terça-feira, 19 de junho de 2018

Guia Geral de Exames (2018)


Começou ontem a época de exames!

Direção Geral da Educação e Júri Nacional de Exames disponibilizaram em fevereiro o Guia Geral de Exames 2018. Através do mesmo os professores e alunos poderão obter informações acerca dos exames e do acesso ao Ensino Superior.

domingo, 17 de junho de 2018

E isso dá para quê?


Têm-me perguntado várias vezes porque escolhi o curso de Física. A resposta breve é que escolhi porque gostava dessa área. A ciência tinha-me atraído logo desde o início do liceu. Essa atração foi crescendo com a leitura de obras de divulgação científica, como as de Rómulo de Carvalho, o professor de Físico-Química que foi também poeta sob o nome de António Gedeão. Escolhi a física porque, para além de gostar das respetivas aulas (os bons professores são sempre referências!), encontrei nela mistérios que eu queria desvendar. Se, como me ensinavam, o mundo é feito de átomos, eu queria saber o que existia dentro destes: o núcleo atómico, as partículas do núcleo. Eu queria afinal saber de que são feitas as coisas e por que razão elas são como são. E, pensava eu com os meus botões, eu próprio poderia porventura ser um participante da “história do átomo”, o esforço humano para perceber a realidade atómica.

Foi um sonho concretizado. Haveria, nove anos volvidos sobre a minha entrada na Universidade de Coimbra, de me doutorar em Física Teórica pela Universidade Goethe, em Frankfurt, com uma tese sobre a cisão nuclear. Lembro-me de o meu pai me ter perguntado quando eu disse, aos 16 anos, que me ia inscrever em Física: “E isso dá para quê?”. Bom, “isso” deu para ser “físico nuclear”, uma profissão que, na época (antes de Chernobyl) tinha um prestígio mais ou menos equivalente ao de neurocirurgião. Passei a investigar e a ensinar na minha alma mater. Desde aí tenho dedicado a minha vida não só a saber mais, mas também à transferência de saber, através de palestras nas escolas, manuais escolares, livros de divulgação, intervenções nos media, etc. Estou muito feliz por ter escolhido Física: pude realizar investigação não só em Portugal, mas pelo mundo, em sítios fantásticos como Copenhaga, New Orleans e Bilbau, contribuindo, ainda que de forma diminuta, com conhecimento novo. E pude também, como professor e divulgador de ciência, ajudar sucessivas levas de jovens a descobrir a física, ou mais em geral a ciência, a “bela senhora” que me tinha atraído em jovem.

A “bela senhora” continua hoje tão atraente como ontem. Estudantes do ensino secundário perguntam-me muitas vezes que curso devem seguir. Respondo sempre para fazerem como eu, irem atrás do seu sonho. Bem sei que há pessoas que ainda hoje perguntam, como o meu saudoso pai, “isso dá para quê?”. Mas acho que não se deve entrar num curso com grandes conjeturas sobre o futuro profissional e o rendimento económico. Acima de tudo temos de ser fiéis a nós próprios, seguir os nossos talentos, não trair a nossa vocação. Claro que o talento não é tudo. É preciso esforço, um esforço persistente. Mas só o sonho pode garantir essa persistência. A frase de Edison é famosa: “O génio é 1% inspiração e 99% transpiração.”

No meu curso de Física fomos só quatro os finalistas. Hoje dou aulas aos cursos de Física e Engenharia Física na Universidade de Coimbra, onde entram cerca de 50 novos alunos em cada ano. Estes cursos não têm praticamente desemprego. Entram poucos, mas saem bem preparados quase todos os que entraram. O mesmo se passa em cursos semelhantes noutras Universidades do país. Uns encontram emprego no país e outros fora do país, uma vez que a preparação recebida é uma bagagem universal.

A riqueza das nações vem hoje, mais do que nunca, do conhecimento. Falei dos cursos de Física e Engenharia Física, mas poderia falar de outros de ciências e engenharia, Química e Engenharia Química, Ciências da Vida e da Terra e tecnologias associadas, Engenharia Civil, Mecânica, Eletrotécnica e Informática, Biomédica, do Ambiente, etc. A ciência e a engenharia são essenciais na sociedade contemporânea. Nunca existiram tantos cientistas e engenheiros como hoje, porque nunca tanta gente precisou tanto quanto precisa hoje das benfeitorias que essas profissões fornecem. O futuro é incerto, mas há uma coisa que é certa: vamos precisar de mais ciência e tecnologia para resolver problemas da habitação, das comunicações, da alimentação, da saúde, da energia, do ambiente, etc. e alcançar maior bem-estar. Em todas essas áreas existem desafios, sendo necessário para os enfrentar uma preparação sólida em ciências que, começando no jardim de infância, continua no ensino básico e secundário e depois, desejavelmente, no ensino superior.
Nem todos virão a ser cientistas, mas todos podem e devem adquirir uma compreensão sólida sobre o funcionamento do mundo de modo a fundamentar bem as suas escolhas, na vida individual e coletiva.

Carlos Fiolhais
Professor de Física da Universidade de Coimbra

sexta-feira, 15 de junho de 2018

O problema da avaliação de professores é que não é honesta!



A propósito do afunilamento iniciado por MLR e continuado por NC, com a complacência dos Sindicatos, o Alexandre Henriques considera que a avaliação dos professores, aos olhos de quem nos governa, é isso mesmo, um funil. E avaliar é muito mais do que isso… palavra de professor.

Depois do compromisso não cumprido por parte do Ministério da Educação (ME), em que prometeu recuperar todo o tempo de serviço congelado, podia o Governo ter aproveitado esse momento para propor alterações à carreira e à avaliação docente. Do ponto de vista do Governo seria o momento ideal, mas o crivo de Mário Centeno obrigou a uma inversão de discurso por parte do ME, pois só isso justifica o negar de algo que ficou escrito.

Tenta-se agora colar o argumento da carreira/avaliação para tentar desviar atenções da avalanche que caiu em cima do PS, fruto de uma péssima política de comunicação do ME que, só por si, justifica os meses de silêncio que impõe a si próprio.

Mas vamos falar sobre o assunto sem tabus e sem rodeios.

A avaliação dos professores é justa? A avaliação dos professores valoriza os melhores? A avaliação dos professores permite melhorar o desempenho docente? A avaliação dos professores permite afastar os maus professores? A carreira dos professores está bem estruturada? Não, não, não e não.

Convém recordar que, os sindicatos e Nuno Crato alteraram a avaliação dos professores, substituindo-a, na maioria dos casos, por um documento de três páginas, ridículo, que não passa de um momento de auto bajulação, muitas vezes em formato copy/paste, onde se muda a distribuição de serviço e pouco mais. Muitos gritaram “vitória”, era o fim dos professores titulares que avaliavam professores, colegas, sem serem reconhecidos como tal. Se a falta de preparação/isenção era um motivo relevante, o principal motivo e que até hoje persiste é a utilização da avaliação dos professores montada para ser um obstáculo à progressão na carreira. A avaliação dos professores, aos olhos de quem nos governa, é isso mesmo, um funil. E avaliar é muito mais do que isso… palavra de professor.

Além disso, tem sido utilizado o argumento que os professores progridem de quatro em quatro anos, ao contrário dos restantes funcionários públicos que progridem de dez em dez. Se querem equiparar e tendo em conta que os professores têm na sua carreira dez escalões, estes demorariam 100 anos a atingir o topo da carreira, já não contando com o congelamento de dez anos e as quotas do costume.

Querem mexer na carreira, força! Mas lembrem-se que estudos internacionais indicam que os professores portugueses são dos mais mal pagos em início de carreira e só no topo estão ao nível dos restantes países ou um pouco acima. A ideia de reformular a carreira docente é para nivelar por baixo, por cima, é para quê? Eu e o leitor sabemos naturalmente a resposta…

A recuperação de todo o tempo de serviço docente está a criar um problema efetivo ao Governo mas, brevemente, podemos estar perante um terramoto político. Porquê? Está a decorrer uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) que vai obrigar os partidos a demonstrar a sua coerência já que, há alguns meses apenas, recomendaram ao Governo, deputados do PS incluídos, a recuperação de todo o tempo de serviço dos docentes portugueses. Ao mesmo tempo, decorre uma greve rebelde, que fugiu ao controlo das principais estruturas sindicais e que, com tudo somado, vai seguramente perturbar o “aquecimento” para o próximo Orçamento do Estado, o último antes das eleições legislativas…

É verdade que existem alguns professores que não o deviam ser, mas também é verdade que existem muitos extremamente competentes e dedicados. Não se motiva ninguém, dizendo a 20 que só um pode progredir, e lembro, ao contrário das outras profissões, os professores desempenham as mesmas funções, logo a lógica do funil, pirâmide, chamem-lhe o que quiserem, não funciona com os professores.

Reconhecer a competência de quem avalia os professores é também um problema. Não pode ser o colega da sala dos professores, não pode ser o colega que vai lá a casa e que os filhos partilham brincadeiras. Uma avaliação justa implica uma independência emocional. Por isso proponho que seja criada uma carreira específica e que já devia estar a ser preparada. Caso não seja essa a opção, o caminho só pode ser a utilização dos professores mais experientes (a partir dos 60 anos), que até podem deixar de lecionar se assim entenderem e dedicarem-se ao acompanhamento de professores mais novos, utilizando a sua longa experiência como um farol para quem ainda tem muitos anos pela frente.

Não existem decisões fáceis, mas a carreira e avaliação dos professores deve ser encarada de frente, com honestidade e com o objetivo de valorizar o profissional professor e melhorar o seu desempenho. Claro que tudo isto é muito bonito, e também eu tenho momentos em que salto de nuvem em nuvem tocando uma harpa celestial, levando depois uma chapada da realidade, onde a dívida, e outros condicionalismos, empurram o que deve ser para o que tem de ser. Só que no meu mundo ideal, todos os intervenientes deste processo são verdadeiros, os professores assumem que a avaliação precisa de ser melhorada e até trabalham com a tutela. O ME, por sua vez, assume que não pode pagar a todos uma carreira até ao 10.º escalão, pois existem interesses financeiros que precisam de ser protegidos – a banca, as PPP, as fundações, as comissões, os juros da dívida, os amigos, os amigos dos amigos… –, mas, no meu mundo perfeito, o nosso dinheiro é bem gerido e não chegámos ao ponto que chegámos…

Agora, é vê-los no “seu mundo perfeito”, esgrimindo argumentos da/na sua realidade alternativa, onde os reais propósitos ficam por dizer e a realidade que todos conhecemos fica longe das negociações, esquecida e sem ser assumida…

A perfeita imperfeição dos seus mundos (im)perfeitos.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Mude de oráculos, Dr. António Costa!


Era bom que Costa pensasse no que aconteceu a Sócrates quando os professores se cansaram.
“O pão que sobra à riqueza, distribuído pela razão, matava a fome à pobreza e ainda sobrava pão.”
António Aleixo


Não tenho pejo em assumir que a relação que mantenho com os problemas da minha profissão de professor ganha muitas vezes prevalências sentimentais, porque esta actividade profissional não se resume a um emprego como tantos outros. O seu exercício afirma uma identidade e expõe obrigatoriamente quem somos. Em milhares de colegas, com quem tive e tenho a honra de trabalhar, sempre vi dedicação para dar o que de melhor tinham e têm. Quando os maltratam, só posso estar, incondicionalmente, do lado deles.

1. Quando António Costa, qual discípulo de Vítor Gaspar, disse aos professores que “não há dinheiro”, fê-lo porque o governo a que pertenceu e o seu senhor de outros tempos contraíram uma dívida, vendendo o país e a sua autonomia para enriquecimento de uns tantos, a quem ele, António Costa, não disse, nem diz: não há dinheiro! Se isto já é suficientemente escandaloso, mais escandaloso ainda é que haja quem faça coro com a narrativa, quando todos sabemos que as ajudas do Estado aos bancos somam 17,5 mil milhões de euros.

Em retórica política e ideológica, o desconstrucionismo é um método que permite substituir o significado de um texto ou de uma realidade por uma narrativa falsa, convenientemente urdida. António Costa é um exímio desconstrutivista que, apesar de já ter tropeçado muitas vezes na verdade, logo prossegue o caminho como se nada tivesse acontecido. Não me surpreende, por isso, que tenha instruído o pequeno ministro da Educação para entortar a Lei do Orçamento do Estado para 2018, a resolução n.º 1/2018 da AR e o compromisso de 18 de Novembro de 2017. Quem lhe siga o jogo de cintura já viu como lida com as leis: para os adversários, aplica-as; quando são os amigos ou os seus interesses que as infringem, “melhora-as”, “aperfeiçoa-as” ou manda “interpretá-las”.

Era bom que Costa pensasse no que aconteceu a Sócrates quando os professores se cansaram, substituísse as banalidades que diz pelo estudo do problema que tem a rebentar-lhe nas mãos e mudasse de oráculos.

2. As greves dos professores são sempre acompanhadas por homilias pseudo-moralistas sobre os seus “interesses corporativos”. À posição do Governo neste psicodrama, que tem por fim a ideia inverosímil de destruir a carreira dos docentes, recuperando os caminhos do ódio do tempo de Maria de Lurdes Rodrigues, podia dar uma arrogante resposta, tipo serem precisos três Costas e dois Tiagos encavalitados para chegarem aos calcanhares dos professores. Mas vale mais ser pedagógico e explicar do que falamos.

Tomemos por exemplo a situação de um professor que entrou na carreira em 2005. Quando assinou o contrato com o Estado foi-lhe dito que, se cumprisse o que a lei estabelece, estaria hoje no 7.º escalão. Ele cumpriu mas o Estado não. Está no 2.º escalão e, contas por alto e tudo somado, o Estado ter-lhe-á ficado com cerca de 50.000 euros, pagando-lhe hoje, com mestrado ou doutoramento por habilitação, 1200 euros mensais por semanas de trabalho real que se aproximam das 50 horas. Este professor não está a pedir que o Estado lhe devolva o que unilateralmente lhe retirou. Está a exigir, apenas, em conformidade com a lei vigente, os efeitos futuros de um tempo que foi trabalhado, ainda assim repartidos por vários anos vindouros.

3. A narrativa contabilística do Governo sobre a repercussão da contagem de todo o tempo de serviço nas contas públicas é enganadora. Começa por escamotear que boa parte dos salários nominais corrigidos pelo descongelamento volta de imediato aos cofres do Estado, via IRS e contribuições obrigatórias para a CGA e ADSE. Estaremos a falar, como é sabido, de uma percentagem variável, mas que nunca é inferior a 30%. Estivessem certos os propalados 600 milhões e mirrariam para, pelo menos, 420. Mas não estão. Com efeito, quando o Governo compara os dois anos e nove meses que propôs (e agora retirou em cavernícola chantagem) com os nove anos e quatro meses que os sindicatos reclamam, estabelece um raciocínio que multiplica o número a que chegou por um factor tempo, proporcional. Ora tal proporcionalidade não existe; o custo não quintuplica porque o tempo quintuplica. Tão-pouco podem as contas ser feitas como o Governo as faz, isto é, partindo do princípio que toda a gente muda imediatamente de escalão. Obviamente que não muda, já porque há ciclos em curso, longe do fim, já porque na passagem do 4.º para o 5.º escalão e do 7.º para o 8.º existem garrotes limitativos que só o Governo controla, arbitrariamente. E como se o anterior não bastasse, aos vácuos bestuntos dos contabilistas de serviço assomou ainda a ideia de apresentar, como sendo de hoje, números que, se estivessem certos, só se verificariam em 2023. Como se o impacto médio que a dinâmica do crescimento dita não fosse muito menor!

Dr. António Costa, permita-me um conselho, porque a realidade da vida dos portugueses é muito menos cheia de prosápia do que o seu discurso irritante: não volte ao palanque do Parlamento para nos dar lições de contabilidade criativa. A sua responsabilidade política na produção destas aleivosias foi uma aula prática mais que bastante!

4. Sobre o anterior, comentadores e cronistas, vindos da idade do gelo de Sócrates e Passos Coelho, dizem e escrevem vulgatas que tilintam como ouro aos ouvidos dos prosélitos. Eles torturam a verdade e põem a mensagem a dizer o que lhes interessa. Eles sabem que a sequência das mentiras gera na comunicação social desistente a tendência para as repetir, não sendo sinal de saúde ver boa parte dos jornalistas adaptados a esta prática doentia. Por outro lado, é doloroso constatar como na nossa sociedade há audição para comentadores e cronistas intelectualmente desonestos, peritos em transformar simples bullying político e ideológico em manifestações de consciências bem pensantes. Um Trump qualquer apreciaria muito a cruzada sectária e enviesada desta gente, que toma os professores por sacos de boxe. Mas as pessoas sérias só têm que a denunciar e combatê-la como praga infestante da opinião pública.

Ouvir (SIC) Miguel Sousa Tavares dizer que os professores querem subir três vezes mais rápido que os restantes funcionários públicos, enquanto as operárias de uma fábrica de Rabo de Peixe estão como estavam há 46 anos, espelha a eloquência e o rigor dos analistas que se acomodam com um país rico em pobreza.

Ler (Notícias Magazine) que o ministro da Educação fundamenta a sua competência no facto de ter passado toda a vida rodeado de professores, alguns dos seus melhores amigos e a maioria dos amigos dos seus pais serem professores, no activo ou já aposentados, para concluir que, por isso, o mundo das escolas e o mundo vivido pelos docentes não lhe é estranho, esclarece, de modo cartesiano, a quem Costa entregou a pasta da Educação.

Abençoado país que tem governantes com tais créditos e é informado por um jornalismo tão exigente!

5. Deixo vénia ao STOP e à sua greve rebelde, que fugiu ao controlo dos sindicatos do sistema. Toco a reunir as assinaturas que faltam para obrigar o Parlamento a votar a Iniciativa Legislativa de Cidadãos para Recuperar todo o Tempo de Serviço Docente. Juntos, talvez tenham posto fim à luta mansa dos professores.

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