Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema Paraíso. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema Paraíso. Mostrar todas as mensagens

sábado, 9 de março de 2013

Cinema Paraíso: Crítica - Gangster Squad (2013)


Realizado por Ruben Fleischer
Com Josh Brolin, Ryan Gosling, Sean Penn, Emma Stone

Os filmes de gangsters têm uma tradição muito forte em Hollywood. Pautados por sedutores elementos de noir e por um classicismo muito próprio, geralmente são filmes que se levam muito a sério e que se destacam pela narrativa sóbria, não entrando em grandes espalhafatos e cultivando um certo glamour nas suas escolhas visuais e auditivas. “Gangster Squad”, porém, corta um pouco com esse classicismo e opta por uma via mais descontraída e divertida, afastando-se do thriller noir e assentando bases na aventura de ação que não deve ser levada muito a sério. Apesar de ser inspirado em factos reais, “Gangster Squad” não aborda os confrontos de Mickey Cohen com as autoridades de uma forma propriamente contida e realista. Quase como se fosse uma história de super-heróis retirada de uma banda-desenhada, diverte-se à fartazana na altura de puxar o gatilho e desenvolve o enredo com um sentimento de diversão sempre apurado, apresentando um vilão que facilmente rivaliza com qualquer antagonista malvado das aventuras aos quadradinhos e um conjunto de heróis que não prima pela discrição dos seus atos. Resultado desta abordagem indiscutivelmente mais leve e surreal? “Gangster Squad” não é mau e entretém quanto baste, mas torna-se inevitavelmente inconsequente e não deixa a marca que devia deixar no espectador mais expectante.


A ação centra-se na Los Angeles de finais dos anos 40. Após uma carreira de pugilista em que ganhou notoriedade pela sua força bruta e ambição sem limites, Mickey Cohen (Sean Penn) instala-se em L.A. e rapidamente se torna o barão do crime, o chefe da máfia que se mantém intocável através de subornos e que controla tudo e todos. Comprada e vencida, a polícia pouco ou nada lhe faz frente, limitando-se a observar enquanto Cohen estende os seus tentáculos corruptos por toda a cidade. O Sargento John O’Mara (Josh Brolin) é um dos poucos que se recusa a prestar-lhe vassalagem, fazendo detenções em locais que outros consideram restritos e distribuindo galhetas pelos grupos de mafiosos a quem as forças de autoridade fazem vista grossa. Ciente de que O’Mara é um dos poucos com quem ainda pode contar, o Chefe Parker (Nick Nolte) ordena-lhe a destruição de Cohen e do seu bando, numa última tentativa de recuperar o coração de Los Angeles das mãos do mafioso. E O’Mara depressa mete mãos à obra, reunindo um grupo de agentes duros e problemáticos que não hesita no momento de declarar guerra ao poderoso barão do crime. Inicia-se então um confronto decisivo pela própria alma de Los Angeles. Mas será que O’Mara e os seus colegas têm o que é preciso para saírem vencedores desse confronto?


“Gangster Squad” e “The Untouchables” têm muitas semelhanças, sobretudo a nível das suas narrativas. Mas ao passo que o clássico de 1987 encarava o confronto de um grupo de agentes destemidos com os capangas de Al Capone de uma forma digna e sisuda, o light gangster movie de Ruben Fleischer aborda a luta com Mickey Cohen como se se tratasse das aventuras do Homem-Aranha, o que não abona a favor da película. Esta análise pode parecer estranha e até inteiramente descabida, já que Josh Brolin não anda propriamente a disparar teias pelas ruas de Los Angeles. Mas se analisarmos a frio a estrutura deste “Gangster Squad”, chegamos à conclusão de que o seu espírito está muito próximo das aventuras recentes de qualquer super-herói. Pois vejamos: o Mickey Cohen de Sean Penn é interessante e fica na retina (sendo até o melhor que o filme tem para oferecer), mas é tão vilanesco que quase se torna surreal, fazendo frente a qualquer mestre do mal dos livros aos quadradinhos; a banda-sonora de Steve Jablonsky também não ajuda, pois é demasiado heroica e espalhafatosa, não possuindo o charme e o glamour que as melodias destes filmes costumam apresentar; e a nível de argumento, o voice-off constante de Josh Brolin faz lembrar os pensamentos privados do Peter Parker de Tobey Maguire, não faltando sequer o monólogo final em que só lhe falta revelar que é o Homem-Aranha. É muito por causa destes fatores que “Gangster Squad” acaba por fracassar. Não é um mau filme, pois acompanha-se com agrado e o divertimento está garantido até ao final. Mas o argumento toma algumas direções dúbias e o próprio Fleischer não consegue fugir a alguns clichés perfeitamente evitáveis. Percebe-se que Fleischer quis fazer algo de diferente com este material, e até certo ponto essa frescura é salutar. Mas talvez a aura de puro divertimento simplesmente não encaixe numa obra destas características.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Cinema Paraíso: Crítica - A Good Day To Die Hard (2013)


Realizado por John Moore
Com Bruce Willis, Jai Courtney, Sebastian Koch, Mary Elizabeth Winstead


Há sagas que deveriam permanecer intocadas até ao fim dos tempos e a saga “Die Hard” é uma delas. Após uma trilogia relativamente bem-sucedida, 2007 acolheu a estreia de um quarto capítulo que já pouco tinha em comum com as películas originais e que, talvez por causa disso mesmo, não causou o impacto esperado no seu público-alvo. E agora, seis anos mais tarde e numa altura em que praticamente ninguém antecipava o regresso do azarado John McClane aos cinemas, eis que John Moore (controverso realizador irlandês de um conjunto de obras que nunca convenceu o público e a crítica) decide retirar o herói improvável da reforma para lhe conceder uma nova aventura repleta de adrenalina. Vou ser o mais franco possível: como filme de ação, este quinto capítulo até passa com distinção nos exames médicos, sendo bastante vistoso e possuindo um ritmo que jamais deixa o espectador passar pelas brasas; todavia, não passa da mediocridade quando é encarado como um todo, muito por causa de um argumento rebuscado, uma relação pai-filho mais que vista e demasiado forçada, e um final verdadeiramente ridículo. Não é, seguramente, o regresso de McClane aos tempos de glória e é uma pena que assim seja.


Desta feita, a ação abandona o território norte-americano e voa até à Rússia, mais propriamente até Moscovo. Jack McClane (Jai Courtney) – o filho do herói que despachou uns quantos terroristas no Nakatomi Plaza, salvou o aeroporto internacional de Washington D.C., limpou o sebo ao irmão de Hans Gruber e fez frente a terroristas informáticos nas horas vagas da sua vida infortunada – é um agente da CIA que está destacado em solo russo para salvar a pele de um prisioneiro político que contém informações confidenciais que podem colocar o governo da nação local em sérios embaraços. Na consumação dos seus deveres, contudo, Jack é capturado pelas autoridades moscovitas e colocado numa cela adjacente à do prisioneiro que deveria proteger. Enquanto estes acontecimentos decorrem na velha Europa, John McClane (Bruce Willis) obtém a informação de que o filho se encontra em apuros e, apesar de estar de relações cortadas com o mesmo, viaja de pronto para Moscovo com o intuito de resgatar o rebento e trazê-lo de volta a casa. Porém, as coisas depressa se complicam e John vê-se uma vez mais obrigado a lidar com criminosos internacionais em pleno período de férias. A novidade é que desta feita não está sozinho, pois tem o filho a seu lado para formar uma parelha que rapidamente coloca as ruas de Moscovo em polvorosa.


O principal defeito deste “A Good Day to Die Hard” reside no facto de não possuir a aura de um filme da saga “Die Hard”. John McClane está lá, debita piadas no seu estilo habitual e até manda cá para fora a famosa frase “Yippee Ki-Yay Mother Fucker!”, mas o sentimento já não é o mesmo das películas que formaram a trilogia original. De facto, a presença de McClane é o único fator que remete os nossos pensamentos para “Die Hard”. Se o protagonista se chamasse John Doe, todos pensariam que estaríamos na presença de um filme de ação sem qualquer ligação ao universo “Die Hard”, mesmo que o tal John Doe fosse interpretado por Bruce Willis. E este é o maior pecado desta obra, pois não basta ter Willis a fazer de McClane e colocar a palavra “Die Hard” no título do filme para se dar vida a uma película digna desse universo. Ironia das ironias, McClane até parece não se enquadrar inteiramente no espírito do filme, afirmando-se quase como um side-kick do filho Jack. O argumento é tão pobre que nem arranja uma desculpa aceitável e minimamente convincente para inserir McClane de modo satisfatório nesta trama de espionagem à moda da guerra fria entre os Estados Unidos da América e a União Soviética. Quiseram fazer algo de diferente e expandir os horizontes da saga, o que até é de aplaudir. Mas a concretização da ideia deixou muito a desejar, esbarrando num produto final medíocre e desfasado do universo que pretende homenagear. Muitas das culpas deste fracasso vão então para John Moore, que não conseguiu encontrar o melhor tom para a relação dura entre os dois McClane (permitindo que esta relação ficasse manchada por lugares-comuns e por um notório sentimento de inverosimilidade) e que transformou a cena final numa chungalheira digna de uma telenovela mexicana. Salvam-se as brutais, ambiciosas e bem coreografadas sequências de ação, que entretêm quanto baste e que livram a película do total descalabro.

Fonte: Portal Cinema

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Cinema Paraíso: Crítica - Lincoln (2012)


Realizado por Steven Spielberg
Com Daniel Day-Lewis, Joseph Gordon-Levitt, Tommy Lee Jones, Sally Field


Um bocado limitado mas satisfatório. É o que posso começar por dizer sobre “Lincoln”, de Steven Spielberg. Baseado no livro “Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln”, de Doris Kearns Goodwin, “Lincoln” retrata os atribulados últimos meses de vida de Abraham Lincoln (1809 – 1865), focando-se especialmente nos eventos políticos que rodearam a apertada votação que Lincoln (Daniel Day-Lewis) propôs na Câmara dos Representantes para aprovar a 13ª Emenda à Constituição Americana, que visava legitimar a ilegalização da escravatura. O espetro narrativo/ histórico deste filme pode parecer redutor, porque na realidade é extremamente redutor, no entanto, convém mencionar que, para além do importante mas agastado tema central, são explorados, de uma forma mais restrita e limitada, outros temas periféricos como o sangrento desfecho da Guerra Civil Norte-Americana (1861 – 1865). No geral, “Lincoln” não convence como produção biográfica/ dramática sobre a vida do 16º Presidente dos Estados Unidos da América, porque não nos permite ficar a conhece-lo melhor ou, pelo menos, ficar com uma impressão mais pessoal da sua personalidade, já que são raros os momentos que puxam pelo seu lado mais íntimo ou até pelo seu polivalente lado politico que, por muito mérito que tenha, tem vindo a ser progressivamente contaminado pelo patriotismo exacerbado e pela visão destorcida de quem o vê como um herói sem falhas e não como um ser humano normal, não muito diferente de uma ampla variedade de políticos da época. A glorificação de Abraham Lincoln já era esperada e confirmou-se, mas não é só por este motivo que este filme defrauda as expetativas.


Já se sabia que “Lincoln” não ia abordar toda a existência de Abraham Lincoln, mas sim os seus últimos meses de vida. Este conceito é de criticar, porque a vida de Lincoln não se resume apenas aos seus momentos finais, mas sim a tudo o que ele viveu e tudo o que ele fez de bom e de mau. Os seus últimos meses foram, provavelmente, uma das suas melhores fases politicas, já que a Guerra Civil estava praticamente terminada e os Rebeldes/ Confederados estavam resignados com a derrota, a esmagadora maioria do povo idolatrava-o e apoiava todas as suas ações politicas, a sua vida familiar estava a passar por uma fase bastante estável, o seu partido apoiava-o quase sem restrições e até os seus rivais políticos não tinham grandes razões de queixa, assim sendo, este seria sempre o melhor momento da sua vida para ser retratado numa longa-metragem, já que acompanha a glorificação máxima da sua praticamente inigualável carreira política. No fundo, "Lincoln" retrata apenas o complicado apogeu da carreira desta importante figura histórica que, após acabar com uma guerra que partiu o seu país em dois e de ter conseguido abolir o flagelo da escravatura, foi assassinado de uma forma brutal e dramática. Esta importante mas diminuta abordagem dramática pode até encher as medidas a alguns espetadores, mas confesso que me parece extremamente incompleta, porque esquece quase por completo o resto da sua vida. Entre as partes biográficas negligenciadas estão os vários erros e falhas que o protagonista cometeu ao longo da vida e que englobam, por exemplo, o conturbado início da sua vida democrática ou a instabilidade da sua dinâmica familiar. Esta última até é timidamente abordada por força de algumas interações entre Lincoln, a sua mulher, Mary Todd Lincoln (Sally Field), e o seu filho mais velho, Robert Todd Lincoln (Joseph Gordon-Levitt), mas estas raramente vão ao cerne da questão e muito raramente dão a entender o que é importante, ou seja, não ilustram as consequências psicológicas e negativas que a loucura da sua mulher ou a morte de um dos seus filhos teve na sua vida. A traumática infância de Lincoln também só é recordada por uma vez durante uma conversa quase secundária, mas pelo menos é lembrada, ao passo que outros momentos importantes da sua vida e carreira são completamente esquecidos. Enfim, “Lincoln” deixa muito a desejar como um produto biográfico e histórico, porque não vai além da imagem patriótica e não explora todos os factos com imparcialidade. Já como uma produção politica, “Lincoln” é um filme muito bom. Todas as questões e jogos políticos que rodearam a polémica votação na Câmara dos Representantes para aprovar a 13ª Emenda à Constituição Americana, são retratadas com minucia, engenho e criatividade. A batalha pessoal e política que Lincoln travou, num curto espaço de tempo, para fazer cumprir o principal ponto da sua agenda política é explorada de uma forma magnífica, conseguido por isso conferir ao público aquela tensão e emoção que pauta os jogos políticos e a prossecução do grande objetivo do protagonista, objetivo esse que neste caso é conseguido quase a qualquer custo e com grande sacrifício. Os ganhos e vitórias de Lincoln são louvados e referenciados mas, neste capítulo, também nos são mostradas as suas derrotas, que englobam sobretudo as falhas catastróficas que pautaram as negociações de paz com os Estados do Sul e que acabaram por prolongar a Guerra Civil por mais três meses. É de aproveitar esta parte para falar um pouco sobre a caraterização psicológica e moral dos vários políticos da altura, uns mais liberais, outros mais conservados e uns extremamente radicais. A variedade é notória e exterioriza o ambiente de liberdade da altura. Os debates na Câmara dos Representantes estão muito bem executados e animam o filme, contrabalançando assim com os momentos mais calmos que envolvem os discursos internos e as histórias cáusticas do interveniente central.


A concluir “Linclon” está um desfecho ridículo, onde o melodrama desnecessário inunda o ecrã. Já todos sabemos como é que termina a história de vida de Abraham Lincoln, mas Steven Spielberg conseguiu a proeza de torná-la ainda mais trágica, pesada e pindérica. O evento fatalista não é diretamente retratado, mas antes fosse. A alusão à morte é feita indiretamente pela menção da notícia fatalista e pela reação direta da pessoa que mais gostava do presidente, sendo esta reação compreensiva mas largamente desnecessária para o objetivo do filme. Este momento dramático é completado por um par de sequências, onde é exibida a prova da morte e um discurso cliché que exprime os grandes ideais do protagonista. O filme termina mal e tem um desenvolvimento mediano. O que se salva então em “Lincoln”? A resposta reside na performance global do seu elenco e na sua componente técnica/ visual. O incrível Daniel Day-Lewis assina mais um trabalho de luxo sem falhas, tal como aqueles que teve em obras tão diversas como “There Will Be Blood” (2007), “In the Name of the Father” (1993) ou “My Left Foot: The Story of Christy Brown” (1989). A sua interpretação de Abraham Lincoln é sublime e merecedora de todos os elogios possíveis. A apoiá-lo está um conjunto de excelentes atores secundários como Joseph Gordon-Levitt, Tommy Lee Jones, Sally Field e David Strathairn. Tommy Lee Jones está perfeito como uma espécie de aliado mascarado de Abraham Lincoln que, ao longo do filme, envolve-se em diálogos muito fortes e alguns até cómicos, que tornam “Lincoln” muito mais apelativo. Sally Field também está muito bem como a única mulher de relevo do filme, mas a sua Mary Todd Lincoln necessitava de mais trabalho por parte da equipa de guionistas, já que esta figura foi muito mais do que aquilo que aparece no ecrã. O que falta a este elenco é um ator ou atriz afro-americano/a num papel de relevo, afinal de contas um filme sobre a questão da escravatura devia dar mais atenção aos afro-americanos e devia ter mais membros desta raça na sua trama. A direção de Steven Spielberg é tecnicamente exímia. Os seus planos podem ser um pouco pesados em certas alturas e, no meu entender, eram precisas mais sequências no exterior que mostrassem um pouco melhor o ambiente que se vivia nas ruas e os confrontos bélicos que se travavam nas zonas de batalha, mas fora isto não tenho grandes críticas a apontar ao trabalho de um dos grandes realizadores da história da sétima arte. A parte visual de “Lincoln” beneficia também dos contributos positivos e significativos dos departamentos de fotografia, direção artística, montagem, caracterização, guarda-roupa e banda sonora. Os ilustres desempenhos da maior parte destes departamentos foi reconhecido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos da América com nomeações aos Óscares, mas não sei até que ponto “Lincoln” pode ser considerado um claro favorito em qualquer uma dessas categorias, porque apesar de ser satisfatório, "Lincoln" não é o grande filme de que estava à espera nem o grande filme que eu queria que fosse.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Cinema Paraíso: Crítica - Django Unchained (2012)

 

Realizado por QuentinTarantino
Com Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington


Quentin Tarantino está, sem dúvida alguma, a passar pela fase mais inspirada da sua carreira. Depois de alguns anos marcados por uma menor produtividade e por obras que não atingiam o consenso crítico e comercial, em 2009 o controverso realizador fez as delícias do grande público com o arrojado e surpreendente “Inglourious Basterds”. E agora brinda-nos com mais uma pérola que decerto ficará para a História da 7ª Arte e que não deixará ninguém indiferente. Após as declarações do não menos controverso Spike Lee (que se mostrou contra o filme por considerar que este desrespeitava a memória dos seus antepassados), muitas vozes enraivecidas apuparam Tarantino sob o pretexto de que ele teria ido longe demais ao transformar a escravatura num espetáculo de entretenimento despudorado. Mas digam os influenciáveis detratores o que disserem, “Django Unchained” é um dos filmes mais espantosos e viscerais dos últimos anos, levando o espectador numa viagem que abrange todos os tipos de emoções e sensações. Até porque, bem vistas as coisas, “Django Unchained” não é muito diferente de “Inglourious Basterds”. Este último era um conto de fadas sobre a vingança do povo judeu nos tempos da segunda grande guerra e esta nova obra é um conto sobre a retaliação dos escravos de tez negra por alturas da guerra civil norte-americana. E se “Inglourious Basterds” foi considerado um dos melhores filmes de Tarantino (talvez até a sua obra-prima), por que carga de água não haveria “Django Unchained” de receber um tratamento similar? Se há coisa que Tarantino faz nesta obra é homenagear a força de espírito do povo afro-americano e retratar o povo sulista caucasiano como uns pategos incultos e abrutalhados. Portanto, esqueçam as palavras infelizes de Spike Lee e deem uma oportunidade a um filme que tão cedo não sairá do vosso pensamento.


No seu papel mais respeitável desde “The Soloist”, Jamie Foxx interpreta a descontraída e musculosa personagem que dá título ao filme: Django Freeman, um escravo considerado problemático que se vê afastado à força da sua esposa Broomhilda (Kerry Washington). A caminho do seu novo destino após ter sido vendido a um novo dono, Django vê-se intercetado pelo Dr. King Schultz (soberbo Christoph Waltz), que o liberta das amarras e lhe confere a liberdade. Schultz trava então uma relação de amizade com Django, deixando-se comover pelo relato dos seus infortúnios e comprometendo-se desde logo a ajudá-lo a encontrar a esposa perdida. Após uma série de tiroteios e episódios caricatos, ambos descobrem finalmente que Broomhilda se encontra na opulenta propriedade de Calvin Candie (não menos soberbo Leonardo DiCaprio), um esclavagista sem escrúpulos que se entretém a ganhar dinheiro com combates até à morte entre escravos e que possui uma alma mais sombria do que se possa imaginar. Django e Schultz viajam então até à Candieland (a propriedade de Candie), com o intuito de libertarem Broomhilda do controlo do pérfido fazendeiro. Mas serão bem-sucedidos na sua perigosa missão?


“Django Unchained” é um espetáculo visual e narrativo que nos prende por completo e nos deixa num estado de êxtase verdadeiramente fenomenal. É difícil dizer se é melhor ou pior que “Inglourious Basterds” ou até mesmo “Pulp Fiction”, até porque não é um filme perfeito. Consegue detetar-se uma ou outra inconsistência narrativa e alguns dos atos dos protagonistas (especialmente de Django) não abonam a favor do realismo, nem da sensatez cinematográfica. Porém, quem conhece o cinema de Tarantino não levará a mal estas pequenas falhas, até porque são elas que tornam a filmografia de Tarantino tão única e especial. Uma coisa é certa: Tarantino respira cultura pop por todos os poros. E isso sobressai (e de que maneira!) nas suas obras, seja sob a forma de golpes de génio que não lembram a ninguém, seja sob a forma de ideias arrojadas que somente resultam nas suas mãos. “Django Unchained” tem um pouco de tudo: comédia, ação, drama, suspense, até um pouco de terror para os mais impressionáveis. E isso faz dele um filme extraordinariamente bem conseguido, que insere o espectador na trama com admirável facilidade e que o leva a entrar numa viagem cinematográfica diferente de todas as que possa ter vivido até então. Tudo é brilhante nesta obra. As sequências de ação são de cortar a respiração, as tiradas cómicas resultam na perfeição e o design de produção é verdadeiramente avassalador.


Mas, como em todos os filmes de Tarantino, a cereja no topo do bolo é mesmo o argumento e a interpretação dos atores. Fica mais uma vez comprovado que Tarantino é um dos melhores argumentistas de todos os tempos, engendrando diálogos e longos monólogos que nos deixam literalmente sem palavras. E graças a uma direção de atores de fazer inveja a muitos que por aí andam, todo o elenco brilha como um cometa no espaço estelar. Curiosamente, o grande protagonista é o que apresenta menor veracidade. Jamie Foxx esforça-se e empresta a Django todo o carisma de que ele necessitava para funcionar, mas fica a sensação de uma personagem incompleta ou algo forçada. Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio e Samuel L. Jackson são aqueles que mais ficam na retina, sendo eles que realmente fazem deste “Django Unchained” uma experiência cinematográfica imperdível. Waltz oferece-nos uma interpretação cheia de detalhes, DiCaprio rebenta com tudo e todos com uma performance deveras perturbadora, e Jackson causa grande impacto com poucos minutos em cena. É absolutamente incompreensível a razão pela qual DiCaprio e Jackson ficaram de fora da corrida aos Óscares, pois seriam certamente dois fortes candidatos à vitória final. Mas nem mesmo o completo desprezo da Academia fará com que as suas atuações caiam no esquecimento, pois são demasiado vibrantes para morrerem de forma tão gratuita. Graças a tudo isto e muito mais, “Django Unchained” é um dos filmes mais formidáveis dos últimos anos, embora não seja para todos os estômagos. Se é fã de Tarantino, o gozo e o espetáculo são garantidos. Se não é… pode acabar por não achar piada ao resultado final, mas pelo menos a experiência será sempre única e inolvidável.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Cinema Paraíso: Crítica - Argo (2012)

 

Realizado por Ben Affleck
Com Ben Affleck, Bryan Cranston, John Goodman, Alan Arkin

Há casos assim. Casos em que somos completamente apanhados de surpresa. Casos em que o impossível acontece e o inacreditável se torna real. Numa altura em que ninguém dava mais de dois tostões por Ben Affleck, o outrora menino bonito de Hollywood apostou na realização. E tal aposta (que muitos encararam com escárnio e com descrença) acabou por se revelar um verdadeiro golpe de génio, pois a sua carreira decadente como que ganhou um novo fôlego. Na sua situação, e face aos constantes ataques da imprensa e das más-línguas, muitos (para não dizer a grande maioria) teriam enveredado por caminhos tortuosos e deitado a perder a oportunidade de uma vida. Basta recordarmos os casos de Lindsay Lohan, Haley Joel Osment ou Mel Gibson para chegarmos à conclusão que a fama e a glória hollywoodescas são efémeras e perigosas. Mas Affleck teve o bom senso de não se meter nos copos ou nas drogas. Farto de aturar insultos muitas vezes despropositados, o ator afastou-se da representação por uns tempos e tirou um tempo de sabática. Depois abraçou o sonho da realização e surpreendeu meio mundo com “Gone Baby Gone”, que depressa se tornou um dos filmes mais aclamados de 2007, tendo mesmo sido nomeado para um Óscar e dezenas de outros prémios internacionais. A estrela estava ressurgida. O Golden Boy estava de volta, mais forte e maduro do que nunca. E se “The Town” veio comprovar que a competência demonstrada em “Gone Baby Gone” não tinha sido acidental, este “Argo” vem confirmar Affleck como um dos cineastas mais talentosos da atualidade. Os tempos de aprendiz terminaram finalmente. Affleck está agora um senhor realizador.


A história deste filme parece uma coisa retirada da cartola de um escritor que trabalha unicamente sob o efeito de ópio. Fazer um grupo de pessoas passar por uma equipa de filmagens canadiana para atingir o objetivo de escapar a um Irão em pleno estado de revolta? Parece uma coisa verdadeiramente absurda. Mas o que é espantoso é que se trata de uma história real. Real e confidencial. Tão confidencial que só nos anos 90 foi revelada ao grande público, por ordem do então presidente dos Estados Unidos da América, Bill Clinton. Para nos contextualizarmos na história de “Argo”, temos de viajar até aos anos 70/80 do século passado. Nessa altura, o presidente dos Estados Unidos concedeu asilo político a um ditador do regime iraniano que foi tudo menos bondoso para com o seu povo. Como seria de esperar numa situação deste tipo, o povo iraniano revoltou-se em massa contra os Estados Unidos, atacando a embaixada norte-americana em Teerão e fazendo reféns todos os trabalhadores da embaixada. Bom… todos não. Porque seis conseguiram escapar pela porta das traseiras. E ao darem conta disto, os iranianos percorreram as ruas como doidos raivosos em busca destes seis desaparecidos, para com eles ajustarem contas. Não podendo ficar de braços cruzados, o governo americano decidiu então engendrar uma missão de resgate com os contornos absurdos que referimos anteriormente. Foi aqui que Tony Mendez (Ben Affleck), John Chambers (John Goodman) e Lester Siegel (Alan Arkin) entraram em cena. Mas o que eles fizeram ao certo não iremos aqui revelar. Pois o resto é mesmo ver para crer.


Depois de “Gone Baby Gone” e “The Town”, muitos acharam que Affleck era realizador para filmes sobre a criminalidade de Boston e nada mais. Um daqueles cineastas que só se sente confortável na sua praia, num género cinematográfico muito particular, espalhando-se ao comprido ao experimentar outras andanças. Mais alfinetadas das más-línguas, portanto, que teimavam em desconfiar do talento do ator/realizador. Mas ao seu bom estilo sereno e tranquilo, Affleck usa “Argo” para dar uma chapada de luva branca aos seus detratores, já que a ação deste novo projeto não podia estar mais distanciada de Boston. E a verdade é que a qualidade continua à vista de todos, mesmo com a mudança subtil de género cinematográfico. De facto, “Argo” é um produto cinemático de enorme maturidade (artística e cultural). Uma narrativa com aspetos tão bizarros como esta corria o risco de se tornar vulgar ou partidária. Nas mãos de um realizador vulgar, “Argo” poderia ter-se transformado numa comédia em que os iranianos são retratados como demónios que se babam e os americanos caracterizados como suprassumos que até com o pior plano do mundo se safam do inferno. Mas Affleck não permite que isto aconteça, inserindo subtis momentos cómicos na altura apropriada e filmando os restantes eventos com o respeito e a seriedade que eles mereciam. Os iranianos são, até certo ponto, retratados como os maus da fita. Mas os americanos e os governos do mundo ocidental também não se livram das críticas mordazes que tão bem lhes assentam. É difícil de acreditar que Affleck tem apenas 40 anos de idade, pois esta obra tem todo o ar de ter sido filmada por alguém com uma experiência de vida enorme e uma colossal sensibilidade emocional que só se adquire com o passar dos tempos. A tensão dos eventos retratados é de tal forma asfixiante que o espectador quase começa a suar na cadeira. E o equilíbrio entre comédia, thriller de espionagem e drama de estilhaçar corações é tão portentoso que “Argo” só pode mesmo transformar-se num clássico. Senhor Affleck, por nós, pode continuar a dedicar-se à realização. Pois, para nós, o senhor é já o incontornável sucessor desse monstro do cinema que é Clint Eastwood.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Cinema Paraíso: Crítica - Zero Dark Thirty (2012)


Realizado por Kathryn Bigelow
Com Jessica Chastain, Joel Edgerton, Mark Strong

Se não soubéssemos melhor, quase poderíamos encarar este “Zero Dark Thirty” como uma sequela do oscarizado “The Hurt Locker”. Os dois filmes abordam conflitos diferentes, é certo. Mas é como se fossem duas faces da mesma moeda, já que o contexto histórico é o mesmo e Kathryn Bigelow filma a captura de Osama bin Laden com a crueza e o sentido de realismo que tantos louvores trouxeram a “The Hurt Locker”. Claro que, no entanto, há diferenças assinaláveis entre ambos. O filme de 2008 afirmava-se como um ensaio sobre a dependência que a guerra pode causar no espírito humano e possuía uma palete de cores quentes e aguerridas, com os amarelos e os laranjas da fotografia de Barry Ackroyd a inserirem-nos por completo nas terras áridas do Iraque. “Zero Dark Thirty”, por outro lado, é mais negro que carvão e assume-se como um estudo sobre a obsessão e a futilidade da guerra. As personagens de Jessica Chastain e de Jeremy Renner partilham alguns atributos nucleares, como a ausência de vida pessoal e a dedicação excessiva a um trabalho deveras invulgar. Porém, Chastain vence esse duelo particular, já que a sua personagem atinge níveis de profundidade bem mais elevados, desabrochando ultimamente como uma protagonista mais interessante e de leitura mais espinhosa. “Zero Dark Thirty” emerge assim como um filme mais completo e consistente do que “The Hurt Locker”, merecendo por inteiro as 5 nomeações para os Óscares deste ano. No entanto, curiosamente, Bigelow foi deixada de fora quando mais justificava a nomeação e o filme dificilmente sairá vencedor da cerimónia de 24 de fevereiro, apesar de se afirmar como um dos melhores até ao momento.


Desta feita, Bigelow leva-nos a acompanhar a longa caminhada de uma agente da CIA até à noite em que finalmente captura o inimigo número um da América. A película começa com a recordação dos arrepiantes eventos que marcaram o dia 11 de setembro de 2001, no sentido de contextualizar a caça ao homem que ocupa as duas horas e meia de filme. Depois disso, Maya (Jessica Chastain num registo nunca antes visto) entra em cena e não mais abandona o espectador. Apesar de ser ainda muito jovem e de possuir uma aparência frágil, Maya demonstra talentos invulgares no trabalho desenvolvido em Washington e, como prémio envenenado, vê-se prontamente destacada para o cerne da ação, onde depressa integra a equipa de investigação que trabalha em território inimigo com o intuito de descobrir o paradeiro do líder da Al-Qaeda e seus principais aliados. Os primeiros tempos revelam-se difíceis e nenhuma pista parece levar a mais e melhores informações. Contudo, numa altura em que muitos já nem pensavam em bin Laden por o considerarem um alvo inatingível, Maya tem uma epifania e descobre uma residência no Paquistão que poderá ocultar o mais precioso dos tesouros. Uma equipa de militares bem treinados forma-se então nas barbas do inimigo… e o resto é História.


“Zero Dark Thirty” assume-se claramente como um triunfo técnico e artístico. Tal como “The Hurt Locker”, é um filme pesado e de visionamento difícil, podendo não agradar a todos os públicos. Mas ao contrário de “The Hurt Locker”, nunca se torna excessivamente moroso, nunca perde o propósito de vista, nunca se torna inverosímil e nunca deixa de manter o espectador colado ao assento. É talvez o filme de guerra moderna mais bem concebido desde “Saving Private Ryan”, embora não possua sequências de batalha extraordinárias e rios de sangue a salpicarem a câmara. O realismo impera por completo do início até ao fim e as personagens jamais se tornam gratuitas ou desmioladas, dando a impressão de se estar a visionar um documentário corajoso. Bigelow põe a nu todos os seus dotes de cineasta, demonstrando sentir-se mais do que à vontade neste tipo de cenários e narrativas bélicas. A sequência final do assalto à fortaleza de Bin Laden é de um realismo excecional, usando o negrume do ambiente em redor para dar vida a uma das cenas mais tensas de 2012. Para além disso, Bigelow não hesita no momento de espetar a faca na própria América, afastando-se do moralismo barato e do patriotismo imbecil para expor os procedimentos reais de uma nação que consegue ser tão bárbara como qualquer outra em tempos de guerra fria. Talvez por isso tenha ficado de fora da corrida ao Óscar de Melhor Realizador e talvez por isso o filme esteja a ser alvo de alguns ataques ferozes por parte do público norte-americano. Mas a realidade é mesmo esta e é apenas de louvar o facto de ainda haver quem tenha a coragem de mostrar as coisas como elas são, em vez de se limitar a atirar poeira para os olhos das mentes impressionáveis.

Aliando o primor técnico a uma sensibilidade fora do comum, Bigelow filma também a sua protagonista de uma maneira que a deixa completamente vulnerável (no bom sentido), dando o papel de uma vida a Jessica Chastain e oferecendo ao grande público uma das melhores personagens do ano transato. Uma personagem que tanto consegue ser frágil como implacável. Uma personagem que tanto dá um murro na mesa quando o tempo urge como solta uma lágrima de perdição no momento mais inesperado de todos. Chastain será, porventura, a grande rival de Emmanuelle Riva na noite de 24 de fevereiro, embora a estatueta dourada não deva escapar à francesa octogenária. Resumido em poucas palavras, “Zero Dark Thirty” desponta então como um filme de visionamento obrigatório para quem desejar conhecer um pouco melhor o mundo em que vive atualmente, despindo-se de preconceitos e de patriotismos obtusos para ensaiar um estudo sobre a obsessão levada ao extremo e suas naturais consequências.

Partilha