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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O regresso de Sócrates

Sócrates vive em Paris mas regularmente vem a Portugal e encontra-se com os seus fiéis.
Ele sabe que tão cedo não poderá voltar à política activa, mas quer ter peões bem colocados para, quando chegar o momento, dispor de meios para agir.
E, de qualquer modo, vai condicionando os equilíbrios e as jogadas no PS.

A esse respeito, uma coisa pode António José Seguro ter como certa: mais cedo ou mais tarde a vingança de Sócrates chegará, fazendo-o pagar a ‘falta de lealdade’ demonstrada em momentos decisivos.
Seguro foi dos poucos que mantiveram alguma distância em relação a Sócrates quando este era primeiro-ministro – e Sócrates não é do género de perdoar as ofensas.

Na semana passada, quando nada o fazia prever, os socráticos saíram da toca e deram um sinal de vida.
Tudo começou com uma frase de António Costa, que atacou António José Seguro por não assumir a herança política de José Sócrates.
«Pode criticar-se o passado ou elogiar-se o passado, não se pode é fingir que o passado não existe» – disse o actual presidente da Câmara de Lisboa.
Esta referência implícita de Costa ao antigo líder foi vista como um gesto de simpatia, que não tardaria a ser retribuído: Pedro Silva Pereira, habitual ‘porta-voz’ de Sócrates, veio pedir a antecipação do Congresso, abrindo caminho à candidatura de António Costa à liderança.

E logo a seguir veio o ex-ministro Vieira da Silva dizer o mesmo.
Os socráticos aliavam-se, pois, a António Costa para fazerem uma tenaz a Seguro e o tirarem da liderança socialista.
Seguro e os seus homens reagiram, porém, com inesperada rapidez e determinação.
Falaram em «traição», chamaram todos os nomes aos adversários, tocaram a rebate, reuniram as tropas e prepararam-se para o combate.

Certo de ter a máquina do partido na mão, Seguro avançou para a antecipação do Congresso, tentando não dar tempo a António Costa para preparar convenientemente a candidatura.
Num primeiro momento Costa reagiu, e os jornalistas e alguns apoiantes chegaram a dar a sua candidatura como certa.
Mas subitamente recuou, após perguntar enigmaticamente a Seguro se era capaz de «unir o partido».
Unir como e quem – se era ele, aparentemente, o primeiro factor de desunião?
Ou não era – e António Costa referia-se aos socráticos? (sendo curioso ter aparecido no Rato com Pedro Silva Pereira ao lado).

Toda esta história é muito estranha, e dela é António Costa quem sai pior.
Começa a ser visto como um novo António Vitorino – que é muito bom, muito inteligente, muito preparado, mas não é capaz de avançar para a liderança.
Os socráticos já tinham dito de sua justiça: queriam uma antecipação do Congresso e esperavam que António Costa se candidatasse.

Ora, o Congresso vai ser antecipado, mas Costa não se candidatará.
Resta saber como reagirão a esta desistência os apoiantes de José Sócrates.
E dois casos se podem dar: ou arranjam outro candidato ou António Costa fará nova pirueta e passará de ex-candidato e de ex-não-candidato outra vez a candidato.
Uma coisa é certa: os sócráticos não gostam de Seguro – e, depois do que se passou, a guerra ainda ficou mais acesa.
Basta ver o comportamento de alguns indefectíveis do ex-primeiro-ministro ou ler os seus textos para se perceber que eles já afiavam facas e tudo farão para deitar Seguro abaixo.

Querem voltar a lugares de decisão no PS, querem que a herança de Sócrates seja respeitada, querem que o próprio Sócrates volte a ser idolatrado e a ter uma posição de destaque.
E sabem que, com Seguro, isso dificilmente acontecerá.
A candidatura de António Costa à liderança do PS seria o primeiro acto da recuperação da imagem pessoal de José Sócrates e do regresso dos socráticos à primeira linha do partido.
Mas essa tentativa falhou.

Como Sócrates é persistente, não acredito que desista.
Através de Costa ou de outro qualquer, contem com ele nos próximos episódios da batalha socialista.

Fonte: Sol Online

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O que nos aconteceu?

Chamemos-lhe Paulo a ele e Margarida a ela. Ele era engenheiro electrotécnico e trabalhava numa empresa de construção civil, ela era funcionária administrativa no Estado.
Namoraram dois anos, casaram e compraram um pequeno apartamento T1, contraindo um empréstimo ao banco.
O dinheiro para mobilar a casa foi-lhes parcialmente emprestado pelos pais dele.
Logo a seguir ao casamento compraram um carro, um Renault de gama média, pago a prestações.
Ao fazerem um ano de casados, decidiram comemorar a data com um cruzeiro no Mediterrâneo, através do sistema ‘viaje agora e pague depois’.
No ano seguinte tiveram um filho, a que chamaram João Maria, e aos três meses meteram-no numa creche, pois a mãe tinha de voltar ao emprego.
Para ir levar e buscar o bebé à creche, a Margarida precisou naturalmente de ter carro; iniciou então lições de condução, e logo que conseguiu a carta comprou um pequeno Opel, que ficou a pagar também a prestações.
Quando o filho fez dois anos, os pais acharam que não era saudável continuar a dormir no quarto deles, e procuraram um apartamento maior.
Encontraram um T3 em Carnaxide por um preço razoável, numa urbanização nova.
Puseram a casa onde viviam à venda, e com o dinheiro recebido liquidaram o empréstimo antigo e ainda ganharam uns milhares de euros; fizeram, então, um novo empréstimo para pagar a nova casa, ficando com encargos bastante mais altos do que anteriormente. Mas a casa era boa e valia a diferença.
Ao fim de sete anos de casados, viram na secção de vendas de um jornal o anúncio de uma pequena vivenda no Meco: era uma excelente oportunidade, que lhes resolveria o problema das férias. E não a desperdiçaram.
Como a estrada de acesso à casa era má, com o piso cheio de buracos e pedras soltas, decidiram juntar o útil ao agradável e trocaram o velho Renault por um jipe.
O João Maria, entretanto, estava a atingir a idade de entrar para a escola, e eles puseram-se à procura de um colégio privado, pois ouviam cobras e lagartos sobre o que se passava nas escolas públicas e não podiam arriscar pôr lá o filho.
O Paulo começou a ter dificuldades para pagar todos os encargos mensais – e um dia tomou a iniciativa de fazer uma conta-ordenado; mas depressa verificou tratar-se de um enorme erro: no primeiro mês foi bom, porque recebeu o ordenado antecipado, mas a partir daí começou a recebê-lo como dantes, de mês a mês, com a diferença de que recebia menos, porque tinha de pagar juros pelo adiantamento.
Começou então a ter de recorrer a empréstimos bancários para ir tapando os buracos que iam aparecendo; só que tapava uns e abria outros.
Mesmo assim conseguiu arrastar a situação por alguns anos; um dia, porém, correu vários bancos e de todos recebeu a mesma resposta: «Lamentamos, mas não podemos dar-lhe mais crédito». O Paulo ainda protestou, mas não havia nada a fazer.
Meteu-se então a estudar todas as hipóteses e descobriu uns especuladores que aceitavam fazer-lhe um bom empréstimo – mas os juros que cobravam eram tão altos que ele depressa viu que não os podia suportar.
Desesperado, o Paulo reuniu um grupo de amigos, entre os quais se encontravam dois ou três mais abastados, e expôs-lhes a situação aflitiva em que se encontrava.
Depois de o ouvirem, os amigos concordaram em emprestar-lhe dinheiro a juros baixos, com uma condição: ele tinha de mudar de vida.
Tinha de passar a gastar menos.
Não fazia sentido emprestarem-lhe dinheiro para ele continuar a fazer a mesma vida que fizera até aí e que o afogara em dívidas.
O Paulo não teve outro remédio senão aceitar.
Quem não gostou foi a mulher, a quem ele impôs limites drásticos para os gastos em roupa, em calçado, em refeições fora, em extravagâncias e mesmo nalgumas despesas que ela considerava de primeira necessidade.
E o filho também não gostou nada, pois tinha de fazer sacrifícios, tinha de ir menos vezes ao cinema, não podia sair tanto com os amigos ou ir todas as semanas para a noite, nem comprar ténis de marca, nem trocar de Playstation.
Embora o Paulo lhes explicasse a situação, a mulher e o filho viraram-se contra ele.
Responsabilizaram-no por todas as restrições que estavam a sofrer.
Um dia, o Paulo convidou para jantar lá em casa um dos amigos que lhe tinham emprestado dinheiro.
A mulher esteve calada todo o jantar e o filho disse umas piadas sobre uns senhores que o faziam levar uma vida desgraçada.
O pai ficou encavacado – e à saída disse ao amigo para não ligar, pois a mulher e o filho, como não geriam o orçamento familiar, só sabiam que tinham passado a viver pior, e não aceitavam a situação.
O Paulo sente-se hoje entalado entre a espada e a parede: entre os amigos que não o deixam gastar mais e a mulher e o filho que constantemente o massacram.

A situação desta família é o retrato de Portugal.

José António Saraiva

Fonte: Sol

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