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sábado, 7 de outubro de 2017

Quando não estou em aula...


Olho para os dossiers de Direção de Turma dos meus colegas. Estão todos direitinhos, organizadinhos, bonitinhos, arrumadinhos… O meu está em branco, só com os separadores… Tenho uma data de papéis soltos dentro de uma capa à espera de serem arquivados… Atrevo-me a comentar a minha situação e as colegas, porreirinhas, tranquilizam-me: - “Com tempo, Dalila, isto é aos poucos!” -, enquanto arquivam mais uns documentos nos já volumosos dossiers que são os delas…

Vou dar uma espreitadela aos meus mails. Já recebi 97 na minha caixa de correio institucional iniciada a 8 de setembro… Foram rápidos a criá-la. A escola é até bastante eficaz com essas coisas. Não me posso queixar. Disponibilizam tudo. Têm tudo organizado, esquematizado, prontinho para ser usado. E não deixam dúvidas. É assim e pronto. Gosto que seja assim. O que não falta por aí são coordenadores ou diretores que são ambíguos, não esclarecem, contradizem-se, e na hora em que as coisas correm mal, somos nós que não soubemos “interpretar” ou então fomos mesmo incompetentes…

Os meus colegas são prestáveis e parecem-me todos muito cumpridores e profissionais. Isso é bom, é ótimo, mas deixa-me ainda mais nervosa. Era tão bom poder culpar alguém por andar à nora! Não… Já todos me enviaram vários documentos… regimentos (tudo tem um regimento), papéis relacionados com as tutorias, com as necessidades educativas especiais, com a equipa para a prevenção da indisciplina, testes diagnósticos, plano anual de atividades… Ontem, andaram em trocas de mails sobre o PAA. Será que também queriam a minha opinião? Não consegui arranjar tempo para me debruçar sobre aquilo…
Ai, as siglas! Na nossa profissão, gostam todos muito de siglas e de acrónimos… Consegui perceber alguns: aqueles que também se usam nas outras escolas. Tenho apontado os outros para pesquisar depois… Já repararam que quase todos têm um P? Depois… Faço isso depois… Há coisas mais urgentes para já!

Ao meu lado, uma colega que está nas duas escolas do agrupamento. Agora tem de ir para a terceira escola que ela conseguiu para completar o horário. Tem tudo calculado, esquematizado, programado. Não pode falhar nem distrair-se um pouco. “Tem de ser!”, diz ela.

Tenho que me encontrar com a professora de Educação Especial para falar dos vários casos da minha Direção de Turma. Apontar as alíneas. Tenho que apontar as alíneas e enviar isso aos meus colegas do Conselho de Turma.

Logo, tenho reunião para perceber o funcionamento da Equipa para a Prevenção da Indisciplina. Não me posso esquecer!

Deixa-me ver se não tenho mais alunos para as tutorias. Pediram-me para confirmar isso, já me esquecia…

Deixa-me ir ao cacifo buscar o meu bloco de notas para ver o que me falta. Deram-me a chave ontem. Tenho um cacifo! Há anos que não tinha! Espera, qual é a chave? É esta! Sim, é esta! E agora, qual é o cacifo? Não me lembro do número… Apontei-o mas está lá no bloco de notas dentro do cacifo… Bolas… Vejo depois…

Tenho que pedir os manuais às editoras. Faço isso por mail mais logo. Até é rápido… Mas tantas coisas rápidas juntas e passa-se o dia… Ainda bem que as minhas colegas me emprestaram os delas enquanto chegam e não…

Deixa-me ver se está muita gente na secretaria. Não. Boa! Vou aproveitar e ver o que se passa com as horas de Direção de Turma que ainda não tenho no sistema para sumariar. Ah! Chegou o cartão da escola. Aproveita também para o levantar, Dalila…

“A tua Gabriela voltou a dar-me uma resposta torta!”, diz-me uma colega quando saio da secretaria. A “minha” Gabriela… Pois, são meus… Vão ser os meus João, António, Manel, Francisco… As minhas Ana, Sofia, Teresa… A “minha” Gabriela… Caramba, não me recordo de nenhuma Gabriela! Qual delas é? Sorrio. “Eu vou falar com ela!”, acabo eu por dizer. “Não, não vale a pena! Era só pra saberes!”…

Falando em maus comportamentos, tenho que redigir as participações dos miúdos do CEF. Aquelas aulas com eles dão cabo de mim! Ainda tenho que fazer fichas para eles para a aula de amanhã… Não me posso esquecer que a reprografia está fechada na hora do almoço. Tenho que arranjar maneira de as fotocopiar de manhã no intervalo. Pode ser que não haja muita gente ou estou tramada…

“Dalila, já conheceste a colega Maria? Ela andava à tua procura. É a DT dos miúdos a quem dás TT (Olha, este acrónimo não tem “P”!) e como costuma ser uma disciplina dada pelo DT, ela queria falar contigo para se organizarem em conjunto!”. O colega que me aborda é super prestável. Já me ajudou com pequenas coisas várias vezes. Quero dizer o nome dele, mas não me lembro… Bolas… Ele sabe o meu nome e eu não sei ainda o dele… Bolas… Limito-me a sorrir “Não, não conheci ainda…”. E ele continua “Eu já lhe disse quem tu eras, quando ela chegar à sala dos professores, apresento-vos!” E eu quero dizer “Obrigada, João ou Manel ou Pedro ou Alziro”, mas fico-me pelo “Obrigada!” sem me conseguir lembrar do nome…

Está na hora da minha aula. Corro os vários cacifos com a chave até encontrar o meu. Retiro de lá os testes diagnósticos e corro para a sala. Separo os alunos e começo a distribuir as folhas. Ai, não é este! É o outro! Recolho as folhas e distribuo o teste adequado. Que figurinha a minha! Foca-te, Dalila! Concentra-te!

Já na sala dos professores, conheço a Maria e falamos do tal TT da sua DT. Uma outra colega vem ter comigo. Quero tomar um cafezinho, mas acho que não vou conseguir. “Tu é que és a Dalila? Eu sou a mãe da Rita da tua Direção de Turma!” Quem é a Rita? Oh, valha-me Deus! Sorri! Sorri, Dalila… Ai, não, o assunto é sério. Pára de sorrir! Foca-te! Concentra-te! Ouve! Esquece o café!

De volta aos meus mails, leio os assuntos antes de abrir. Tanta oferta formativa. Devia ler isto com atenção, mas não tenho tempo. Tantas ofertas de atividades para os alunos. Também devia ler isto com calma, já que tenho Direção de Turma… Mas… Prioridades, Dalila! Abro tudo aquilo que está relacionado com a DT. É tanta coisa que até me assusta, mas acabo por me sentir amparada. Está aqui tudo… Abro um documento “Calendário para realização de embelezamento da escola”. Fico perplexa. A medo, pergunto à minha colega no computador ao lado “Desculpa, que documento é este? Sabes?”. Muito simpática, responde-me “Temos que marcar uma vez por mês, acho eu, no Tempo Turma uma hora para cuidar da escola. Pode ser apanhar lixo, decorar uma sala, coisas assim…”. Fecho a boca para a abrir de novo, desta vez com um sorriso “É uma iniciativa muito louvável!”, acabo eu por dizer, antes de voltar a fixar o meu ecrã… Por instantes, apetece-me bater com a cabeça na parede, mas há mais pessoal na sala e acabo por conseguir conter-me…

Tenho que agendar a minha primeira reunião com os Encarregados de Educação… Ainda não tenho dossier, mas tenho que tratar disso… Não posso deixar arrastar. Mais uma vez, tenho ordem de trabalhos já pronta para essa reunião. Boa! Vou ver para redigir a convocatória. Com tantas coisas para fazer, é bom que esteja tudo assim: mecanizado. É só fazer e pronto! Há um ponto que é "Tomada de conhecimento dos documentos referidos na alínea q) do artº 7º da Lei nº 51/2012 de 5 de setembro"… Que é isto? Ah! Regulamento Interno, Estatuto do Aluno… Claro, claro…

Na hora de TT, trato da eleição do delegado e do subdelegado de turma. “Professora, estávamos a pensar fazer a nossa viagem de finalistas em Espanha. A escola dá-nos autorização para sairmos do país?” Respondo que vou perguntar, e só penso “Mas a viagem de finalistas também tem a ver com a escola?” e tremo só com a pergunta…

Quando chegar a casa, tenho que enviar os conteúdos dados na minha disciplina à DT daquele miúdo que tem faltado… E tenho que fazer a ata da eleição do delegado… E as fichas de CEF…. Se sobrar tempo, preparo a aula para o 9.º e a do 8.º… Se não sobrar tempo, abro os livros e sigo as instruções dadas pelas editoras sobre os passos da aula… As editoras também são super organizadas hoje em dia…Está tudo mecanizado! Felizmente… Sim, felizmente… É mecanizar tudo para se ser eficaz… Assim, consigo fazer as coisas… 

Consigo, sim… Mecanizar! Mecanizar!... Alguém me explica este sabor a ferro que me incomoda apesar de tudo?

Texto de Dalila Ribeiro publicado em Professores Lusos

domingo, 24 de fevereiro de 2013

O que é que queres ser quando cresceres?

Constantemente procuramos respostas, o problema é que quase sempre nos consideramos crianças indefesas, transferindo para o mundo a responsabilidade pelas nossas conquistas ou pela inércia das nossas vidas!

Este vídeo mostra exatamente isso, o resumo de uma história que ainda não acabou. De uma criança " pobre" que começou do zero, que foi conquistando seu espaço pouco a pouco. Experimentar, fazer, aprender.

Um empreendedor de sucesso que vem conquistando os seus próprios sonhos, desenhando as suas próprias motivações para uma vida digna de ser contada...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Porque é importante simplificar a sua vida


Se uma das suas metas é ser mais feliz, inclua a “simplificação” nos seus planos. Dou-lhe aqui 11 motivos para o fazer:

  1. Porque as pessoas são mais felizes com experiências significativas do que com a aquisição de objectos – Quando tiver o impulso de gastar, pondere se não é melhor direccioná-lo para uma experiência que o fará feliz e que se lembrará ao longo dos anos (ex.: umas férias em família, em vez do último modelo de LCD ou de comprar mil e um artigos só porque estão em promoção, que depois acabam por nem lhe fazer falta).
  2. Porque pode viver uma vida menos stressante – O excesso de solicitações e de objectos na nossa vida, resultam frequentemente em stress. Se pretender levar uma vida mais calma, terá mesmo de rever as suas prioridades, dizer não quando necessário e livrar-se do supérfluo.
  3. Porque perderá menos tempo a limpar e a arrumar – Menos objectos significa menos trabalho. Apesar de depender da quantidade de objectos acumulados, a sua redução reduz, em média, 40% do trabalho doméstico.
  4. Porque deixará de sentir vergonha, por sentir que a sua casa está sempre desarrumada – Uma casa com menos objectos é mais fácil de arrumar, especialmente se todos tiverem um sítio certo. Assim, é mais fácil sair de casa, sem o stress de ter deixado para trás o caos. Pode também perder o receio de receber pessoas lá em casa, pois irão encontrar um espaço acolhedor e organizado.
  5. Porque é suposto a sua casa ser um “refúgio” e não uma fonte de stress – Para a nossa casa contribuir para a nossa felicidade deverá fazer com que nos sintamos confortáveis assim que entramos nela. Deverá permitir que abandonemos as preocupações que trazemos do exterior. Obviamente que se nela reinar o caos, ao invés de sentir vontade de estar lá dentro, sentirá vontade de fugir.
  6. Porque poderá ganhar mais tempo no seu dia-a-dia – Imagine só o tempo que deixa de perder em limpezas, em encontros sociais que só faz por obrigação, a gerir os excessos de e-mails, em redes sociais da Internet, em chamadas telefónicas desnecessárias… Ganhará tempo para o mais importante na sua vida, para aquilo que o faz mais feliz.
  7. Porque poupará dinheiro – Há medida que elimina os objectos supérfluos, tornar-se-á um comprador mais consciente. Irá pensar duas vezes antes de comprar o que quer que seja (mesmo que seja artigos de uma super-promoção, irá ponderar se lhe farão mesmo falta). Como consequência, poupará dinheiro, que poderá encaminhar para actividades mais úteis ou poderá ajudá-lo a livrar-se das suas dívidas.
  8. Porque terá mais disponibilidade para apoiar causas sociais – E essa disponibilidade pode ser em tempo (poderá por exemplo fazer voluntariado) ou em dinheiro (terá mais disponibilidade para fazer um donativo financeiro). E já sabemos que estes actos de bondade nos fazem mais felizes.
  9. Porque será mais amigo do ambiente – Ao adquirir menos coisas, está a contribuir de duas maneiras: reduz o consumo de recursos (por exemplo, ao nível dos materiais necessários para embalar os produtos) e diminui os seus resíduos. Pode parecer pouco, mas se todos simplificassem… o impacto que os humanos teriam no ambiente, seria bem menor.
  10. Porque será um exemplo para os seus filhos – As crianças aprendem mais com o exemplo, do que com palavras. Ao simplificar, está a mostrar-lhes o que deve ser prioritário na vida e a darem valor ao que têm. E já sabemos que a gratidão pelo que se tem, pode aumentar em cerca de 25% a nossa felicidade.
  11. Porque poderá recolher outros benefícios para a sua vida – A mudança para uma vida mais descomplicada, poderá ter consequências positivas inesperadas noutras áreas da sua vida. Poderá começar a sentir que agora tem um propósito de vida, poderá sentir-se mais feliz (porque ganhou tempo para despender com actividades que o fazem feliz), poderá ser mais activo na sua comunidade (porque tem mais tempo para ajudar), poderá ver-se livre das dívidas, etc.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Não Creio nesse Deus...


I 

Não sei se és parvo se és inteligente 
— Ao disfrutares vida de nababo 
Louvando um Deus, do qual te dizes crente, 
Que te livre das garras do diabo 
E te faça feliz eternamente. 

II 

Não vês que o teu bem-estar faz d'outra gente 
A dor, o sofrimento, a fome e a guerra? 
E tu não queres p'ra ti o céu e a terra.. 
— Não te achas egoísta ou exigente? 

III 

Não creio nesse Deus que, na igreja, 
Escuta, dos beatos, confissões; 
Não posso crer num Deus que se maneja, 
Em troca de promessas e orações, 
P'ra o homem conseguir o que deseja. 

IV 

Se Deus quer que vivamos irmãmente, 
Quem cumpre esse dever por que receia 
As iras do divino padre eterno?... 
P'ra esses é o céu; porque o inferno 
É p'ra quem vive a vida à custa alheia! 

António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."

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