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terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

A explicação dos resultados das Eleições Legislativas de 2022


Ao fazermos uma análise aos resultados definitivos das eleições legislativas de domingo passado, poderemos concluir que;
  • Só 23,5% dos eleitores votaram no PS;
  • Só 16,2% votou PSD;
  • Só 2,5% votou PCP;
  • Só 4,0% votou no CH;
  • 42% nao votou;
  • 1,15% votou em branco;
  • 0,92% votou nulo
Ou seja, uma pequena minoria de 23,5% dos portugueses vai governar, deixando 76,5% dos portugueses subjugados à governação de uma pequena minoria.

Mas vamos passar a explicar esta vitória do PS:
  • Hoje o Estado tem 762.000 funcionários , fora os que estão montados por ajustes diretos que são uns alguns milhares;
  • Mas nesses 762.000 só 450.000 são pessoas que trabalham e precisamos muito delas e são mal tratadas há anos.
São professores, médicos, juízes, enfermeiros e tantos excelentes profissionais!

Mas há 312.000 que nada fazem, arrastam-se em lugares para as máfias políticas...

O mais grave nisto tudo é que todos sabemos que nada fazem mas continuamos a pagar lhes com os nossos impostos.

Esses 312.000, mais as mulheres, os sogros, os pais e os filhos fazem 2.180.000 de votos.

Desta vez, essas pessoas que viram ordenados e carreiras bloqueados e reduzidos votaram em força no PS.

Cavaco e Guterres descobriram que podiam governar Portugal metendo milhares de pessoas no Estado. O Estado é próspero com 450.000 funcionários, tendo-se tornado insustentável com estes 300.000 que nos custam 600 milhões de euros por mês.

Portanto, como alguém já disse "é só fazer as contas"!

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

A opinião do Prof-Folio: Dos debates, há uma derrotada inequívoca: a Educação

Santana Castilho

Conviria recordar, a propósito do próximo acto eleitoral: que vai eleger deputados (230), que foram escolhidos por chefes de partidos, que não por nós; que os filiados em todos os partidos existentes somarão cerca de 200 mil cidadãos, isto é, 1,85% de um universo de 10 milhões, 821 mil e 244 eleitores (mapa eleitoral nº 1-C/2021, do CNE); que nenhum cidadão pode concorrer sem a aprovação das máquinas partidárias, caracterizadas pelos números citados; que só por via indirecta desta eleição acabará indigitado, que não eleito, um primeiro-ministro; que tudo isto coexiste com o Artº 2º da Constituição, que diz que “a República Portuguesa é um estado de direito democrático, baseado na soberania popular, … visando… o aprofundamento da democracia participativa” (o bold é meu).
A profundidade que se desejava e o esclarecimento dos eleitores foram inconciliáveis com debates de 25 minutos, prejudicados ainda pela insistência agressiva dos moderadores em temas menos importantes. Compreendo os constrangimentos das televisões em matéria de tempo. Mas esse constrangimento foi caricatamente anulado pelo anacronismo de aos debates curtos se sucederem análises longas de comentadores, que nos vieram explicar o que os políticos disseram.
 
Receio que o eleitorado fique dominado pelo tacticismo que as matemáticas parlamentares ditam, sem assumir que sem alterar o modo de fazer política (prevalência do interesse nacional sobre os interesses partidários e do interesse colectivo sobre os interesses sectoriais) não criaremos um ambiente político favorável à solução dos maiores problemas: centralismo administrativo, coesão territorial, demografia, criação e distribuição da riqueza, crescente dependência do capitalismo digital, funcionamento dos sistemas de justiça, saúde e educação.

Dos debates, há uma derrotada inequívoca: a Educação. A sua ausência da maioria deles, designadamente do que opôs Rio a Costa, é um péssimo sinal e evidencia quão cínico e vazio é o discurso dos políticos, quando dizem que dela depende o desenvolvimento e o futuro do país, mas depois a reduzem a mero acidente de percurso. Nada sobre a reorganização curricular, indispensável à retoma do valor do conhecimento na educação dos nossos jovens. Nada sobre a retoma do raciocínio lógico, que protege da falsa ciência e dos manipuladores manhosos. Nada sobre o fim do embuste, segundo o qual se aprende sem esforço e sem disciplina e a autoridade dos professores é coisa desnecessária às pedagogias modernistas do século XXI. Nada sobre a hipervalorização da digitalização da Educação. Nada sobre o papel das artes na educação das nossas crianças. Nada sobre a promoção social dos mais frágeis. Nada sobre o desmesurado poder dos que não dão aulas sobre os professores de sala de aula. Nada sobre a supremacia crescente do caciquismo paroquial na gestão das escolas. Nada sobre a depauperada formação inicial dos professores e sobre a hecatombe da falta deles. Nada sobre tanto que poderíamos juntar a estes nadas.
 
Sobre António Costa? Dir-se-ia que só tem uma preocupação: culpar os partidos que rejeitaram o OE e assustar o eleitorado com o caos, se ele for forçado a abandonar a paróquia. Apenas propõe o que já existe, com pequenas reconstruções faciais. No debate com Jerónimo de Sousa, António Costa, referindo-se à carreira docente, afirmou querer acabar “de uma vez por todas com este absurdo, que é ser a única carreira no conjunto do Estado em que durante décadas as pessoas têm de obrigatoriamente se apresentar a concursos, andar com a casa às costas e andar de escola em escola de quatro em quatro anos”. Disse-o como se não fosse ele o responsável primeiro por, durante seis anos, não ter posto cobro ao que agora rotulou de absurdo e classificou como “mau para a qualidade educativa e péssimo para a vida dos professores”. É preciso topete para dizer o que disse, sem bater no peito e pedir desculpa.
Sobre os programas? Claro que existem diferenças substantivas de conteúdo entre os diferentes programas eleitorais. Mas, de modo geral, todos assumem uma linha de continuidade com propostas anteriores e primam pela ausência de soluções novas, para problemas novos, num estranho conformismo com uma nefasta cristalização política.

In "Público" de 19.1.22

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O voto


Em período de constante sobressalto no país, têm vindo à liça as menos virtuosas características da política em Portugal, com os inevitáveis clichês sobre a classe política a virem ao de cima. De uma forma justificada, infelizmente, de que as dissimulações de Paulo Portas sobre a sua saída do Governo são um exemplo acabado. Cavaco Silva falou ao país, tendo deixado de parte, pelo menos por enquanto, a possibilidade de eleições antecipadas. Ato eleitoral do qual seria previsível que o PS saísse vencedor. Uma situação para a qual não contribuiria certamente a pessoa que pintou esta frase na parede, recusando-se a atribuir os votos aos socialistas, recorrendo ao velho “jamais”, que ficou associado ao período de governação socratista.

Fonte: Vozes da Rua

terça-feira, 23 de julho de 2013

Em Portugal vai mudar alguma coisa?

O Vias de Facto publicou alguns excertos de um artigo polémico, mas assertivo, publicado pelo colectivo do Passa Palavra sobre os buracos sem fundo e sobre os cheques em branco do messiânico governo de esquerda. Ficam alguns excertos que me parecem mais significativos.


Quando a esquerda limita o seu alvo à constituição de um governo de esquerda e, acima de tudo, quando considera essa via como possível de reverter o quadro de austeridade está a ser demagógica. Nada temos contra o alívio das condições de vida dos trabalhadores. Mas é ilusório pretender que um governo de esquerda, por si só, será a variável independente que irá reverter a austeridade e trará o crescimento económico, o emprego e a melhoria da situação dos trabalhadores. A demagogia não existe no vazio. Ela é expressão dos interesses dos candidatos a gestores que pululam à esquerda.
Mas discutamos brevemente o que realmente significaria um governo de esquerda. E aqui duas questões se levantam.
Em primeiro lugar, como é que o conjunto da esquerda à esquerda do PS pensa poder constituir governo? No actual cenário parlamentar português só é possível constituir governo integrando o PS num governo. Ora, como este partido considera que o Memorando de Entendimento com a troika é para cumprir e que a austeridade vai continuar, como é que a esquerda lidará com esta questão?
Em segundo lugar, mesmo que fosse possível criar um governo empenhado na reversão da austeridade, como seria isso possível a partir de um único país, ainda por cima quando o Estado português não tem meios de se autofinanciar? E aqui entra o nó górdio do nacionalismo, Uma economia minúscula, endividada e pouco produtiva como a portuguesa não conseguiria lidar com a pressão das instituições europeias e escapar à austeridade. Qual o caminho desse governo português de esquerda? Ou se renderia aos termos do possível e se limitaria a negociar pequenas moderações à austeridade e, nessa situação, muito pouco se distinguiria do PS. Ou tentaria uma fuga em frente e o abandono da zona euro surgiria como o horizonte a considerar. Ora, como procurámos repetidamente demonstrar em vários artigos publicados neste espaço, uma saída do euro representaria um autêntico desastre económico e social para as condições de vida dos trabalhadores, agravando muitíssimo a austeridade. E, por inerência, representaria o funeral de qualquer veleidade autonomista da classe trabalhadora por anos e anos.
(...)
Não há que ter medo da realidade. Derrotar um governo é sempre positivo nos instantes seguintes à sua queda. Mas após os dez segundos iniciais de felicidade, se não houver lucidez e espírito crítico e se essa queda não derivar de lutas massivas dos trabalhadores, então as mesmas práticas, as mesmas políticas e os mesmos princípios de organização da vida em sociedade reproduzir-se-ão no governo seguinte. Derrotar um governo e colocar um outro governo, que de esquerda só levará o nome e fornecerá um novo fôlego de legitimidade à continuação da austeridade, servirá a prazo para desanimar milhares e milhares de trabalhadores e de activistas que colocaram as suas melhores energias e expectativas numa falsa solução.
A aposta da luta política contra o actual governo dos capitalistas não é errada por criticar a austeridade. A panaceia da batalha eleitoral para a formação de um governo de esquerda é um erro por não ver a austeridade como continuação da exploração económica por meios políticos e fiscais. O problema de fundo não é a austeridade, é a exploração. E, de imediato, é errado dar a prioridade à luta eleitoral relativamente à construção de um movimento de base.
Neste sentido, jogar toda a luta política no destino que se dê ao actual governo é uma aposta errada, porque se insere unicamente num desejo de renovação das elites no interior da classe dominante. São ingénuos os que crêem que um qualquer governo de esquerda poderá sequer minorar a austeridade. Só um vasto movimento internacional de base, auto-organizado pelos trabalhadores em torno das suas necessidades prementes e concretas, poderá criar condições para uma real alternativa emancipatória.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Mentiras perigosas

E o carácter punitivo da correcção é cegueira política. Causa muito sofrimento desnecessário e enraivece europeus uns contra os outros numa altura em que ou nos aguentamos todos juntos ou vamos pró maneta cada um para seu lado. Em Bona percebiam estas coisas. Em Berlim não sei.

Antes das eleições alemãs de Setembro conviria que falsidades sobre a crise financeira da Europa, tomadas por verdades pelos alemães, fossem desmentidas. Com votos à porta, não é de esperar que tal desmentido venha dos políticos que as espalharam (a começar por Angela Merkel e incluindo alguns dos seus opositores sociais-democratas). Mas é preciso que os eleitores sejam esclarecidos, sob pena do fosso entre o Norte e o Sul da Europa (e o fosso entre os alemães e quase todos os outros) se cavar ainda mais, do projecto político chamado União Europeia ser abandonado e, mais tarde ou mais cedo, da guerra tornar a ser um dos métodos usados pelos países europeus para resolverem problemas entre si.

A maioria dos alemães está convencida de que os países do Sul vão mal porque foram imprevidentes (como a cigarra da fábula de La Fontaine) e que eles, contribuintes alemães (a formiga da fábula) não estão mais dispostos a continuarem a sustentar vícios alheios. Acredita-se que há na Europa países permanentemente devedores (ao Sul) e países permanentemente credores (ao Norte). Por tudo isto, quer-se que a correcção técnica das falhas de governação financeira que contribuíram para a crise actual, sirva de castigo à alegada imoralidade da gente do Sul.

Tudo errado. As intervenções de salvamento de Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia (e outras, bilaterais, em 2010 à Grécia, antes dos mecanismos actuais que permitem financiamento pelos mercados através de um fundo da eurozona, terem sido estabelecidos) não custaram um cêntimo ao contribuinte alemão (ou austríaco, ou finlandês ou holandês). Empréstimos não são dádivas; desde o começo das crises soberanas até hoje, nenhum dos países em questão – Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Chipre – faltou a qualquer das obrigações assumidas e nenhum dos países ricos do Norte perdeu um cêntimo nem como credor nem como fiador. Pelo contrário, a crise tem-lhes permitido ganhar bom dinheiro. Para já, porque o dinheiro custa muito mais barato no mercado à Alemanha (e Áustria, Finlândia, Holanda) do que a qualquer dos países do Sul. E há mais. Na Finlândia, por exemplo, o partido xenófobo dos Verdadeiros Finlandeses ganha votos por as pessoas acharem que a Finlândia manda para ajudar o Sul dinheiro que o Sul não merece, quando na realidade o seu banco central contribuiu 227 milhões de euros para o orçamento do país em 2012, lucro dos títulos gregos, espanhóis e portugueses que detém. Sem esquecer que o dinheiro fácil que fez bolhas e atrasou reformas no Sul foi intermediado por bancos do Norte.

E o carácter punitivo da correcção é cegueira política. Causa muito sofrimento desnecessário e enraivece europeus uns contra os outros numa altura em que ou nos aguentamos todos juntos ou vamos pró maneta cada um para seu lado. Em Bona percebiam estas coisas. Em Berlim não sei. Era preciso que alguém ajudasse os alemães a aprenderem a lidar com o seu destino.

José Cutileiro in Negócios Online (29-05-2013)

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