miguel, seria mais proveitoso para os alunos trabalhar em salas com menos crianças/jovens e consequentemente menos problemas do que em salas cheias até à porta. Sabe que assim poderíamos desenvolver o espírito critico desses jovens e aí as coisas mudavam um pouco… Já imaginou um pais em que a maioria dos cidadãos tivesse espírito critico? Imagina o destino que seria dado aos medíocres? Acha que haveria lugar a tantas PPP’s? Acha que o dinheiro do Estado Social ( faço aqui um parêntesis para lhe dizer o que é o estado social, que eu sustento: EDUCAÇÃO, SAUDE e SEGURANÇA SOCIAL) seria desbaratinado em manobras bizarras sem que fossem pedidas contas? Acha que os gestores das empresas publicas que acumulam prejuízos continuariam a ser premiados? Acha que se assistiria a uma classe politica corrupta, incompetente e desavergonhada de braços cruzados? Acha que haveria prémio para a mediocridade de textos que vendem como cerejas à beira do caminho? Ai Miguel depois destas questões até o estou a achar inocente… acabei de ficar com aquele sorriso que dou aos meus alunos travessos, mas simples, só que para eles é para os conduzir ao bom caminho, para si é mesmo com condescendência. 

Falou no seu texto no estado calamitoso em que se encontram as contas públicas, e sou forçada a concordar consigo, só tenho pena que apenas consiga ver o erro, e lhe falte a coragem para imputar responsabilidades. O país está neste estado por causa dos decisores políticos e dos fazedores de opinião, entre os quais o incluo. A má gestão é que nos levou a este marasmo, não fui eu, nem os meus pais. Desde muito jovem que justifico o que como, foi assim que fui educada, é assim que educo os meus filhos e até os meus alunos, dentro do possível. Da má gestão posso ser responsabilizada por votar, mas sempre o fiz em plena consciência, acreditando que dava o meu voto a um ser humano digno. E continuo a fazê-lo! Quanto aos fazedores de opinião é um problema acrescido, porque esses nascem do nome que carregam, tal como o Miguel bem sabe. Por isso lhe digo em jeito de conclusão, este texto só será lido em blogues, porque o apelido Bragança não me abre as portas dos jornais. Fique bem Miguel e quando não conseguir mais dormir, por ter tomado consciência da sua responsabilidade pessoal no estado em que se encontra o país, não pense logo em suicídio, tome primeiro Valeriana e se não resolver tome Xanax.

Anabela Bragança, professora de Biologia, ainda com alegria e orgulho!

Coimbra, 19 de Junho de 2013

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