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quinta-feira, 12 de abril de 2018

Há crianças portuguesas a navegarem online sozinhas desde os 8 anos!!!!!


Em França fala-se nos 15 anos como idade mínima para deixar de ser necessária a autorização dos pais para criar perfil no Instagram, no Snapchat ou no Facebook. E em Portugal?

Da teoria à prática a distância é normalmente grande e tal parece aplicar-se às regras de utilização de redes sociais como o Instagram, o Snapchat ou o Facebook. O funcionamento destes serviços estabelece os 13 anos como idade mínima para criar perfil, mas há quem comece a navegar sozinho muito antes, alerta a psicóloga Ivone Patrão.

“O acesso às redes sociais sempre foi barrado a menores. Geralmente fazem uma permissão a partir dos 13 anos, mas o que se observa é que isto não é respeitado. Falo todos os dias com jovens e pais e sei bem isso”, referiu em declarações ao SAPO TEK.

A autora do livro #GeraçãoCordão acrescenta que nos estudos que tem desenvolvido, a média de idades de acesso à internet sem supervisão parental é de oito anos. “A partir daqui está tudo dito”.

O novo Regulamento Geral de Proteção de Dados vai trazer força legal a estas regras que não têm sido respeitadas. O diploma que os Estados-membros terão de adotar até 25 de maio próximo define que “só os menores com idade igual ou superior a 16 anos podem dar consentimento válido para o tratamento de dados pessoais relacionados com a oferta direta de serviços da sociedade de informação, tais como serviços online”. Prevê, no entanto, que os países da União Europeia estabeleçam uma idade inferior para esse consentimento, “desde que seja salvaguardado o limite mínimo de 13 anos”.

França já fez a sua proposta nesse sentido. A Assembleia Nacional daquele país fixou nos 15 anos a idade mínima para um cidadão francês criar sozinho um perfil numa rede social. Entre os 13 e os 15 anos tal será possível com o consentimento de cada um dos progenitores ou responsáveis legais e abaixo dos 13 fica proibido.

Algo idêntico poderia ser seguido em Portugal, na opinião de Ivone Patrão. A psicóloga considera que, nas idades mencionadas, “já se adquiriu maior maturidade cognitiva e emocional, para exercer algum autocontrolo face ao que pode surgir online”.

Acrescenta que “é importante que se legisle”, e além disso também é importante “o legislador conhecer os dados da realidade e perceber que temos muitas crianças e jovens em risco, pela ausência da supervisão de um adulto, quando contactam com o mundo online”.

Em Portugal, o RGPD já esteve em consulta pública, não sendo conhecida ainda uma proposta final própria no que diz respeito às idades escolhidas.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Para que serve brincar?


Receio que o brincar se associe, invariavelmente, às crianças como se fosse pouco mais do que uma tradição. As crianças sempre brincaram, não é? Logo, porque é que não havia de ser assim?... Como se não bastasse, quando comparado com o trabalho, o brincar parece ser sempre colocado em segundo lugar, como se, para os pais, primeiro devesse estar o trabalho e, só depois, o brincar. E, pior, como se o trabalho fosse útil e o brincar servisse, unicamente, para "arejar" a cabeça. Para distrair, portanto. Como se não fosse possível dar a mesma importância ao brincar e ao trabalho. Como se trabalhar nunca fosse divertido. E como se fosse impossível, mais tarde, as crianças (já adultas, portanto) serem pagas para "brincar", o que só acontece quando uma pessoa desbravou um longo caminho e conseguiu fazer com que o seu trabalho tivesse "a sua cara", representando a síntese de todas as suas áreas de interesse de uma forma simples e singular.

Porque é que eu penso que os pais são tão pouco atentos à função do brincar? Em primeiro lugar, porque talvez tenham brincado de menos e não tenham tido uma infância tão risonha e tão feliz como dão a entender. Por outras palavras: os pais foram muito menos crianças do que desejariam ter sido. Ou tiveram infâncias mais infelizes do que gostavam de ter tido! Depois, porque por melhores pessoas que sejam, foram-se deixando "atropelar" de tal forma por uma vida pessoal, amorosa e laboral, na qual, em muitos momentos, não se reconhecem, e onde brincar parece ser tudo aquilo que menos conseguem fazer. E, ainda, porque se inibem de fazer as escolhas que todos os pais têm de fazer, em função do que entendem sensato para o crescimento dos seus filhos. Um pouco por tudo isso, os pais vão lidando com o brincar como se não fosse tão sério como, de facto, ele é. Como se, afinal, os pais não conseguissem criar um mundo para os filhos diferente daqueles que construíram, hoje, para si próprios. Que concilie o melhor da sua infância e o que ela deve ter de mais saudável para que as crianças cresçam melhor.

Para que serve brincar? Brincar serve para aprender! Serve para conhecer! Serve para experimentar! Serve para pôr problemas e para os resolver. Serve para ligar corpo, cabeça e alma num só gesto. Serve para pôr afeto, movimento e paixão onde só existia razão. Serve para lapidar a agressividade, e aprender a rivalizar, a competir e a suplantar, sendo-se agressivo com lealdade, dentro das regras e "com maneiras". Serve para ir ao encontro do outro - do estranho - e interpelá-lo, ganhando terreno ao desconhecido. Serve para colocar imaginação e fantasia e compreender. Serve para descobrir! Serve para espantar e para aventurar. Serve para conviver com o erro, com o insucesso e com a precipitação, e para robustecer a tolerância à frustração com que se liga paixão e garra com paciência, com humildade, com determinação e com perseverança. Serve para pro-criar e re-criar. Serve para se fazerem sínteses, em tempo real, e interpretar a realidade, agindo sobre ela de forma afoita e empreendedora e, por vezes, cooperativa. Serve para nos ligarmos uns aos outros e para criarmos laços onde, dantes, existiria indiferença ou desconfiança. Brincar serve para aprender a pensar! Serve, com o auxílio da pluralidade de todos os desafios que o brincar nos traz, para construir uma identidade, aberta e singular, que nos faça reconhecer e nos torne reconhecidos. E serve para "costurar" a autonomia. Brincar ensina a liberdade. Constrói-se na igualdade e conquista a fraternidade. Brincar ensina a simplicidade e a honestidade. Brincar serve para ligar a tristeza e o riso e descobrir que sempre que uma criança brinca "o mundo pula e avança". Em resumo, o mundo mudaria sem revoluções se, para tanto, acarinhássemos o brincar.

Por tudo isto, brincar é mais importante para o aprender do que talvez o aprender para o brincar. Daí que eu gostava que ficasse claro que esta clivagem "trabalhos de casa" versus "brincar" é batoteira. Como se os amigos do brincar fossem contra os trabalhos de casa e vice-versa. E isso não é verdade. Só que as crianças já trabalham demais. Comparativamente, trabalham muito mais do que os pais!! Em termos relativos e em termos absolutos. E, num contexto como este, ter trabalhos de casa, em versões XXL, que repetem, repetem, repetem - como se se mecanizar fosse pensar - é absurdo. Não será mais engraçado ir à procura de uma linha reta no caminho da escola para casa? Ou explicar, ao sair-se da escola, porque é que os Pokémon são tão verdade como D. Afonso Henriques, compreendendo para que é que um e outros servem? Não é mais importante descobrir para que é que serve, fora da escola, tudo aquilo que se aprende nela? Os amigos do brincar não são contra os trabalhos de casa! Que fique isso claro. Só que devia ser proibido, a todos nós, levar trabalho para casa. Porque isso ou significa que a nossa família não é importante, o suficiente, quando comparada com ele; ou que o trabalho serve para nos escondermos de tudo aquilo que não somos capazes de dizer. Aliás, o brincar é tão importante para o aprender que enquanto o aprender não se tornar amigo do entusiasmo não é aprender. O brincar é tão importante para o aprender que o primeiro entre todos os trabalhos de casa (ou o primeiro de todos os "deveres", como se diz) devia ser... brincar!

Mas brincar parece ser supérfluo para a escola. O espaço físico do recreio não é amigo do brincar, porque a escola continua a imaginar que brincar é uma atividade de primavera/verão. O tempo de recreio (5 minutos ou 10 minutos são coisa que se admita?) não é amigo do brincar. E castigar uma criança, não a deixando ir ao recreio, quando um professor acha que ela se porta mal, é confundir o recreio com a sobremesa que se está proibido de saborear quando se é "pisco" a comer a sopa (quando o recreio é "proteína" indispensável, tão importante como outro compromisso qualquer). E depois, (desculpem mas, um dia destes, a identidade de género quase parece uma discriminação sexual com que a Natureza nos onerou), não se esqueçam que os rapazes e as raparigas não têm bem um mesmo brincar. E que a escola e os pais parecem querer que todos brinquem da mesma maneira, o que começa a ser uma espécie de discriminação para o brincar dos rapazes.

Brincar é, pois, uma Torre de Babel. A linguagem de todas as linguagens. Anterior à música e à palavra! Crianças que não brincam tornam-se adultos que se acanham, que se encolhem, que se acobardam. Tornam-se pessoas resignadas. Pessoas que acham a ironia uma atrapalhação. Que não arriscam e que não lutam por um sonho. Tornam-se pessoas que confundem sobreviver com conviver. Adultos que falam mais para dentro do que para fora. Que confundem o sisudo com o sério. Que são insatisfeitos e arrependidos em vez de serem pessoas desassossegadas, com fé, mas em paz. Crianças que não brincam tornam-se, finalmente, adultos vaidosos, que sendo melhores do que calculam, valem muito aquém daquilo que supõem.

Ora, brincar é tão precioso e é tão indispensável que funciona como "A vitamina" do crescimento! É, pelo menos, tão importante como a escola! Mas brincar serve, também, para criarmos nas crianças uma alternativa saudável a um mundo de tecnocratas "sem mundo" e sem "escola de vida" que parecem querer fazer das crianças "produtos normalizados". Brincar é, pois, o exercício do direito à indignação e à insubmissão. E é, de entre tudo o que há de mais imaterial, o mais sublime património da Humanidade.

Então, este empenhamento exagerado em criar adultos brilhantes é improdutivo. Não são, regra geral, as crianças que tiram sempre melhores notas na escola que se transformam em adultos brilhantes! Treinar crianças para serem adultos brilhantes é submetê-las a uma "ideologia" onde a vaidade, no imediato, parece dominar sobre todas as coisas. E seria bom que os pais não perdessem de vista quem foram os adultos que se distinguiram entre os colegas da sua escola: aqueles que tiravam apenas boas notas nos testes ou aqueles que, por ensaio e erro, foram definindo um percurso singular, "com assinatura", por mais que oscilassem, por vezes, no seu rendimento escolar?

Os pais não podem nunca deixar a verdadeira "entidade reguladora" da vida dos filhos. Que tem de ser amiga do brincar! Ou seja, é bom que os pais entendam que a escola tem caminhado para uma espécie de "linha de montagem" de jovens tecnocratas de fraldas para que, depois, passem a ser jovens tecnocratas de mochila. E, de preferência, que se tornem "ídolos" antes dos 30 anos. Um crescimento assim é mentiroso. Porque, sejam quais forem os métodos com que cresça, não consta que quem, em aparência, cresça primeiro acabe crescendo melhor.

A mim, parece-me que os pais vão cedendo demasiado diante desta ideia de educação que representa uma tendência um bocadinho "selvagem" de capitalismo estendida à escola! Uma ideia que, ao mesmo tempo, parece querer coletivizar o crescimento das crianças. Que é populista e individualista. Vaidosa, amiga das desigualdades sociais e que - quando confunde a hostilidade com que se falam "verdades" com a delicadeza com que se é honesto, transparente e verdadeiro; ou quando acarinha "primeiro o eu" enquanto despreza a consideração e a estima - é amiga da mais acabada má-educação. Diante dela, os pais têm o dever da insubordinação. Definindo escolhas, claro. Mas percebendo que se a escola representa a verdadeira revolução tranquila do século XXI, está nas mãos deles não permitir que as crianças trabalhem com parcimónia e com maneiras. É da sua responsabilidade reconhecerem que as crianças precisam de brincar, pelo menos, duas horas, todos os dias. E que os tempos de família - a conversa sem agenda, o jantar sem televisão e sem telemóveis, o direito ao mimo e ao colo, e a forma como se trocam histórias e, com elas, pais e filhos se conhecem melhor, todos os dias - são insubstituíveis. Amar - é bom que isso nunca se perca de vista - é de tudo o que há de mais precioso e mais difícil. Aquilo que exige mais tempo e gestos mais claros e delicados. Enquanto mais escola e mais trabalho representar menos família e menos brincar, os pais estão a distanciar-se do amor, estão a distanciar-se dos filhos e, com isso, a distanciá-los do futuro. Porque, afinal, uma criança que brinca tem "a vista na ponta dos dedos". Tem "língua de perguntador". É aventureira e é sensata. Não se cansa de perguntar: "porquê?". E não precisa de ser "A melhor do mundo" porque lhe basta ser "a melhor do mundo para alguém". Assim ela brinque primeiro e trabalhe depois!

Eduardo Sá in Leya Educação

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

"Quem defende que as crianças têm de trabalhar mais, depois de um dia inteiro na escola, esqueceu-se do que é ser criança"


Saltou para a ribalta ao ser considerado um dos 50 melhores do mundo pelo Global Teacher Prize, uma espécie de prémio Nobel da Educação. Aos 45 anos, o espanhol Cesar Bona quer avisar o mundo que ser professor é um privilégio. Afinal, se uma pessoa tiver paixão pelo que faz, mais facilmente imprime esse gosto nos outros.

Em Portugal para promover o seu mais recente livro A Nova Educação, este maestro, que em castelhano designa o professor dos primeiros anos de escolaridade, assume que, além de ensinar, a escola também existe para educar os adultos de amanhã, para os estimular a querer viver num mundo melhor.

"O importante é promover a cooperação, educar por empatia", salienta. Oriundo de uma pequena aldeia perto de Zaragoza, filho de um carpinteiro e de uma dona de casa, o professor que sabe de onde vem, e para onde vai, diz que foi o destino que o pôs neste papel: "Quando era mais novo queria ser futebolista."

Porque diz que ser professor é um privilégio?

Todos os dias são um desafio e também uma grande responsabilidade. É um privilégio porque podemos convidar as crianças a olhar para o mundo à sua volta e a tentar melhorá-lo. Para mim, ser professor não é só abrir um recipiente e enchê-lo de conhecimento. É a possibilidade de estimular a ser melhor e a querer mudar o que o rodeia. É também uma grande responsabilidade porque essa marca fica para sempre sobretudo quando se é o professor referência, o primeiro contacto com a escola e a aprendizagem. E se aqueles alunos se vão lembrar de mim para toda a vida, quero que seja uma lembrança positiva.

É o mesmo lema do Homem-Aranha: "Com um grande poder vem uma grande responsabilidade."

É por aí, exatamente. O professor tem esse poder imenso nas mãos: imprimir a melhor mensagem possível em milhares de crianças que lhe passam pela frente.

O que valoriza mais na sala de aula: que aprendam, que fiquem curiosos e queiram saber mais, que sejam pessoas bem formadas?


Há de facto muita coisa que hoje recai sobre a escola. Mas o desafio é esse: ensinar-lhes o que precisam, estimular-lhes a curiosidade para gostarem de aprender e irem à procura de mais conhecimentos, e ainda formar boas pessoas, gente que trate bem os outros, que respeite o meio ambiente, que tenha responsabilidade social.

Ter paixão pelo que faz é meio caminho andado?

Paixão e esperança. Se convives com quem está cheio de esperança na sua essência, porque as crianças são os adultos de amanhã, são ambas imprescindíveis. À mistura com a curiosidade e a criatividade, as possibilidades que se apresentam a um professor para provocar alterações nas vidas dos seus alunos são imensas. Temos de ensinar muitas coisas, mas temos de ser um abre-portas, para que todos tirem a curiosidade da caixinha e a ponham ao seu serviço, para que seja o motor do seu dia a dia. Uma criança que gosta de aprender vai fazê-lo a vida toda. Estimulando a curiosidade das crianças, alimenta-se ainda a criatividade, muito importante para resolver problemas e encontrar caminhos novos quando já ninguém sabe o que fazer. Porque lhes permite ver as coisas de outra maneira.

Parece então que subestimamos constantemente as crianças...


Sim, em todos os sentidos. Eles têm imensas coisas que podem partilhar connosco e não valorizamos. A nível social, isso também acontece. Faz falta perguntar às crianças como mudavam um parque, que alterações gostariam de ver no bairro onde vivem, o que gostariam que acontecesse para melhorar a vida dos outros. Quando uma pessoa arrisca fazê-lo, os resultados são sempre surpreendentes.

Regra número um: nunca esquecer a criança que há em nós. É isso?

Nunca. Nas crianças está toda essa maleabilidade, esse olhar sem preconceito, sem ideias feitas. Isso permite compreendê-las melhor e ajudá-las no seu percurso. Ao colocarmo-nos ao seu nível, olhos nos olhos, tudo fica mais fácil.

No livro A Nova Educação, alinham-se ideias como "Não faço nada de extraordinário, apenas me divirto na sala de aula" ou ainda "Sou professor mas não sei tudo. Vocês também podem ensinar-me". Como é que se faz isso ?

Quando me divirto, desfruto. E isso é muito importante porque à minha frente estão pessoas que, durante toda a infância e adolescência, não podem mudar de vida, como um adulto faria. Estão ali e têm de ali estar, na escola, na sala de aula, diante do professor. Daí a grande responsabilidade: conseguir que tenham ganas de voltar no dia seguinte. Todos os dias, aqueles miúdos são obrigados a estar sentados durante seis horas, apenas a escutar e a repetir, e isso é aborrecido para qualquer um. Para um adulto também, não?

Imagino que o desafio seja maior por vivermos numa zona do globo mais envelhecida e onde as crianças são cada vez mais raras e crescem superprotegidas...
É importante não cair nesse equívoco: nem sempre tudo corre bem e é importante ensiná-las a lidar com a frustração. É assim que se estimula a resiliência na circunstância em que você é diferente de mim, e temos todos de aprender a respeitar essas diferenças.

Como se educa para a cooperação e não para a competitividade se vivemos num mundo cada vez mais competitivo?

Daí a sua premência. Porque uma das maravilhas da escola é que ela pode mudar a sociedade. Se acreditamos que é a chave para mudar o mundo, então temos de educar para a cooperação. A escola é o lugar ideal para promover o que queremos para o mundo em que vivemos.
Muitas famílias mudam os seus hábitos e a suas rotinas por força das aprendizagens que os filhos trazem da escola: alteram o que compram, passam a fazer reciclagem... Imagine--se isso replicado por milhares de casas, em todo o mundo. É um poder extraordinário à nossa disposição.

A crise perturba esse processo? A escassez torna-nos mais competitivos?

Depende. Temos vivido em crise nos últimos anos, mas isso não nos tornou menos sensíveis, por exemplo, à questão dos refugiados. As crianças, e as escolas, têm promovido os valores da solidariedade com quem tem menos insistindo que juntos somos todos mais fortes. Claro que tanto podemos instigar uma criança a ter uma nota melhor do que a do companheiro como podemos estimulá-la a ajudar o outro para os dois terem notas melhores. Depende do que queremos.

E os pais, preocupados com o sucesso do seu filho, não perturbam esse processo?

Às vezes penso que temos de nos reeducar todos. Claro que cada pai quer o melhor para o seu filho. Mas às vezes o melhor para um filho é dar um passo atrás para ajudar o colega do lado e depois seguirem os dois em frente. Melhoramos a sociedade sempre que ajudamos um companheiro. E é uma maneira maravilhosa de aprender: aquele que ajuda o outro sente-se depois tão bem, tão orgulhoso, que nunca mais esquece o que se tratou ali. É disso que se trata: somos seres sociais, não podemos continuar a ensinar como se fossemos indivíduos que vivem isolados.

Ainda ouvimos muitas vezes que a escola ensina, a casa é que educa. O que pensa sobre isto?

Temos de apagar isso do discurso da educação. A casa e a escola são parceiros num projeto educativo. Há um ditado africano que diz que é preciso toda uma aldeia para educar uma criança e a escola é o melhor lugar para ajudar os pais a educarem os seus filhos. A aula funciona como uma espécie de micro sociedade. Se queremos mudar a sociedade, então devemos promover também essas alterações na sala de aula.

Recentemente, cresceram as críticas a uma instituição que está igual ao que era há 150 anos. Porque é que a Escola resiste tanto à mudança?


É uma forma de nos sentirmos mais tranquilos. Queremos educar os nossos filhos como fomos educados, esquecendo todas as transformações que o mundo conheceu. Há ainda um outro fenómeno: aplaudimos os exemplos de fora, mas não aceitamos mudanças cá dentro: por exemplo, a escola finlandesa anunciou que acabou com as paredes e todos aplaudem. Se eu, aqui, quiser derrubar um muro que seja, já me acusam de estar a querer fazer uma revolução. As escolas estão organizadas como fábricas, como locais de trabalho. Penso que quem desenha escolas devia saber tanto de arquitetura como de crianças. O meu objetivo é que, ao fim do dia, quando vão para casa, todos reflitam sobre o que aprenderam e como vão utilizar essa aprendizagem.

E tem sempre autonomia para fazer isso?

Nem sempre e não é fácil. Mas os professores têm estado muito à defesa. Optam demasiadas vezes por fechar a porta da sala, proclamando que a aula é deles e portanto fazem como querem. Defendo o contrário: deixar a porta aberta. Prefiro sempre partilhar o que faço. É neste processo que descobrimos que não somos ilhas e não estamos sozinhos na difícil tarefa de educar os outros.

Polémicas de Portugal que se repetem em Espanha. Como vê a questão dos TPC?

Quem defende que as crianças têm de trabalhar mais, depois de um dia inteiro na escola, esqueceu-se do que é ser criança e como, quando era mais pequeno, gostava de aprender mas também de estar com a família e de brincar. Eu gostava de ir ao parque e ao rio. Hoje, há milhares de crianças a fazer deveres horas a fio, depois da escola, até à hora do jantar. E não têm culpa que os currículos escolares sejam tão compridos. Todos os dias, segunda, terça, quarta, quinta, sexta. Quem é que, depois disto, tem vontade voltar de ir para a escola no dia seguinte e aprender? Os TPC são uma prática ultrapassada.

Mas esteve contra a greve aos TPC, que os pais promoveram em Espanha?

Sim, porque uma greve implica estar contra alguma coisa. No caso, opõe pais a professores, e eu acredito que esse caminho deve fazer-se antes pelo diálogo. Devemos pensar como chegar a um acordo, tendo em conta que no centro está a criança e temos de pensar é no que é melhor para ela. Sabemos que a força dos TPC e da obsessão dos resultados escolares assenta também no impacto que têm na elaboração de rankings de escolas... Vemos o que está a acontecer com o PISA: Parece uma competição desportiva. Ah, Espanha ficou em quinto lugar, ah, Portugal está à frente. E o quê? O que quer isso dizer? Qual o impacto disso? E tem muita importância para quem? Para os governos. Sei que Portugal melhorou mas Espanha está na mesma, em 15 anos a avaliar as competências matemáticas, científicas e domínio da língua materna. Então e a respeitarnos uns aos outros? E a ter consciência ambiental? E ser tolerante com o diferente?

E é possível manter essa aposta numa educação diferente mesmo com as piores turmas?

Sobretudo bom, e não dividiria as turmas em piores ou melhores. Há turmas menos fáceis, geralmente constituídas por crianças que têm milhares de razões para estarem tão descontentes, tão revoltadas. Primeiro, temos de tentar saber o que passam, nas horas em que não estão ali, e temos de ver isso como um investimento. Para lhes ganhar a confiança, o respeito e depois arrancar a alta velocidade para as outras aprendizagens.

Soa a provocação...

E é, um bocadinho. Mas a verdade é que todos temos algo para oferecer. Se nos focarmos no mal, só vemos o mal. Se desviarmos a atenção para o bom, então esse valor vem ao de cima. Estimula a sua autoestima e isso pode fazer maravilhas no futuro.


Fonte: Visão

quarta-feira, 29 de junho de 2016

A informática... do Prof-Folio - Project Bloks: A Google quer ensinar as crianças a programar!



Trago hoje um projeto muito interessante, que à semelhança de outros já existentes, poderão ser uma mais-valia no desenvolvimento da consciência lógico-matemática dos nossos alunos. Pela simplicidade, poderá ser executado perfeitamente no primeiro ciclo.

A vertente educacional da Google sempre foi muito elevada. Para além de fornecer às escolas aplicações e serviços a custo zero, dedica-se muitas vezes a tentar criar as bases para os inventores e programadores do futuro.

Na continuação de todos os seus esforços, a Google apresentou agora o Project Bloks, uma plataforma direccionada para crianças com o objectivo de as ensinar a programar.


O Project Bloks assenta numa plataforma muito simples e que permite a qualquer criança começar a dar os primeiros passos no mundo da programação, podendo desde o início interagir com hardware, que ele próprio pode interagir com outros elementos.

A ideia da Google foi criar uma plataforma que permitisse criar comandos que são transmitidos e que permitem materializar toda a programação que pode ser feita, dando aos mais pequenos uma forma de verem as suas criações a agir.

Para dar esta capacidade ao Project Bloks foram criados 3 módulos distintos e que conseguem “conversar” entre si. O primeiro desses elementos é o Brain Board, que é o cérebro de todos estes elementos e onde está concentrado todo o processamento. Assente num Raspberry Pi Zero, consegue controlar e dar energia a todos os restantes elementos. É também por este que o Brain Board comunica com outros dispositivos, quer por Wi-Fi quer por Bluetooth.


O segundo elemento desta cadeia é a Base Board. Podem ser interligadas várias entre si e destinam-se a transmitir as instruções e os comandos para os restantes elementos, criando cadeias de código.

Por fim temos os Pucks. A estes cabe o papel de interagir com outros elementos fora da cadeia do Project Bloks e foram criados propositadamente para serem de baixo custo. A sua função pode ir desde o simples apagar de uma lâmpada, mover elementos ou tocar uma música.

Os Pucks podem ser algo tão simples como uma folha de papel onde foi traçado um caminho com tinta condutora e que assim se torna um elemento do Project Bloks. Claro que há elementos bem mais complexos e que podem ser criados pelas próprias crianças.

A Google vai agora iniciar as primeiras experiências com o Project Bloks, estando para já limitadas a algumas escolas, provavelmente nos Estados Unidos. Mais tarde, e dependendo do sucesso do Project Bloks, será alargado.

Este é mais um projecto da Google que quer trazer as crianças para a tecnologia desde muito cedo, habituando-as a lidar com ela e mostrando formas como esta pode ser útil.

Site: Fonte: Pplware

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Ainda o 1º de Maio: Carta aberta de uma criança no dia do trabalhador

No mundo inteiro celebra-se hoje, 1 de Maio, o Dia do Trabalhador. Muitos de vós não saberão que o dia 1 de Maio foi escolhido para homenagear os trabalhadores de Chicago que, em 1886, começaram a reivindicar o dia de trabalho com oito horas, o que veio a ser constituído como regra na maior parte dos países.

Mas não para nós, companheiros e companheiras. Nós que andamos nas escolas temos cargas horárias que podem ir até às onze horas por dia, se juntarmos as horas nos ateliers de tempos livres, as horas curriculares, as actividades de enriquecimento curricular e a componente de apoio à família. Não podemos aceitar esta situação.

Dizem os adultos que, fora da escola, não há quem tome conta de nós quando estão a trabalhar. Mudem a organização do trabalho e a gestão dos horários deles. Não sendo nossa a responsabilidade pela situação profissional dos adultos, não temos que sofrer nós as consequências. Muitos de nós, companheiros e companheiras, acabamos por estabelecer péssimas relações com os nossos locais de trabalho, as escolas, com tanto tempo lá vivido e, por vezes, mal vivido.

Além disso, quando chegamos a casa já quase não temos tempo e disponibilidade para a vida familiar, para a relação, para a brincadeira, como os nossos pais e irmãos que, como sabem, é fundamental para a qualidade de vida dos seres humanos. Aliás, muitos de nós ainda somos obrigados a levar trabalho para realizar em casa ou continuar a trabalhar em centros de explicações. É também isto que faz parte do estado social de que os adultos tanto falam, a pensar sobretudo nos problemas deles que, sendo importantes, não devem fazer esquecer os nossos.

Os adultos lutaram por mudanças nas condições do trabalho, com preocupações de ergonomia e criatividade nas tarefas. E nós? O equipamento é, frequentemente, de má qualidade, tarefas muitas vezes repetitivas geridas por profissionais com formação inadequada, horas e horas sentados em mobiliário desconfortável. Ninguém pensa no risco de desenvolvermos doenças profissionais e nas consequências ao nível da motivação para progredirmos nas nossas carreiras. Este ano, numa medida inaceitável muitos de nós, dos mais novos, sofremos um processo de deslocalização, obrigam-nos a ir realizar exames foras dos nossos locais de trabalho habituais. Os adultos sempre cuidaram primeiro de si e dos seus direitos e só depois, de nós e dos nossos direitos. Não existem estruturas representativas dos nossos interesses e a nossa voz é pouco ouvida, por isso, muitos de nós tanto gritam e assumem comportamentos de indignação e revolta. Se já tivéssemos a capacidade de votar talvez nos prestassem mais atenção, mas temos que ser exigentes.

É chegada a hora de nos ouvirem. Assim, proclamamos e exigimos:
“As crianças e jovens em idade escolar exigem que lhes seja reconhecido e estabelecido o direito a que o seu dia de trabalho não ultrapasse as sete horas, como já acontece para muitos adultos”.

Fonte: José Morgado in Público

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Links Interessantes: Pplware Kids


Acabei de descobrir que o Pplware, um site de referência na divulgação das novas tecnologias, resolveu iniciar um novo site.
Este espaço será dedicado aos mais novos, mas também a pais e educadores. Aqui podem encontrar várias actividades lúdicas, educativas e informações importantes, bem como pequenos guias e dicas de segurança.
Aqui fica o link:

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