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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

O que não dizem os rankings das escolas?


Há pelo menos uma coisa que os rankings das escolas não dizem: não dizem qual é a melhor escola. E não dizem quais os melhores professores, nem quais os melhores alunos. Por vários motivos. Em primeiro lugar porque a escola não é um clube de futebol ou uma empresa de sapatos, aferíveis pelo número de pontos conquistados, ou pelo número de sapatos produzidos. Os rankings apenas indicam uma hierarquização das escolas de acordo com os resultados obtidos por um grupo específico de alunos nos exames nacionais, em algumas disciplinas (o que até pode ser importante para discutir questões sobre a avaliação/seriação externa dos alunos).

Em segundo lugar, a qualidade de uma escola, das suas aprendizagens, do seu corpo docente, da sua comunidade educativa, do seu projeto educativo, da sua liderança, das suas instalações, da formação integral dos alunos, não vem nos resultados dos exames nacionais. Os rankings dos exames nacionais também não falam sobre o poder económico dos pais, não dizem quanto investiram, em explicações, fora da escola. Não dizem quantos alunos foram deixados para trás, quantos foram prejudicados ou favorecidos na avaliação interna, para que algumas escolas (públicas e privadas) façam boa figura nas listas.

Claro que esta confusão de se pensar que a melhor escola é a que está no topo do ranking dos exames nacionais tem sido muito bem alimentada pelos mass media, vá-se lá saber porquê. Na verdade, os media recebem informação sobre a qualidade dos resultados dos exames nacionais que transfiguram em manchetes sobre a qualidade das escolas. Mas também recebem a informação que o ME lhes dá. E se o ME, que já reconheceu não ser adepto dos rankings, não lhes facultasse qualquer dado sobre as escolas que se recusam a indicar dados de contexto, ou seja, sobre o perfil socioeconómico dos pais (ação social, nível de escolaridade dos pais, etc…) nenhuma escola privada figuraria nos rankings dos exames nacionais. Nenhuma escola privada seria a “melhor escola”.


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Ainda e agora.. os rankings!

O Prof-Folio disponibiliza para os interessados o Ranking das Escolas de 2017, publicado e produzido pelo Jornal Público, a partir dos dados fornecidos pelo Ministério da Educação.


A esse propósito, o colega Agnelo Figueiredo, fez o seguinte comentário no Twiter, publicado no ComRegras:

De facto, o Estado, o JNE, não publica e nem sequer produz rankings. O que faz é cumprir a lei, tornando públicos documentos da Administração Pública, sem necessidade de o cidadão os requerer. O JNE torna acessíveis ficheiros – bases de dados – com os elementos relativos às classificações internas e externas que cada aluno de cada escola obteve nos exames de cada disciplina que realizou.

Infelizmente, as bases de dados relativas aos exames de 2017 ainda não estão disponíveis para os cidadãos; apenas para os jornalistas. Mas as de 2016, por exemplo, podem ser descarregadas a partir de http://www.dge.mec.pt/sites/default/files/JNE/enes2016-media_2.zip.

Desde há vários anos que exploro estas bases de dados, logrando fornecer à comunidade informação relevante sobre o desempenho de cada disciplina, de eventuais desvios, inesperados ou persistentes, de séries temporais de resultados, bem como comparações com resultados de escolas com contextos semelhantes, nomeadamente as da vizinhança geográfica mais ou menos alargada, construindo, assim, o meu próprio ranking. Estes elementos, indubitavelmente, favorecem a aprendizagem organizacional.

Ora, o que eu faço, qualquer interessado pode fazer, bastando ter alguns conhecimentos rudimentares sobre bases de dados. Isto é, todas e cada uma das escolas pode elaborar o seu ranking de acordo com critérios que venha a definir. E refletir sobre isso.

Só que não pode já neste exato momento. Esta é, de resto, a única crítica que se pode fazer à Administração Educativa: por que raio os jornais têm acesso às bases de dados antes dos cidadãos e das escolas? Pagaram por esse “exclusivo”? E, se pagaram, será legítimo?

O que é certo é que o têm e o utilizam para elaborar rankings passíveis de severas críticas. Desde logo quanto à ideia absurda de fazerem uma única seriação, misturando escolas estatais com colégios privados. Os jornalistas não terão a noção de que se trata de realidades absolutamente distintas? Por que insistem? Há interesses obscuros que o determinam?

Ainda assim, tem vindo a registar-se uma evolução positiva no trabalho de alguns jornais. De facto, em algumas edições on line, já é possível introduzir parâmetros, como o contexto socioeconómico e a propriedade da escola, que permitem obter resultados mais ajustados à realidade.

Mas não é por causa de nada disto que o colega com que comecei este texto, bem como muitos outros, com a Fenprof à cabeça, se insurgem contra os rankings. É que os professores e as escolas são mesmo muito importantes para os resultados que os alunos alcançam nos exames. E quando se trata de escolas próximas inseridas em meios sociais idênticos, a importância do professor ainda cresce. Portanto, os rankings acabam sempre por ser uma avaliação das escolas e dos seus professores. E bem conhecemos a relação difícil entre sindicatos e avaliação docente…

Voltando aos rankings dos jornais… antes rankings criticáveis do que nenhum ranking! Ditadura, não!

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Os rankings escolares são como as omoletes

Os rankings estão a mais, prejudicam a escola, uma escola que é de todos e devia ser defendida por todos (Alexandre Henriques in Público).



Em primeiro lugar, quero agradecer ao jornal PÚBLICO este exercício de liberdade, em segundo lugar, reconhecer que os seus profissionais passaram horas e horas a analisar resultados para que todos nós conhecêssemos os rankings escolares.

Caros jornalistas e leitores, permitam-me a provocação…

Qual é a diferença entre a escola 320 e a escola 381 (garanto-vos que nem fui ver quais são!)? Será que a escola 320 é melhor, efetivamente, do que a escola 381? Atenção que ao dizer escola não me refiro a um dado momento cristalizado num exame mas sim a toda a comunidade escolar feita de alunos, professores, pais, encarregados de educação, funcionários e diretores. É que os rankings, direta ou indiretamente, passam uma imagem simplista e extremamente redutora - a escola 320 é melhor do que a escola 381.

Os rankings são imagem, os rankings são ego, os rankings são humilhação, os rankings são uma parte ínfima da realidade. Não acreditam?

Pois bem… os rankings mostram o aluno que gastou centenas de euros em explicações?

Os rankings mostram o aluno que esteve exposto ao frio e ao calor, quer na escola, quer em casa?

Os rankings mostram o aluno que sofreu privações de todo o género?

Os rankings mostram o aluno que assistiu ao pai bater na mãe, aos irmãos que teve de cuidar, enquanto abdicava do seu tempo para se preparar devidamente para o exame?

Os rankings mostram o aluno que teve como colegas alunos indisciplinados ou professores que não conseguiram dominar a turma?

Os rankings mostram o aluno que esteve inserido em turmas pequenas/grandes?

Os rankings mostram o aluno que não teve professor durante semanas/meses?

Os rankings mostram o aluno que anulou a matrícula?

Os rankings mostram o aluno retido?

E podia continuar…

Lembro-me, como se fosse hoje, de uma conversa que tive com um diretor que, tendo visto a sua escola subir em flecha nos rankings escolares, disse: “Alexandre, preferia mil vezes não ter uma taxa de reprovação de 30% no secundário, do que estar aqui a ser contactado pela comunicação social sobre o brilharete de ser subido umas centenas de lugares no ranking”.

Este ponto é muito importante e seria muito interessante colocar uma coluna com a percentagem de alunos retidos ou mesmo a percentagem de alunos que concluíram a escolaridade obrigatória sem qualquer reprovação.

E o que dizer da comparação, incomparável, da classificação externa com a interna? Talvez a população em geral desconheça, mas a classificação interna resulta do somatório de uma parcela que avalia o conhecimento - 60, 70, 80 % da nota total - a uma parcela que avalia atitudes e valores - 40, 30, 20% da classificação total. A classificação externa, ou seja, os exames, avaliam somente o conhecimento que, nessa situação, tem um peso de 100%. Então por que raio comparam as duas avaliações? Se nem os critérios de avaliação interna são iguais entre escolas?!

Portanto, comparar o que não é comparável é um absurdo total, uma falácia, ou como se costuma dizer na política, uma não verdade.

A escola é muito mais, mas mesmo muito mais do que uma pauta. Enquanto professor, valorizo tanto aquele aluno que supera as suas dificuldades para atingir uma classificação positiva como aquele que atinge uma classificação elevada. Tudo depende do ponto de partida, mas ambos estarão de parabéns!

Os rankings tornaram a escola escrava dos exames, tudo gira à sua volta. Os rankings e os exames deturpam aquilo que é essencial e a verdadeira obrigação da escola, ensinar/aprender, formando, indo ao encontro das caraterísticas individuais dos alunos, tornando-os melhores e mais preparados para a sociedade em geral. Os rankings e os exames tornaram-se um espetáculo mediático numa sociedade que transformou a Educação num negócio, onde se compara aqueles que têm os melhores ovos com aqueles que nem têm supermercado para os comprar…

Os rankings estão a mais, prejudicam a escola, uma escola que é de todos e devia ser defendida por todos.

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