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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

A opinião do Prof-Folio: Um governo forte e uma oposição forte. E o Presidente?

Sebastião Bugalho

Marcelo Rebelo de Sousa, que não é um político apreciador de riscos, caminhava em gelo fino desde que ameaçara dissolver a Assembleia da República caso a esquerda chumbasse o Orçamento do Estado de António Costa.

Quando o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista fizeram justamente isso, logo na generalidade, Marcelo não pôde pressionar o PS a apresentar uma segunda versão do documento nem tão-pouco o PSD a negociar com quem prometera cair se dele dependesse.

O Presidente estava preso ao que dissera.

E ficámos assim: num impasse, no derrube, numa execução pública da ‘geringonça’ perpetuada pela própria, numa crise política em plena crise sanitária.

Caso ficasse tudo na mesma ‒ com o PS obrigado a devolver-se aos braços da esquerda ‒ o Presidente da República seria responsabilizado.

Teria trocado um PS com uma maioria de esquerda disfuncional por um PS com um parlamento pulverizado. O fantasma da ingovernabilidade, dos Blocos Centrais, das iniciativas presidenciais, dos “acordos de cavalheiros”, dos “ciclos de dois anos” e da instabilidade ‒ sendo Marcelo o Presidente da estabilidade ‒ surgiu, assombrando Belém mais do que os demais.

Na primeira semana de campanha, com as sondagens em empate técnico e o PSD pela primeira vez acima dos 30%, Marcelo teria antes detonado a bomba atómica, não em vão, mas em nome da alternância. E, nesse cenário, teria escapado impune à dissolução porque os portugueses teriam escolhido um novo primeiro-ministro.

Mas também não foi isso que sucedeu.

Foi uma avassaladora vitória do Partido Socialista, a sua segunda maioria absoluta em 48 anos de democracia e o castigo ‒ igualmente abismal ‒ dos seus ex-parceiros de ‘geringonça’.

Ao fim de seis anos de proximidade ao poder, dois sinais de alarme nas presidenciais e nas autárquicas, a esquerda foi reduzida a migalhas. Além do arrastão de voto útil do PS, a juventude da IL penetrou no eleitorado do Bloco e o Chega poderá ter assumido o papel de protesto do PCP.

O que sai disto tudo?

De certo modo, o que Marcelo sempre pediu aos partidos e defendeu para o sistema político: um poder forte com um contrapeso forte, um grande governo e uma grande oposição.

De um lado, o PS, sem desculpas para não reformar. Do outro, as direitas, sem razões para não escrutinar.

Não é um pântano, nem uma planície. É um oceano de PS patrulhado por uma oposição pronta a fazer ondas.

O maior receio do Presidente da República, que a sua década na chefia de Estado terminasse em incerteza, morreu ontem. E o perigo da dissolução sair pela culatra também.

Resta saber se Marcelo, depois de sobreviver a provocar as eleições, sobrevive na maioria absoluta que elas trouxeram.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

A explicação dos resultados das Eleições Legislativas de 2022


Ao fazermos uma análise aos resultados definitivos das eleições legislativas de domingo passado, poderemos concluir que;
  • Só 23,5% dos eleitores votaram no PS;
  • Só 16,2% votou PSD;
  • Só 2,5% votou PCP;
  • Só 4,0% votou no CH;
  • 42% nao votou;
  • 1,15% votou em branco;
  • 0,92% votou nulo
Ou seja, uma pequena minoria de 23,5% dos portugueses vai governar, deixando 76,5% dos portugueses subjugados à governação de uma pequena minoria.

Mas vamos passar a explicar esta vitória do PS:
  • Hoje o Estado tem 762.000 funcionários , fora os que estão montados por ajustes diretos que são uns alguns milhares;
  • Mas nesses 762.000 só 450.000 são pessoas que trabalham e precisamos muito delas e são mal tratadas há anos.
São professores, médicos, juízes, enfermeiros e tantos excelentes profissionais!

Mas há 312.000 que nada fazem, arrastam-se em lugares para as máfias políticas...

O mais grave nisto tudo é que todos sabemos que nada fazem mas continuamos a pagar lhes com os nossos impostos.

Esses 312.000, mais as mulheres, os sogros, os pais e os filhos fazem 2.180.000 de votos.

Desta vez, essas pessoas que viram ordenados e carreiras bloqueados e reduzidos votaram em força no PS.

Cavaco e Guterres descobriram que podiam governar Portugal metendo milhares de pessoas no Estado. O Estado é próspero com 450.000 funcionários, tendo-se tornado insustentável com estes 300.000 que nos custam 600 milhões de euros por mês.

Portanto, como alguém já disse "é só fazer as contas"!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Legislativas 2022 - Resultados


Ontem foi dia de eleições!

Para quem pretender saber todos os resultados das legislativas 2022 dos distritos, concelhos e freguesias, basta que aceda ao site que sugerimos hoje.

No site do MAI é possível consultar toda essa informação de uma forma rápida e muito intuitiva.



quarta-feira, 4 de abril de 2018

As mãos de um punhado de ex-políticos e amigos de políticos ou como voam os nossos impostos para os bolsos de alguns!

Esta é uma situação que está na ordem do dia, tendo em conta as acusações deduzidas pelo Ministério Público a este círculo de influências e favorecimentos.
Embora neste momento a situação do financiamento de Colégios Privados em zonas onde a oferta pública é mais do que suficiente continuar a existir, é bom que todos reflitam sobre o esbanjamento de dinheiros públicos neste setor da educação e em muitos outras áreas da nossa sociedade.
Não sou contra a liberdade de ensinar e aprender, desde que esse tipo de ensino seja sustentado por quem dele usufrui!


Esta reportagem é de 2013! Nela há muito para descobrir, um verdadeiro escândalo, basta ver os primeiros minutos para perceber que o que esta gente fez e continua a fazer, são uma ofensa grave ao contribuinte.



Perceba:

  • Como os seus impostos são esbanjados?
  • Como sustentar um grupo com mais de 50 empresas com dinheiros públicos, para que nenhuma se afunde. 
  • Como manter negócios parasitas do dinheiro público, esse poço inesgotável de dinheiro fácil. 
  • Como os políticos ou deputados fazem pela vida, unidos PS, PSD defendem o seu interesse privado com o poder público, colocam os impostos ao serviço dos seus negócios privados.
  • Como se criam escolas com direito de poder escolher alunos de elite e rejeitar alunos fracos?
  • Como pode o estado financiar escolas que violam o principio básico da educação? A educação é para todos. 
  • Como é que os donos e directores das escolas privadas se transformam em poderosos coleccionadores de luxos incalculáveis, explorando os empregados e contribuintes?
Queira ter a bondade de ver o video e navegar neste mar de corrupção, pode mesmo sentir-se enjoado com tanta falta de vergonha e promiscuidade, entre política e negócios.

Resumo do video

Com a desculpa de que não havia vagas para todos os alunos no público, constroem-se colégios privados. Na verdade as escolas públicas ficam com várias vagas por preencher, Por exemplo... Escolas com capacidade para 45 turmas, apenas lhe atribuem 37, e os alunos são empurrados para o privado, para que estes, tenham direito a receber mais subsídios do estado, pois recebem 85 mil euros de subsidio por turma!! Mesmo que apenas tenham 16 alunos. Na pública têm que ter 30 alunos por turma?
O grupo GPS, entre outros, serve de exemplo para mostrar como os nossos corruptos deputados são livres de construir impérios na maior das impunidades e às custas do poder público que ganharam, das influências que exerceram e dos dinheiros públicos que distribuíram.
Impérios privilegiados que sufocam a livre concorrência e a economia... afigura-se cada vez mais claro que são apenas uns poucos que, possuem o direito de dominar todos os sectores e todas as empresas, em Portugal.

O dinheiro para as Escolas e para os Professores era escasso, mas para luxos dos seus presidentes era uma fartura: Uma imensidão de viaturas Jaguar, Porsche, Rolls Royce, Mercedes, BMW, Volkswagen, etc.

A GPS construiu um império com mais de 50 outras empresas, além dos 26 colégios, em diversos ramos.

domingo, 24 de setembro de 2017

Boca do Inferno: Reductio Ad Portugalum

É possível que, no limite, Tancos não exista – e mesmo Portugal, por absurdo, pode ser um produto da nossa imaginação. Mas em princípio não é, porque ninguém conseguiria inventar isto.


É um quadro de Werner Buttner: tem um copo, uma escova de dentes, uma bisnaga de pasta dentífrica e uma espingarda. Por baixo, a legenda: “Cuida tus dientes como tus armas”. Se o ministro da Defesa segue o conselho do pintor, temo pelo seu hálito. Caso dedique aos dentes o mesmo cuidado que dedica às armas, Azeredo Lopes não sabe quantos dentes tem, onde estão, nem o estado de conservação em que se encontram. Há jornais espanhóis que sabem mais sobre os seus dentes do que ele próprio.

Numa recente entrevista, a propósito do furto das armas do paiol de Tancos, o ministro disse: 
“No limite, pode não ter havido furto nenhum. Como não temos prova visual nem testemunhal, nem confissão, por absurdo podemos admitir que o material já não existisse (…)”. Ora, quando a tropa permite que lhe roubem as armas, já estamos perante uma situação absurda. Tenho dúvidas de que ensaiar raciocínios que reduzem ao absurdo ocorrências absurdas seja filosoficamente possível. Gera-se uma concentração de absurdo que não pode fazer bem à saúde. O absurdo devia ser o sal da conversa: uma pitada de absurdo num argumento com pés e cabeça entretém e até ilumina; considerações absurdas sobre ocorrências absurdas são bastante menos proveitosas e costumam ser expendidas em sanatórios.

Sísifo empurra a pedra montanha acima; depois, a pedra volta a rolar para o sopé, e Sísifo começa tudo de novo. Isso, já foi assinalado, é absurdo. No entanto, se Sísifo se puser a conjecturar que, no limite, a pedra talvez não exista e que, por absurdo, a montanha pode nunca lá ter estado, a gente questiona a saúde mental de Sísifo. Uma coisa é executar repetidamente uma tarefa que se sabe ser desprovida de sentido; outra coisa é estar armado em parvo. Higino não falaria dele, e Homero arranjaria maneira de o expulsar da Odisseia.

Quando, em Julho, o Presidente da República visitou Tancos, disse: “Não podemos, em matéria de furto de material militar, ter furtos desta dimensão. Há que prevenir para que não volte a acontecer”, e acrescentou: “É preciso investigar se há alguma ligação entre este furto e furtos que têm acontecido nos últimos dois anos em países membros da NATO”. O ministro Azeredo Lopes, que o acompanhou, não disse (mas deveria ter dito) que não havia nada para prevenir, e que subsistiam dúvidas de que houvesse algo para investigar. É possível que, no limite, Tancos não exista – e mesmo Portugal, por absurdo, pode ser um produto da nossa imaginação. Mas em princípio não é, porque ninguém conseguiria inventar isto.

Fonte: Visão

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O 25 de Abril não é só da esquerda!


Bem sei que a história é sempre contada pelos vencedores, mas a ideia de que o 25 de Abril é um golpe de esquerda não é verdadeira.
Aliás, o 25 de Abril nem sequer é uma revolução, pois essa só começa mais tarde, a 11 de Março de 1975.
Na verdade, o 25 de Abril é apenas um golpe militar contra o poder político do Estado Novo, e nem sequer é a esquerda que fica a mandar no país depois desse golpe.

Quem é o primeiro presidente da República da nova democracia, gerada no dia 25 de Abril?
É o general Spínola! Sim, esse mesmo, que era o vice-chefe de Estado-Maior General do... Estado Novo!
Tinha-se demitido um mês antes, mas era um dos militares com mais prestígio no regime de Salazar.

Ou seja, o primeiro presidente da República que o golpe militar produz é um dos chefes, e símbolos, militares da ditadura!

Spínola, como todos sabem, não era um homem de esquerda, antes pelo contrário.
As suas ideias eram contrárias à descolonização, defendia um Estado Federal onde as colónias estavam ao mesmo nível da metrópole, e defendia uma democracia com limites.
Porém, é ele que todos escolhem para ser o primeiro presidente da nova República, nos dias seguintes ao golpe militar.
E digo todos porque foram mesmo todos.
No movimento dos capitães de Abril, havia muitos de "direita", como havia muitos outros que eram de "esquerda".
Na Junta de Salvação Nacional, um dos elementos escolhidos é Galvão de Melo, um general que nunca foi de esquerda.
E, quando o MFA se constitui originalmente, a ala dos militares de direita, apoiantes de Spínola, está lá representada em força.

Portanto, a conclusão que se deve retirar é que o golpe militar de 25 de Abril não é um golpe de esquerda.
É um golpe dos militares contra os políticos do Estado Novo, mas os militares são, nesse momento, de esquerda e de direita.
E podemos mesmo dizer que, nos primeiros meses a seguir ao golpe, quem domina a chefia do Estado é a direita, com Spínola, e não a esquerda.
É claro que, rapidamente, o processo político se descontrola e a direita militar de Spínola vai perder a liderança.
O general do monóculo virá a demitir-se depois de 28 de Setembro de 1974, e cairá em desgraça a 11 de Março de 1975, quando é obrigado a sair do país e vai exilado para Espanha.
É nesse momento que a direita militar se desliga da revolução, e que esta começa.

É só depois do 11 de Março que aparecem as nacionalizações, a ocupação do Alentejo com a "reforma agrária", e se intensificam as vagas de saneamentos e prisões. 
Aí sim, a revolução começa, liderada pela extrema-esquerda de Otelo, Rosa Coutinho e Fabião, e com o apoio atento de Cunhal.
O 11 de Março é que é a revolução de esquerda, o 25 de Abril não é.
Era bom que a esquerda percebesse que o golpe militar teve o apoio da direita, e não se julgasse a "dona exclusiva" da democracia.
Este regime é de todos, não é só de alguns.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Verdade inconveniente!...

O problema de Portugal nunca foi o Estado! Foram sempre os “privados” mamões!

São colégios privados, construídos de norte a sul do país e financiados pelo Estado com muitos milhões. Ao todo, são 81 colégios pagos por todos nós. Muitos deles autorizados ao lado de escolas públicas que conseguem dar resposta. O debate impõe-se, numa altura em que o Governo se prepara para mudar a lei que até agora esteve na génese dos contratos de associação. Atualmente, o que se pretende é implementar a chamada liberdade de escolha, abrindo-se caminho ao chamado cheque-ensino.

Uma equipa da TVI percorreu o país e encontrou escolas públicas vazias, em risco de fechar, cercadas por colégios privados que nunca deveriam ter tido autorização para serem construídos.

Uma teia de cumplicidades que abrange ex-governantes que, depois de exercerem os cargos, passaram a trabalhar para grupos económicos detentores de muitos desses colégios, ou ex-diretores regionais de educação que fundaram depois colégios que são pagos com o dinheiro dos contribuintes.

Uma grande investigação que mostra o retrato de um país que se prepara para pagar, até ao fim deste ano, mais de 154 milhões de euros em contratos de associação.


sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A entrevista a Nuno Crato

Como se pode ver no vídeo seguinte, o cheque ensino ou o apoio financeiro directo às famílias é há muito uma realidade em países que procuram novos caminhos. Como os Estados Unidos e a Suécia, para não falar na Holanda onde 70% das escolas são privadas.

Por aqui prefere-se um ministério dos professores onde a discussão se trava à volta das carreiras, dos salários e dos direitos. Uma escola centralizada e sindicalizada bem ao jeito dos países onde tudo ruiu: Ex- URSS, Cuba, Coreia do Norte...

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O Bloco já não é bom como o milho


Expresso Online (02-09-2013)

Na última década e meia, o Bloco foi a gaja boa do pedaço, o mulherão mediático que toda a gente queria mimar com piropos, que clube tão sexy, sei lá. Esta confederação radical apresentava uma agenda de costumes que encaixava no ambiente de Lisboa e tinha figuras que passavam bem na TV. Louçã e demais vigários de cabeção vermelho eram bons marketeiros, quais metralhadoras de frases de efeito que faziam as delícias do repórter preguiçoso. Para sublinhar esta sensualidade política, recorde-se ainda que a agremiação tinha miúdas giras numa versão óbvia e felliniana (Joana Amaral Dias) e numa versão ínvia e timburtoniana (Ana Drago).

Entretanto, as coisas mudaram. A agenda fracturante esgotou o espaço da razoabilidade. Resultado? Os bloquistas têm de esticar a corda até ao absurdo, até ao humor involuntário. Por exemplo, já vi gente a namorar um "estudo científico" que garante que os gays são melhores pais do que os heterossexuais. Que estudo tão científico, tão progressista, tão sexy. Ora, a ideia de proibir legalmente os piropos encaixa como uma luva neste fim de linha simultaneamente cómico e totalitário. Sim, à primeira vista, isto parece piada. Proibir piropos? Se ouvir um pedreiro derramar um "és tão boa" sobre uma cidadã curvilínea, um polícia deve autuar o pedreiro de imediato? E o pedreiro loquaz paga a multa com multibanco? Mas debaixo deste humor involuntário encontramos algo mais sério: a velha pulsão totalitária dos comunismos que fundaram o Bloco, o desejo de controlar todos os aspectos da vida quotidiana, de padronizar todos os indivíduos segundo uma cartilha, de extirpar todas as pequenas imperfeições que não seguem essa cartilha.

Por outras palavras, o Bloco já não é bom como o milho. É uma velha com buço. Sem a agenda sexy, sem marketeiros e sem fellinianas, este partido ostenta um buço igualzinho ao do PCP. Sim, claro, é um buço muito progressista, muito de esquerda, sei lá, mas não deixa de ser um buço. E, buço por buço, prefiro o da Odete Santos.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Contrapoder


Passos voltou a mostrar coragem, falta a inteligência!


A crise de julho voltou a iluminar a principal qualidade de Passos Coelho: parece ser uma pessoa realmente comprometida com o país. E dizer isto não é dizer pouco, sobretudo depois do socratismo. Perante as hesitações de Portas e ante o irrealismo cómico de Seguro, a firmeza realista do primeiro-ministro marcou pontos. O que não espanta: na maioria das vezes, Passos parece ser o único político português a actuar dentro das balizas da realidade. Problema? Também parece ser o único a actuar fora das balizas da inteligência. Ao contrário de muita gente, não acredito num segundo fôlego de Passos. Acredito num segundo fôlego da nossa sociedade, mas não numa segunda vida do primeiro-ministro. Não chega ser corajoso. É preciso um pouco de inteligência para filtrar a bravura.

Mesmo antes de chegar ao poder, Passos revelou sempre coragem através de uma visão realista dos nossos problemas. Este transmontano penteadinho esteve sempre à parte da camarilha que nos tem governado, esse conjunto de virgens com passado de madame que anda pelas TVs a negar a realidade. Mas, para mal dos seus e dos nossos pecados, Passos não tem revelado jeiteira nenhuma na forma como aborda os problemas. A sua falta de tacto já matou à nascença vários debates fundamentais. Foi assim com a sustentabilidade da segurança social . Foi assim com a educação . A outro nível, está a ser assim com a reforma do estado .

A falta de inteligência é visível em dois pontos. Em primeiro lugar, Passos fala demasiado e num registo improvisado. Aqueles discursos têm um ar amador, pouco pensado. As causas dos problemas e as soluções ficam misturadas numa amálgama circular. Em segundo lugar, o primeiro-ministro ainda não percebeu que um político começa sempre pela solução e não pelo problema. Um líder começa por dizer que "vamos passar a ter contas individuais na segurança social para precaver o futuro dos actuais contribuintes" e só depois é que diz "não temos dinheiro para pagar as reformas actuais acima de x". Ora, Passos tem feito precisamente o contrário: diz, e bem, que há um problema na segurança social, mas ainda não apresentou soluções que segurem o futuro dos, vá, sub-50. Desta forma, o governo irrita os actuais reformados mas também irrita aqueles que estão a trabalhar. Um político não é um recolector de problemas. Ou melhor: quando está calado, um político é um recolector de problemas, mas quando começa a falar passa a ser um one-man-show das soluções que foram pensadas durante a fase calada. Mas, lá está, Passos não passa muito tempo calado.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A questão moral de Maria Luís Albuquerque

PEDRO TADEU Pedro Tadeu

Maria Luís Albuquerque protagoniza um velho problema moral da política portuguesa? Sim. A tradição a que me refiro não está, porém, na mentira que ela terá dito numa Comissão Parlamentar de Inquérito (aparte: peço desculpa, mas não vou escrever, hipocritamente, frases como "ter faltado à verdade" com que os políticos e os analistas bem comportados, cínica e politicamente corretos, têm descrito este problema).

Uma hipotética nova questão dos casos swap não é, com certeza, a de uma mentira dita por um governante em sede institucional: em 39 anos de democracia não é esta a primeira vez que os deputados são enganados nestes inquéritos. Mas será a primeira vez que uma ministra das Finanças é apanhada a mentir durante esse ritual solene.

Isso é, de facto, novo, mas não modifica o problema moral em si: quem mente de forma oficial aos representantes do povo não pode exercer funções oficiais em representação desse povo. Há muito que esta relação está apreendida e o resultado lógico e coerente desse entendimento seria a decorrente demissão de Maria Luís, exigida pelos partidos de oposição.

O que é novo, do ponto de vista moral, vem agora: não fosse este caso suscitado numa altura em que os dirigentes do País hipotecaram a sua própria conduta ao que entendem ser a satisfação das necessidades da crise e, obviamente, a senhora ministra já não o era. Este falso estado de guerra desculpa tudo, como verificámos nas últimas semanas. Aquilo que antes da crise era condenável passou agora a ser um serviço prestado ao País... Os governantes perderam a vergonha e as consequências serão desastrosas para o regime.

Voltemos ao que é velho, ao que motivou esta crónica: o tradicional problema moral da política portuguesa, que se revela, mais uma vez, com as swap e, antes, se evidenciara com as PPP, o BPN, a traficância política de empregos em empresas públicas e, até, privadas, certas gestões de certas empresas públicas e municipais e inúmeras outras tropelias. Estes escândalos ocorrem sempre pelos mesmos dois motivos - pessoal político que quer gastar dinheiro sem ser democraticamente controlado e pessoal financeiro sempre disposto a criar condições para isso, garantindo, no final da linha, proveitos anormais, pagos pelos contribuintes.

Este sim é o velho problema moral: a política que se verga ao dinheiro. Melhor do que discutir na Assembleia da República a moral da ministra Maria Luís seria debater a forma de pôr um fim a esta promiscuidade que, em última análise, criou a crise onde todos sofremos. Mas, por aí, haveria muito moralista que sairia a perder.

Fonte: DN

Brincar aos riquinhos para brincar aos pobrezinhos

Expresso Online - 05-08-2013

Assunção Esteves é uma personagem no sentido plano e caricatural do termo. Nos romances, as Assunções surgem nos capítulos secundários para dar um colorido sociológico ou histórico ao cenário onde a personagem principal actua. Ora, a nossa Assunção Esteves representa o colorido cómico de um certo Portugal, o Portugal da comédia snob, do nariz empinado por questões de nascimento. Sim, é o Portugal que brinca aos pobrezinhos, mas também é o Portugal que quer brincar aos riquinhos. Assunção Esteves encaixa na segunda espécie. Julgo que aqueles que brincam aos pobrezinhos tem uma palavra gira para descrever esta segunda categoria: possidónios. Palavra giríssima, sei lá.

A segunda figura do estado recusa admitir que o seu pai era alfaiate. Aquilo que devia ser motivo de orgulho é motivo de vergonha. Como é evidentíssimo, a filha de um pobrezinho não pode chegar ao topo, é contranatura. Apesar da origem humilde, Assunção Esteves aceitou o ethos pseudo-aristocrático da "Lesboa" que se repete em todas as povoações portuguesas com mais de, vá, 10 habitantes. E a mutação não se ficou por aqui. Segundo uma peça da Sábado, a Presidenta tem aquela obsessão típica pelo luxo. Ele é roupa de alta costura, ele é carteiras que custam 10% da sua reforma (valor da pensão: 7200 euros por 10 anos de trabalho), ele é um corrupio de assessores que trata como escravos coloniais, ele é gastos sumptuários: assim que chegou à Presidência da Assembleia, Assunção Esteves mudou a casa de banho do seu gabinete para não usar a mesma retrete do antecessor. Que magno problema viu Assunção Esteves no bumbum de Jaime Gama?

Os regimes mudam, mas este Portugal não morre. A comédia social parece que tem o dom da imortalidade. Tal como em 1950, ainda temos fidalgos a viver em bolhas sem qualquer contacto com a realidade. E, tal como em 1950, ainda temos fidalgos wannabe que querem à força brincar aos riquinhos para depois brincarem aos pobrezinhos. País giríssimo, sei lá.

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