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domingo, 17 de setembro de 2017

Carta aos professores

Façam-nos pensar, despertem-lhes a curiosidade, incentivem-nos a partir à aventura. Ensinar é a arte da assistência à descoberta!



Caros amigos,

Não se importam que vos trate por amigos, certo? É que não vejo melhor palavra. Com quatro filhos em idade escolar, sinto que são uma espécie de companheiros de viagem. Escrevo-vos porque falar destes assuntos naquelas reuniões de pais é complicado – vocês sabem, é mais ou menos como nas reuniões de condóminos: muitos pais angustiados e impacientes e muitas perguntas idiotas sobre assuntos que não importam nada. 
O essencial parece que fica por dizer.

E há tanto para falarmos, caros professores, no arranque de mais um ano letivo, este marco definitivo nas rotinas de tantas famílias portuguesas como a minha. Espero encontrar-vos bem, carregados de energia para mais uma espécie de missão impossível – tenho a noção que é quase isso que se pede aos professores nos dias de hoje. Bem sei que muitos pais esperam que vocês façam todo o trabalho por eles: que ensinem, que eduquem, que sejam exemplos, que inspirem, que mantenham a serenidade em toda e qualquer situação, e que ainda por cima se contentem felizes com pouco como recompensa. Não é fácil corresponder a tanta expectativa, eu sei. Mas alguns de vós dão o vosso melhor e quase que chegam lá. Tiro-vos, honestamente, o chapéu.

Num ponto todos concordam – os professores moldam vidas e são eles o coração do sistema de ensino. Um bom professor guardamo-lo para a vida, marca para sempre. Mas não se deixem vergar pelo peso da responsabilidade. Não formalizem demasiado as relações. Tentem não perder a chama e a paixão dos primeiros dias, mantenham aquela boa dose de instinto na gestão de uma sala de aula. Usem e abusem do humor, sejam empáticos, sejam performers – era Steinbeck que dizia que um professor é um grande artista. A sala de aula é o vosso palco. Não se deixem formatar. Os melhores professores que tive foram sempre aqueles que fugiam do padrão.

Cada miúdo é um miúdo, não há fórmulas rígidas e infalíveis. Se tivesse de vos pedir uma só coisa, seria que se dedicassem a conhecer realmente as crianças que têm pela frente. O que lhes faz brilhar os olhos, o que detestam e o que lhes faz sono. Oiçam-nos: eles são mesmo seres incríveis. Acreditem, não será tempo perdido – a partir daí 
saberão como os agarrar.

Preocupem-se mais em estimular a curiosidade do que em debitar a matéria do manual. Aqui que ninguém nos ouve, quem me dera que pudessem esquecer essa rigidez das metas curriculares e algumas das coisas que se obrigam os miúdos a saber hoje em dia. Expliquem-lhes porque aqueles assuntos importam, e eles quererão conhecê-los melhor. Empinar matéria, em pleno 
século XXI, é absolutamente anacrónico. Os factos desgarrados são dados adquiridos: estão aí à distância de uma pesquisa no Google. Mais do que lhes dizer o que aconteceu, expliquem-lhes porque aconteceu assim. Façam-nos pensar, despertem-lhes a curiosidade, incentivem-nos a partir à aventura. Ensinar é a arte da assistência à descoberta.

Valorizem outras coisas que não as notas – venho a crer que elas importam afinal tão pouco na vida. Mais do que seres cheios de conhecimentos acumulados, ajudem a formar boas pessoas e adultos interessantes. Ensinem-lhes os valores da partilha, generosidade e espírito de equipa. Quem não ajuda um colega jamais deveria ter lugar num quadro de honra.

E, por favor, não menorizem os miúdos – deem-lhes máxima liberdade acompanhada de máxima responsabilidade. Eles têm desde cedo que perceber que a escola é o seu trabalho, não o dos pais. Imponham regras e limites claros desde o primeiro dia, e expliquem-lhes as consequências. Já agora, expliquem isso também aos pais, que cada vez mais tratam as crianças como flores de estufa no deserto para compensar a sua crónica ausência.

Peço-vos, é verdade, uma combinação de talentos e competências que parece quase de alquimia. Mas isto não é mística: é bem possível e há quem o faça todos os dias por essas escolas do País. Bem-hajam.

Mafalda Anjos in Visão Online

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A carta dos 70 (Brigada do reumático)... Outra vez!...


Há duas semanas, 70 personalidades lideradas por Mário Soares, quase todas de esquerda e dizendo-se intérpretes da vontade popular, escreveram uma carta ao primeiro-ministro exigindo-lhe mudança de políticas ou, em alternativa, a sua demissão.

Note-se, em primeiro lugar, a arrogância dos signatários da carta: consideram-se os justos representantes do clamor popular.

Não sabemos quem, de entre o povo, lhes passou o mandato popular. Nem sabemos de que forma ou em que momento foi esse mandato conferido. E não sabíamos – eu, pelo menos, não sabia – que o povo, nos seus milhões de vontades e aspirações, consegue formar uma vontade una, indivisível, totalitária, revelada aos 70 e por estes apropriada.

Sabemos apenas, ou não fosse a esmagadora maioria dos signatários de esquerda (o que oferece, como se sabe, o pressuposto da bondade e da identificação com o bem comum), que se sentem justos representantes do povo.

Eles é que sabem, os 70. Não foram eleitos, os 70; não foram a votos, os 70; não pediram mandato, os 70; nem receberam procuração, os 70. Mas isso são pormenores: eles é que sabem. Porque sim. Talvez por serem de esquerda.

Note-se, em segundo lugar, o desprezo, porque é disso que se trata, com que os signatários tratam a Constituição e, já agora, os portugueses (sim, os portugueses).

A Constituição tem regras sobre a nomeação e demissão do governo – regras que os signatários deviam conhecer, até porque andam sempre com a Constituição no verbo – e que de forma alguma autorizam uma espécie de conselho de sábios a arrogar-se o direito ou dever ou poder de determinar o momento a partir do qual um governo deve ser demitido ou pedir a sua demissão.

E essas regras pressupõem, basta lê-las, a democracia parlamentar. É o parlamento que representa, para o que ora nos interessa, a vontade popular. E é no parlamento que se formam as maiorias necessárias para manter ou não um governo.

Aquilo que os signatários da carta demonstram pelo parlamento e, por isso, pelos portugueses que o elegeram, não é outra coisa senão desprezo, como se o parlamento não servisse para nada ou, pior, como se o parlamento não representasse a vontade popular.

Serei só eu a considerar grave que haja deputados (sim, há deputados entre os signatários) a querer, através desta carta, obter algo que, negado nas urnas, nem sequer tentaram no parlamento?

Note-se, enfim, a displicência dos signatários.

Críticas, é só lê-las espalhadas pelos parágrafos da carta. Soluções alternativas, daquelas que se podem propor no parlamento, estilo faça-se x ou legisle-se no sentido y, é que está quieto. Mande-se abaixo o governo, porque sim e porque não é de esquerda. Para fazer o quê é que não se sabe. Parece que não é preciso e que basta dizer crescimento, crescimento, crescimento.

Esta carta, no consenso que arrogantemente pretende iludir e no espelho que procura ser da elite portuguesa, funciona afinal como paradoxo.

O país entrou em pré-bancarrota depois de décadas de irresponsabilidades que foram consentidas, toleradas e muitas vezes aplaudidas apenas porque embrulhadas num qualquer amanhã que canta, porventura ao gosto de alguns dos 70. Esta carta representa tudo o que Portugal foi e tudo o que, por três vezes na nossa história recente, nos levou a pedir ajuda externa.

Nada me move contra os 70 signatários. Sou admirador de uns, leitor compulsivo de alguns e até, orgulho-me, amigo de outros. Mas nem a admiração, nem o gosto nem a amizade me impedem de considerar que o caminho defendido pelos 70, na parte que tem de perceptível, procura a perpetuação de um modelo socialista que não consigo defender e que nos arruinou.

Fonte: iOnline

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Os Pândegos - Sobre a carta de Soares e outros a Passos Coelho

Na passada semana foi publicada uma missiva que 70 iluminados, encabeçados pelo sábio ancião que tanto sabe acerca de salvar a pátria, que me levantou uma singela dúvida: será que algum deles acredita realmente naquele rol de frugalidades distorcidas que constituem o conteúdo da dita? Talvez o sábio ancião acredite, sempre foi um tipo que acreditou no que lhe deu jeito consoante a época. Talvez um ou outro acredite, de entre os signatários há uns quantos que apresentam um tão aguçado espírito crítico e uma tal capacidade analítica que lhes permite acreditar... Em quê? Acreditar, de um modo geral, alheio ao específico e ao circunstancial, tendo por base aquilo que lhes foi impingido como "politicamente correcto" .
Os outros... Os outros sabem muito bem das suas conveniências, das suas militâncias, dos seus grupelhos, das suas posições políticas de oposição sistemática não permeável a qualquer tipo de racionalidade que seja contrária aos seus interesses, por mais  óbvio que seja que do poço seco não se tira água.


Esta carta contém frases indubitavelmente lapidares, verdadeiras pérolas da dialéctica político-social. Um mimo!
Uns pândegos!
Como já cá ando há anos suficientes para não me irritar com verborreias de malta pândega, não levo a sério o que de sério nada tem. Confesso que dei umas boas gargalhadas ao ler a tal cartinha que não me é dirigida - na forma - mas que outro destinatário não tem senão o encurralado povo português, a ver se pega o apelo à raiva, ao descontrolo, ao golpe de Estado que nos levaria directos ao buraco negro onde estivemos a cair.
Encurralado sim, mas por quem? Pela Troika? Pelo Passos Coelho? Pelo Gaspar? Não brinquem comigo  sem declararem que estão a brincar; brincar a fingir que é a sério é de mau gosto, além de imaturo. Para não dizer mais.
A primeira declaração que me caiu no goto e libertou a primeira gargalhada diz assim:

«À data das últimas eleições legislativas já estava em vigor o Memorando de Entendimento com a Troika, de que foram também outorgantes os líderes dos dois Partidos que hoje fazem parte da Coligação governamental. O País foi então inventariado à exaustão. Nenhum candidato à liderança do Governo podia invocar desconhecimento sobre a situação existente.»
A comunicação do governo de Sócrates sobre as (concluídas) negociações com a Troika, em Bruxelas foi a em Abril de 2011. Haviam começado em Fevereiro e Sócrates só discursou sobre o "bom Acordo" conseguido em Maio.
Todos nós sabemos, os que se querem lembrar e os que se querem esquecer, que até José aparecer na TV ladeado pelo Teixeira (com umas trombas memoráveis), não havia crise nem derrapagem económica - foi um raio de uma coisa que aconteceu de um dia para o outro - uma certa manhã acordámos assim, falidos, sem pilim para os salários do mês seguinte (Maio 2011)

As eleições legislativas foram a 5 de Junho de 2011...
Conclua-se...

«Nenhum candidato à liderança do Governo podia invocar desconhecimento sobre a situação existente.» ??????????????
Pergunto eu, algum português corriqueiro - leia-se, não próximo do governo - podia evocar conhecimento do real estado das finanças de Portugal?
Todos sabíamos, os que sabíamos e os que diziam que não existia, que estávamos num enorme e profundo buraco, já não era possível esconder com discursos, mas alguém tinha conhecimento da real dimensão do buraco? Aahhh, memóriazinhas traiçoeiras!
Menos de um mês antes do início das negociações com o FMI Sócrates dava murros na mesa dizendo que não iria pedir ajuda externa que a derrapagem estava controlada.

Não me gozem...
«Os eleitores foram intencionalmente defraudados. Nenhuma circunstância conjuntural pode justificar o embuste.»
Perdoem-me mas estou baralhado, esta frase da missiva refere-se a quem? Quem é que intencionalmente defraudou os portugueses? De que embuste?
Nem gasto mais tempo ou palavras a explicar a pergunta, se alguém não percebeu não irá perceber agora.
«O Governo, num fanatismo cego que recusa a evidência, está a fazer caminhar o País para o abismo.»
Lá estamos outra vez...  Os 70 iluminados referem-se a quem? A que governo? Deve ser ao de José...
Quem é que se viu obrigado a ir pedir ajuda externa, apesar da sua afirmação de que nunca o faria porque  seria «uma indignidade para Portugal» (!!!) e o fez a ferros, porque Portugal já não tinha forma alguma de subsistir?
Foi Passos Coelho que num ano e meio nos colocou nessa situação?
Em menos de um ano e meio Portugal voltou aos mercados reconquistando a confiança dos mercados estrangeiros, relançou as exportações, pela primeira vez começou a equilibrar a balança de importações, viu aprovadas as sequentes tranches de empréstimo sem as ver perigar.
Custa? Custa, muito. E nem estamos a meio caminho mas, por mais que nos custe, a recuperação da economia tem de passar pela reestruturação do aparelho do Estado, ou estaremos sempre sujeitos ao ciclo vicioso em que nos encontramos há décadas.

Mexer no aparelho de Estado não é, de forma alguma uma política eleitoralista, não agrada a ninguém, nem a quem mexe nem a quem vê mexer mas é absolutamente imprescindível  - apesar de ser cultivada pela oposição a impermeabilidade a esta evidência.
«O Governo, num fanatismo cego que recusa a evidência»?
Ó sorte... Não é por demais evidente que temos de nos cingir a uma austeridade sem tréguas se quisermos voltar a ter um país capaz de sobreviver na Europa?
Sim camaradas, no Estado não se mexe, não dá votos nem "jobs" . Nunca se mexeu, custe o que custar, pague-se o que se pagar, o Estado é uma vaca sagrada. Esquelética e moribunda mas sagrada.
Não me lixem!
«.../...  sob pena de, pelo interesse nacional, ser seu dever retirar as consequências políticas que se impõem, apresentando a demissão ao Senhor Presidente da República, poupando assim o País e os Portugueses ainda a mais graves e imprevisíveis consequências.»

Pelo interesse nacional? Não tenho conhecimento de que tivesse vindo a público qualquer carta destes iluminados, ou de outros, a exigir a mudança de política do Zé Sócrates ou a sua demissão... Verdade se diga, as consequências da sua política de esbanjamento, favoritismo e ocultação da realidade, essa sim, um embuste de um admirável embusteiro, não eram de todo imprevisíveis.

Só não viu chegar a actual situação quem tapou os olhos ou era ceguinho.

Que legitimidade têm os subscritores desta carta, nas provas dadas, na sua sapiência para "exigirem" - como é dito na nossa opinativa comunicação social - a demissão de um governo eleito maioritariamente, com um orçamento aprovado na Assembleia da República, doa a quem doer. Este governo é legitimo e eleito democraticamente, como eleito e legítimo foi o governo do Zé Sócrates
Aguentem-se, como eu me aguentei; É o preço da democracia e, ao que parece, estes pândegos  não querem, não querem, não querem. Já o Otelo sofre da mesma doença alérgica.
A pândega está a acabar, a massa para as Fundações, mesmo para a do pai da pátria, foi-se. É uma chatice, mas talvez tenham de andar de "Renault Clio".

Este governo, por muito duro que seja, está a fazer o que há muito deveria ter sido feito. Há quem entenda isto, há quem não entenda e há quem, entendendo ou não, se esteja nas tintas, quer é que o governo caia, que reine a esquerda festiva mesmo que o povo não vote nela,  que volte um estilo de vida que não é comportável mas é muito mais confortável. Eu não estou aí, tenho um filho e quero que ele tenha um país.
«Exmo. Senhor Primeiro-Ministro,
Os signatários estão muito preocupados com as consequências da política seguida pelo Governo.»
Caros Signatários,
Chegam muito atrasados...
Quanto à esperança, a que vocês dizem não ter é a que a mim me resta!

A "cartinha", para quem quiser ler, está AQUI.
Fonte: Real Gana

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