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quinta-feira, 26 de abril de 2018

A profissão docente nos nossos dias!


Vivemos uma conjuntura política, económica, social e até cultural que não motiva a escolha da profissão docente. Ser professor não é fácil. O Estado e a Sociedade olham para a escola e obrigam-na a sarar todos os males sociais que os governos não são capazes de enfrentar.

A escola obriga-se a prevenir a toxicodependência, a educar para a cidadania, a formar para o empreendedorismo, a promover uma cultura ecológica e de defesa do meio ambiente, a motivar para a prevenção rodoviária, a transmitir princípios de educação sexual, a desenvolver hábitos alimentares saudáveis, a prevenir a Sida e outras doenças sexualmente transmissíveis, a utilizar as novas tecnologias da comunicação e da informação, a combater a violência, o racismo e o belicismo, a reconhecer as vantagens do multiculturalismo, a incutir nos jovens valores socialmente relevantes, a prepará-los para enfrentarem com sucesso a globalização e a sociedade do conhecimento, e sabe- se lá mais o quê...

Os professores foram treinados para saberem fazer o que sempre fizeram e bem: ensinar. Mas, além disso, todos os dias se lhes exige o cumprimento de cada vez mais objectivos educativos que a sociedade não consegue alcançar.

Entregues a si próprios, sem acompanhamento nem adequada e suficiente formação complementar, os docentes sentem sobre os seus ombros o peso da enorme responsabilidade que lhes é imputada pelo Estado e pelas famílias. Vítimas de uma angustiante solidão profissional, cativos dentro das quatro paredes da sala de aula onde trabalham, quantas vezes em condições desmoralizadoras, rodeados de muros e cercas metálicas de várias origens e com diferentes significados, os docentes atingem perigosos estádios de desencanto, de desilusão e desmotivação profissional.

Hoje, a profissão de professor caracteriza-se por oferecer poucos estímulos, incentivos, e até razões para que os docentes se envolvam num processo de motivação e de evolução qualitativa das suas capacidades pessoais e profissionais.

Por cada nova competência que se lhes exige, sem a correspondente formação, o professor vai atingindo níveis cada vez mais preocupantes de incompetência no cumprimento desses novos saberes que se lhe impõem e para os quais não foi preparado, aumentando os seus níveis de stress e de erosão profissional.

Ou seja, o professor desprofissionaliza-se. E esta desprofissionalização determina o emergir de um progressivo clima de mal-estar. Por cada machadada lançada no seu estatuto remuneratório, por cada tentativa de o funcionalizar, por cada golpe desferido na sua autonomia pedagógica e intelectual, por cada tentativa de denegrir publicamente a sua imagem social, o professor proletariza-se. Isto é, deixa de ser um intelectual apto, para se transformar num assalariado com níveis de inaptidão externamente provocados. Um dos sintomas dessa proletarização ocorre, desde logo, quando os professores aceitam mais funções e, simultaneamente, piores condições de trabalho.

A ausência de um código deontológico que ajude a consolidar a cultura profissional dos docentes também não permite que se atenuem os resultados negativos de todas as pressões externas e motiva mesmo o aparecimento de sensações de insegurança e de receio permanentes. Hoje, alguns professores trabalham em condições tão desanimadoras que não conseguem enfrentar com 
Autonomia e liberdade as contradições que dia-a-dia encontram dentro das escolas e junto das famílias dos educandos.

Proclama-se uma escola inclusiva numa sociedade que não acolhe os excluídos. Pretende-se promover uma escola para todos numa sociedade em que o bem-estar e a cultura só estão ao alcance de alguns; em que a escola não consegue integrar os filhos das famílias vitimadas por políticas de incúria. Tais políticas acentuam o desemprego, o trabalho infantil, a iliteracia, a delinquência, a violência doméstica e coagem muitos pais a verem a escola obrigatória como um obstáculo à incorporação dos filhos no mundo do trabalho, já que esta não lhes é apresentada como uma solução meritocrática, porque as políticas e os políticos se revelaram incapazes de tomar medidas que evitassem as clivagens entre os que tudo têm e os que pouco ou nada possuem.

Arvora-se uma escola em que os valores transmissíveis não encontram acolhimento em inúmeros lares, porque são constituídos por famílias disfuncionais. Uma escola onde se exige o cumprimento de currículos obsoletos, a aplicação e correcção de provas de avaliação de conhecimentos, muitas delas de duvidosa validade, e onde a máquina burocrática da administração escolar obriga a reunir em órgãos, departamentos, comissões, sessões de atendimento...

Esta é a autêntica escola pública em que trabalha a maioria dos nossos professores. A escola em que também é preciso (ainda se lembram?) que os docentes tenham tempo para ensinar e os alunos encontrem momentos para aprender.

In João Ruivo et al. Ser Professor - Satisfação Profissional e Papel das Organizações de Docentes., Um Estudo Nacional. Instituto Politécnico de Castelo Branco e Associação Nacional de Professores. ISBN:978-972-99849-9-0. pp 1-3.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O melhor Professor está em todas as Escolas!



A propósito do prémio da iniciativa da Varkey Foundation (Global Teacher Prize), divuldado e promovido pela Rádio Comercial, o Alexandre Henriques faz um enquadramento notável, chegando à conclusão de que o melhor professor está em todas as escolas.

Não quero fazer mais um texto de queixumes e lamurias, de sentimento de injustiça onde o desprestigio social sente-se como uma faca espetada nas costas de muitos professores.

Mas o “Nobel da Educação” obriga-me a lembrar o que muitos esquecem…

Há anos que vejo muitos professores a darem mais do que deviam à Escola Pública, professores que não precisam de avaliações, de cotas ou cotinhas, de evidências, relatórios, ou de pressionar outros para ultrapassar outros… Eles dedicam-se de corpo e alma ao seu trabalho, é uma forma de estar na vida, fossem professores, carpinteiros ou pasteleiros, seriam sempre profissionais de excelência, está-lhes no sangue, é um “defeito” de fabrico. Estes são alvo de admiração por parte dos colegas, mas também alvo de umas quantas invejas mesquinhas, fúteis, completamente desprezíveis.

A escola só funciona pelo amor à camisola de muitos professores, um amor que muitos ignoram, que pensam que não é quantificável ou medível…

Professores que abdicam do seu tempo pessoal, professores que viram a sua carreira sacrificada, que abdicam da sua família, que migraram e migram constantemente na procura constante por uma estabilidade profissional que teima em ser adiada. Professores que se irritam quando os alunos não trabalham, professores que ficam frustrados pelo seu insucesso, que desabafam na sala dos professores, que “lutam” para que os pais não negligenciem os seus filhos, que são a última barreira para que o aluno não abandone, chegando ao ponto de pôr dinheiro do próprio bolso para dar o (im)possível…

Tudo isto são sinais de qualidade e quando coadjuvadas por uma competência científica e de relacionamento com os alunos, estamos perante a verdadeira excelência.

Os professores são muito mais do que deviam ser, são o melhor da natureza humana e estão um pouco por todo o lado, um pouco por TODAS as escolas.

Não há avaliação ou prémios que façam justiça ao trabalho que os professores realizam diariamente. Eles são o nosso orgulho e não preciso de um concurso para apontar uns quantos que tive o privilégio de conhecer ao longo da minha carreira, que me mostraram que ser professor é muito mais que um diploma, é algo que se aprende mas acima de tudo que se sente.

Para todos aqueles que vão ficar fora do Global Teacher Prize Portugal, fica o meu, o nosso reconhecimento, o meu, o nosso, muito obrigado.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Visitas de estudo? Não sou babysitter, sou professor!




O texto seguinte é uma caricatura, mas inspirada em situações reais que não aconteceram todas no mesmo dia, mas aconteceram. Pessoalmente e ao fim de 16 anos de carreira, evito visitas de estudo, vou sempre com o coração nas mãos, pois não é a primeira vez nem será a última, que acontece algo e a responsabilidade é sempre do professor, mesmo que tenha feito o que é suposto.
Alexandre Henriques (ComRegras)


Para quem não é professor, imagine levar 30 crianças/jovens enfiados num autocarro durante 1/2/3 horas… Imaginaram??? Vamos ver se imaginaram bem…

Meninos, não quero ninguém de pé!!!

Meninos, já disse que não quero ninguém de pé!!!

Meninos… (rais parta isto), É PÁ SENTEM-SE, PONHAM O CINTO, ANTES QUE ACONTEÇA UMA DESGRAÇA!!! OU SE SENTAM OU VOLTAMOS PARA TRÁS!!!

10 minutos depois…

Sr. Motorista, meta a música mais alta!!!

Sr. Motorista, não gosto dessa música, ponha outra!!!

Sr. Motorista, ponha a música mais baixa, queremos ouvir a nossa música!!!

5 minutos depois…

Meninos, fazem o favor de colocarem a música mais baixa, é que isto não é uma discoteca e ainda nos faltam 2 horas de viagem…

1 minuto depois…

Professor, temos fome… quando é que paramos!!!

Professor, quero ir à casa de banho!!!

Professor, estou a ficar enjoado!!!

20 minutos depois…

Professor, o Manel bateu-me!!!

Professor, a Maria está a gozar comigo!!!

As viagens são sempre uma animação, mas tudo começa antes da viagem, quando 4 ou 5 alunos esquecem-se das autorizações dos encarregados de educação e o autocarro tem de esperar pela Catarina e o António que chegam sempre atrasados…

Chegados ao destino, o interesse é efetivo durante alguns segundos, os segundos suficientes para tirar o telemóvel do bolso e começar a teclar com os amigos virtuais. Alguns vão ficando para trás, pé ante pé, pois andar depressa e escrever mensagens é algo que esta geração ainda não desenvolveu, talvez a próxima venha com um upgradeintegrado.

Mas a pièce de résistance é quando o guia faz o esforço para explicar o que os nossos olhos observam e este sente a dificuldade que os professores sentem numa sala de aula. Os burburinhos, os telemóveis, os risinhos, os comentários foleiros e desajustados, ser guia é o parente mais próximo que um professor pode ter.

A pausa para almoço pode também ser interessante… a hora marcada para o reencontro é uma hora esquecida e pode ser brindada por um menino ou menina que traz algo que não lhe pertence de uma das lojas do centro comercial… ou então arranja um problema com um dos “nativos” e quando damos por ela, temos uma zaragata em pleno Colombo… Não é a primeira vez, nem será a última, que uma visita de estudo tem uma novidade de última hora, a visita a uma esquadra ou hospital mais próximo…

Quanto ao regresso…

Meninos, não quero ninguém de pé!!!

Meninos, já disse que não quero ninguém de pé!!!

Meninos… (rais parta isto), É PÁ SENTEM-SE, PONHAM O CINTO, ANTES QUE ACONTEÇA UMA DESGRAÇA!!! OU SE SENTAM OU VOLTAMOS PARA TRÁS!!!

O resto vocês já sabem…

Nota: Gosto de ser professor, não gosto de ser babysitter, costumo dizer que alguns alunos, nem ao café da frente os levo, já passei algumas vergonhas que não esqueço… Outros até vale a pena acompanhar, mas pelo sim pelo não, prefiro remeter-me à minha insignificância… ser professor.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Quero cumprir as 35 horas na escola e não faço mais nada em casa. Nada, zero, rien, nadica de nada!!!

A propósito da profissão docente e tendo em conta a realidade vivida no dia-a-dia, reproduzo aqui um artigo do Alexandre Henriques do ComRegras, com o qual concordo inteiramente. Espero que sirva para esclarecer a realidade da profissão docente e não continuem a ser tidos como uns "malandros" que trabalham pouco e têm muitas férias.


Compreendo que os critérios editoriais são o que são, compreendo que um bom título é meio caminho andado para boas audiências, mas de 3 páginas de índice da Análise Sectorial do Docente – 2014/2015, tinha logo que estar escarrapachado na 1ª página do público que mais de metade dos professores tem horário reduzido…

Como dizia o outro… não havia necessidade…

E é pena porque:

100% dos jornalistas não passam o tempo todo a escrever notícias ou a fazer reportagens;

100% dos médicos não passam o tempo todo a fazer cirurgias ou a atender pacientes;

100% dos juízes não passam o tempo todo em julgamentos;

100% dos bancários não passam o tempo todo a atender clientes;

100% dos polícias não passam o tempo todo a fazer rondas;

Já perceberam onde quero chegar, certo?

Tal como os professores, todas as profissões têm um tempo “letivo” e outro “não letivo”, e não quer com isto dizer que o tempo não letivo seja menos importante que o tempo letivo. Aliás, o “letivo” só pode existir com o mínimo de sucesso graças a toda uma preparação feita nos bastidores. Estando os professores envelhecidos, é natural que haja mais professores com menos aulas, é uma consequência legal mas isto não significa que trabalhem menos. Além disso, a notícia esquece-se dos milhares de professores do 1º ciclo e pré-escolar que não têm nenhuma redução da componente letiva e esses que eu saiba também são professores.

E pelos vistos a DGEEC considerou o desporto escolar como tempo não letivo, mas no horário dos professores de Educação Física este encontra-se na sua componente letiva (afinal como ficamos?) e só quem nunca deu desporto escolar é que pode achar que dar um treino é diferente de dar uma aula. Se calhar no desporto escolar não estão lá alunos, tenho que lhes perguntar o que são…

Esta ideia peregrina que de lés a lés é deitada cá para fora que os professores trabalham pouco e têm muitas férias é uma mentira que teima em ser repetida. Recomendo a leitura do meu artigo “A Verdade Sobre as Férias dos Professores“

Pois bem, vamos acabar com as insinuações, as suposições, as bocas e as maledicências…

Os professores passam a cumprir o seu horário integral na escola. Isso mesmo, as 35 horas ali, dentro dos portões das escolas. Acham que havia muitos professores a recusar? Era já o primeiro a aceitar e sabem por quê?

Não mexia uma palha em casa, nada, zero, rien, nadica de nada, fazia as minhas 7 horinhas diárias na escola, até picava o ponto se fosse preciso e parava tudo. Tinha mais tempo para a mulher, para a criança, tinha fins de semana a 100%, tinha mais tempo para escrever, para ler, para ir passear o cão etc…

E mais, também aceito o fim da burocracia e transformamos a componente de estabelecimento em horário letivo. Onde é que posso assinar?

Porque é que o Ministério de Educação não incentiva esta ideia? Porque eles sabem tão bem como nós que as escolas não têm condições para agregar dezenas de professores em horário não letivo/individual e também sabem que a grande maioria dos professores ultrapassa as suas 35 horas semanais, e já agora também sabem que muito professor utiliza material do seu bolso (portáteis, folhas, impressoras, eletricidade, canetas, etc…) que multiplicado por mais de 100 mil era capaz de fazer mossa no orçamento de estado…

Já estou mesmo a ver os testes a serem entregues passado 3 meses, chegarmos às aulas sem nada preparado, não recebermos pais depois das horas de expediente e dizermos aos alunos “olha, eu sei que estás com problemas mas já piquei o ponto, fica para amanhã pode ser?”.

Vá, vamos… querem os professores ao minuto? Vamos então ser professores ao minuto!!!

As escolas só funcionam por muito amor à camisola, por muita carolice e por muita responsabilidade dos seus docentes e já agora não docentes. Esta é a realidade e a sociedade em geral, onde a comunicação social está também incluída devia ter um pouco mais de consideração e respeito para com os seus professores. Quando se fala na desvalorização da classe, o que se passou ontem foi apenas mais um exemplo…

sábado, 7 de outubro de 2017

Quando não estou em aula...


Olho para os dossiers de Direção de Turma dos meus colegas. Estão todos direitinhos, organizadinhos, bonitinhos, arrumadinhos… O meu está em branco, só com os separadores… Tenho uma data de papéis soltos dentro de uma capa à espera de serem arquivados… Atrevo-me a comentar a minha situação e as colegas, porreirinhas, tranquilizam-me: - “Com tempo, Dalila, isto é aos poucos!” -, enquanto arquivam mais uns documentos nos já volumosos dossiers que são os delas…

Vou dar uma espreitadela aos meus mails. Já recebi 97 na minha caixa de correio institucional iniciada a 8 de setembro… Foram rápidos a criá-la. A escola é até bastante eficaz com essas coisas. Não me posso queixar. Disponibilizam tudo. Têm tudo organizado, esquematizado, prontinho para ser usado. E não deixam dúvidas. É assim e pronto. Gosto que seja assim. O que não falta por aí são coordenadores ou diretores que são ambíguos, não esclarecem, contradizem-se, e na hora em que as coisas correm mal, somos nós que não soubemos “interpretar” ou então fomos mesmo incompetentes…

Os meus colegas são prestáveis e parecem-me todos muito cumpridores e profissionais. Isso é bom, é ótimo, mas deixa-me ainda mais nervosa. Era tão bom poder culpar alguém por andar à nora! Não… Já todos me enviaram vários documentos… regimentos (tudo tem um regimento), papéis relacionados com as tutorias, com as necessidades educativas especiais, com a equipa para a prevenção da indisciplina, testes diagnósticos, plano anual de atividades… Ontem, andaram em trocas de mails sobre o PAA. Será que também queriam a minha opinião? Não consegui arranjar tempo para me debruçar sobre aquilo…
Ai, as siglas! Na nossa profissão, gostam todos muito de siglas e de acrónimos… Consegui perceber alguns: aqueles que também se usam nas outras escolas. Tenho apontado os outros para pesquisar depois… Já repararam que quase todos têm um P? Depois… Faço isso depois… Há coisas mais urgentes para já!

Ao meu lado, uma colega que está nas duas escolas do agrupamento. Agora tem de ir para a terceira escola que ela conseguiu para completar o horário. Tem tudo calculado, esquematizado, programado. Não pode falhar nem distrair-se um pouco. “Tem de ser!”, diz ela.

Tenho que me encontrar com a professora de Educação Especial para falar dos vários casos da minha Direção de Turma. Apontar as alíneas. Tenho que apontar as alíneas e enviar isso aos meus colegas do Conselho de Turma.

Logo, tenho reunião para perceber o funcionamento da Equipa para a Prevenção da Indisciplina. Não me posso esquecer!

Deixa-me ver se não tenho mais alunos para as tutorias. Pediram-me para confirmar isso, já me esquecia…

Deixa-me ir ao cacifo buscar o meu bloco de notas para ver o que me falta. Deram-me a chave ontem. Tenho um cacifo! Há anos que não tinha! Espera, qual é a chave? É esta! Sim, é esta! E agora, qual é o cacifo? Não me lembro do número… Apontei-o mas está lá no bloco de notas dentro do cacifo… Bolas… Vejo depois…

Tenho que pedir os manuais às editoras. Faço isso por mail mais logo. Até é rápido… Mas tantas coisas rápidas juntas e passa-se o dia… Ainda bem que as minhas colegas me emprestaram os delas enquanto chegam e não…

Deixa-me ver se está muita gente na secretaria. Não. Boa! Vou aproveitar e ver o que se passa com as horas de Direção de Turma que ainda não tenho no sistema para sumariar. Ah! Chegou o cartão da escola. Aproveita também para o levantar, Dalila…

“A tua Gabriela voltou a dar-me uma resposta torta!”, diz-me uma colega quando saio da secretaria. A “minha” Gabriela… Pois, são meus… Vão ser os meus João, António, Manel, Francisco… As minhas Ana, Sofia, Teresa… A “minha” Gabriela… Caramba, não me recordo de nenhuma Gabriela! Qual delas é? Sorrio. “Eu vou falar com ela!”, acabo eu por dizer. “Não, não vale a pena! Era só pra saberes!”…

Falando em maus comportamentos, tenho que redigir as participações dos miúdos do CEF. Aquelas aulas com eles dão cabo de mim! Ainda tenho que fazer fichas para eles para a aula de amanhã… Não me posso esquecer que a reprografia está fechada na hora do almoço. Tenho que arranjar maneira de as fotocopiar de manhã no intervalo. Pode ser que não haja muita gente ou estou tramada…

“Dalila, já conheceste a colega Maria? Ela andava à tua procura. É a DT dos miúdos a quem dás TT (Olha, este acrónimo não tem “P”!) e como costuma ser uma disciplina dada pelo DT, ela queria falar contigo para se organizarem em conjunto!”. O colega que me aborda é super prestável. Já me ajudou com pequenas coisas várias vezes. Quero dizer o nome dele, mas não me lembro… Bolas… Ele sabe o meu nome e eu não sei ainda o dele… Bolas… Limito-me a sorrir “Não, não conheci ainda…”. E ele continua “Eu já lhe disse quem tu eras, quando ela chegar à sala dos professores, apresento-vos!” E eu quero dizer “Obrigada, João ou Manel ou Pedro ou Alziro”, mas fico-me pelo “Obrigada!” sem me conseguir lembrar do nome…

Está na hora da minha aula. Corro os vários cacifos com a chave até encontrar o meu. Retiro de lá os testes diagnósticos e corro para a sala. Separo os alunos e começo a distribuir as folhas. Ai, não é este! É o outro! Recolho as folhas e distribuo o teste adequado. Que figurinha a minha! Foca-te, Dalila! Concentra-te!

Já na sala dos professores, conheço a Maria e falamos do tal TT da sua DT. Uma outra colega vem ter comigo. Quero tomar um cafezinho, mas acho que não vou conseguir. “Tu é que és a Dalila? Eu sou a mãe da Rita da tua Direção de Turma!” Quem é a Rita? Oh, valha-me Deus! Sorri! Sorri, Dalila… Ai, não, o assunto é sério. Pára de sorrir! Foca-te! Concentra-te! Ouve! Esquece o café!

De volta aos meus mails, leio os assuntos antes de abrir. Tanta oferta formativa. Devia ler isto com atenção, mas não tenho tempo. Tantas ofertas de atividades para os alunos. Também devia ler isto com calma, já que tenho Direção de Turma… Mas… Prioridades, Dalila! Abro tudo aquilo que está relacionado com a DT. É tanta coisa que até me assusta, mas acabo por me sentir amparada. Está aqui tudo… Abro um documento “Calendário para realização de embelezamento da escola”. Fico perplexa. A medo, pergunto à minha colega no computador ao lado “Desculpa, que documento é este? Sabes?”. Muito simpática, responde-me “Temos que marcar uma vez por mês, acho eu, no Tempo Turma uma hora para cuidar da escola. Pode ser apanhar lixo, decorar uma sala, coisas assim…”. Fecho a boca para a abrir de novo, desta vez com um sorriso “É uma iniciativa muito louvável!”, acabo eu por dizer, antes de voltar a fixar o meu ecrã… Por instantes, apetece-me bater com a cabeça na parede, mas há mais pessoal na sala e acabo por conseguir conter-me…

Tenho que agendar a minha primeira reunião com os Encarregados de Educação… Ainda não tenho dossier, mas tenho que tratar disso… Não posso deixar arrastar. Mais uma vez, tenho ordem de trabalhos já pronta para essa reunião. Boa! Vou ver para redigir a convocatória. Com tantas coisas para fazer, é bom que esteja tudo assim: mecanizado. É só fazer e pronto! Há um ponto que é "Tomada de conhecimento dos documentos referidos na alínea q) do artº 7º da Lei nº 51/2012 de 5 de setembro"… Que é isto? Ah! Regulamento Interno, Estatuto do Aluno… Claro, claro…

Na hora de TT, trato da eleição do delegado e do subdelegado de turma. “Professora, estávamos a pensar fazer a nossa viagem de finalistas em Espanha. A escola dá-nos autorização para sairmos do país?” Respondo que vou perguntar, e só penso “Mas a viagem de finalistas também tem a ver com a escola?” e tremo só com a pergunta…

Quando chegar a casa, tenho que enviar os conteúdos dados na minha disciplina à DT daquele miúdo que tem faltado… E tenho que fazer a ata da eleição do delegado… E as fichas de CEF…. Se sobrar tempo, preparo a aula para o 9.º e a do 8.º… Se não sobrar tempo, abro os livros e sigo as instruções dadas pelas editoras sobre os passos da aula… As editoras também são super organizadas hoje em dia…Está tudo mecanizado! Felizmente… Sim, felizmente… É mecanizar tudo para se ser eficaz… Assim, consigo fazer as coisas… 

Consigo, sim… Mecanizar! Mecanizar!... Alguém me explica este sabor a ferro que me incomoda apesar de tudo?

Texto de Dalila Ribeiro publicado em Professores Lusos

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O Processo Educativo: Ensino ou aprendizagem

Excelente texto de Raúl Iturra, publicado no Banda Larga:


Todo o grupo social precisa de transmitir a sua experiência acumulada no tempo à geração seguinte, como condição da sua continuidade histórica. O facto de os membros individuais do grupo estarem sempre a renovar-se, seja pela morte, seja pelo nascimento, dinamiza a necessidade de que essa experiência acumulada, que se denomina saber e existe fora do tempo individual, fique organizada numa memória que permaneça no tempo histórico. A questão está em saber se é mais útil para a reprodução do grupo que os novos reproduzam o saber; ou que entendam a necessidade dele por meio de praticar a sua utilidade. O primeiro seria ensinar o que já se tem, subordinada à letra do que já se possui como explicação da natureza e das relações entre os homens; o segundo seria aprender o processo que dinamiza as operações pelas quais a mente humana resolve uma questão cada vez uma problemática se lhe coloca.

1. A questão

Todo o grupo social, como condição da sua continuidade, precisa de transmitir à geração seguinte a experiência acumulada no tempo. O facto de os membros individuais do grupo se estarem sempre a renovar, seja pela morte, seja pelo nascimento, dinamiza a necessidade de que essa experiência acumulada, que se denomina saber e que existe fora do tempo individual, fique organizada numa memória que permaneça no tempo histórico. Nos grupos sociais onde existe uma predominância da memória oral, o saber ou conhecimento materializa-se na sistematização ou classificação dos seres humanos em genealogias e hierarquias; nos grupos sociais onde predomina a memória escrita, o conhecimento materializa-se em textos que consignam factos e que são sujeitos de interpretação. Normalmente, a morte leva parte do saber reproduzir uma genealogia e da capacidade de entender uma hierarquia, ao mesmo tempo que leva a capacidade de entender o contexto que produz o texto e que originou o seu conteúdo. Normalmente, quem nasce e chega a um grupo social, encontra-se já com um conjunto de taxonomias com as quais convive e que, enquanto cresce e se desenvolve, não coloca em questão porque não as entende: obedece e respeita as que já existem e não se sabe porquê. O processo educativo é, em consequência, o meio pelo qual os que já têm explicitado na sua memória pessoal o como e o porquê da sua experiência histórica tentam retirar os mais novos da inconsciência do seu saber daquilo que é percebido sem que seja explícito; e procurar inserir os mais novos nas taxonomias culturais. A questão está em saber se é mais útil para a reprodução do grupo que os novos reproduzam o saber, ou entendam a necessidade dele ao praticar a sua utilidade. O primeiro seria ensinar o que já se tem, subordinado à letra do que já se possui como explicação da natureza e das relações entre os homens; o segundo, seria aprender o processo que dinamiza as operações pelas quais a mente humana resolve uma questão, cada vez que uma problemática se lhe coloca. Na primeira modalidade, o processo educativo seria uma reiteração do que já se tem, enquanto na segunda seria a formação de uma estrutura de pensamento que pode entender as alternativas da resolução das questões colocadas pelo processo da vida. Normalmente, ensino e aprendizagem são processos que se acompanham um ao outro durante todo o processo educativo. Denomino ensino a prática de transferir conhecimentos provados ou acreditados pela população que educa à população que se estima desconhecer as formas, estruturas e processos que ligam as relações sociais com as coisas: a prática de fixar o estereótipo do social, seja resultado da investigação ou da ideologia, é a que predomina ainda no processo educativo cristão e muçulmano. Chamaria a isto o respeito à lei, bíblica ou positiva, porque assim está escrito. Denomino aprendizagem – como tenho discutido com P. Freire e J. Goody – a prática de colocar questões por parte da população que ensina, que envolvem alternativas de respostas, à população que começa a entender o funcionamento do mundo, onde a resposta a encontra o iniciado, não sendo a sua atividade substituída pelo iniciador. No ensino que conheço, o iniciador tende a substituir a atividade do iniciado, seja na atividade direta, seja na obrigação do aprendiz fazer como lhe é dito, imitando. Na aprendizagem, a iniciativa é de quem é introduzido ao mundo histórico em que o seu grupo já vive, sendo a atividade de quem orienta um mostrar alternativas e as suas consequências, ficando a opção com quem aprende. Quanto a aprendizagem é de textos, a prática do processo educativo será a de que se saiba classificá-los, conhecer o seu contexto, o debate em que está inserido e a questão relativa às ideias que transmite, mesmo quando se trata de textos de introdução à técnica da escrita onde o melhor será sempre o que produz o próprio aprendiz. O ensino é repetir, criando uma subordinação; a aprendizagem é descobrir, criando uma relação de comunicação.
Na prática educativa escolar ocidental, estas estão separadas. Tal é causado pela conceptualização da criança como aquele ser humano que nada sabe nem entende e deve ser preparado para repetir o que fazem os adultos. A predominância da prática do ensino cria uma diferença na atitude dos membros individuais de um grupo.

Se um grupo social quer ver se procede recorrendo ao ensino ou à aprendizagem, quer dizer, se forma repetidores onde a variabilidade histórica é pequena, ou se forma entendimento onde se introduz uma compreensão dos factos, tem que examinar quais as instituições ou vias, onde educa, e quanto do saber acumulado na experiência quer transmitir e a quem.

2. Entre primitivos

Para os antropólogos, as sociedades primitivas contemporâneas são parte do acervo ou repertório onde ensaiamos a nossa metodologia mais importante, a da comparação. O texto mais importante em qualquer tribo ou clã é a genealogia, quer dizer, o conhecimento da ascendência e da descendência de cada indivíduo, isto é, o seu lugar na estrutura de relações: a quem pertence e para onde deve circular, bem como quais as suas obrigações e os seus limites no acesso ao conhecimento. A genealogia reparte as pessoas por entre a natureza, onde cada grupo totémico tem por missão entender o fenómeno do qual diz fazer parte. Ao entender a genealogia, entende o lugar que o seu totem ocupa na ordem que a natureza lhe ensina, tendo em consequência um lugar de maior ou de menor preponderância na estrutura tribal ou clânica. O chefe Kiriwina, na Melanésia, domina o saber da construção da canoa e a magia para que esta não só navegue, bem como para que, quando navegar, não afunde; o chefe Maori conhece o trabalho do bosque e a reprodução dos pássaros e dos peixes dos quais vivem as tribos que governa. Ambos os chefes não possuem um conhecimento pessoal de todo o saber que precede o produto final e que é de grande complexidade: há uma divisão social do conhecimento entre variadas pessoas que lhe dizem como é: cada uma destas pessoas é treinada, separada do seu grupo biológico de origem e transferida muito nova para grupos de iniciação. No grupo de iniciação, os indivíduos são observados quanto a capacidades e habilidades para decidir qual dos vários caminhos, conforme a sua pertença totémica, poderão seguir quando adultos. Cada jovem iniciado, isto é, educado, conhece na sua totalidade a parte do saber social para onde é endereçado pelo iniciador e entende o movimento e capacidade das coisas, animadas ou não, que lhe irá caber gerir quando adulto; no seu conjunto acabam por aprender e manter a totalidade do conhecimento tribal, com a proibição estrita de comunicarem ou referirem uns aos outros o que aprenderam: o tótem tem um tabu que impede o acesso a si àqueles que não pertencem a essa parte da natureza. Ao mesmo tempo, a mitologia e a prática de trabalho permitem o acesso à justificação desta divisão, bem como ao conhecimento comum pelo qual é justificada a divisão social do saber. Os fenómenos com os quais cada indivíduo deve lidar passam a ser como que explicações que derivam da própria experimentação dos mais velhos, é dizer, são fruto do processo de vida que se prática e que se deve enfrentar: o saber reprodutivo é local, património do que o conjunto do grupo sabe e gera como conhecimento. O que lega é a capacidade de compreender a estrutura do movimento das pessoas e das coisas, para que cada indivíduo possa mobilizar as suas capacidades e habilidades aprendidas, quando se confronta com uma natureza movível e mutável, até mesmo invadida por outros conhecimentos vindos de outras experiências e que não ajudam ao domínio da vida na qual estão inseridos. Na vida primitiva, as gerações que vão nascendo aprendem os máximos e mínimos da organização da vida natural, que, com a sua própria teoria, transformaram em cultura. Cada ser humano passa a ser construtor de uma parte dela com as ideias que lhe foram transmitidas.
Esta síntese da vida primitiva é feita aqui só para exemplificar uma prática de aprendizagem, onde a ausência da escrita na vida quotidiana coloca um forte peso no desenvolvimento de estruturas mentais porque não têm depois de um texto onde ir lembrar o que fazer quando a memória se esgota ou a conjuntura muda e fornece outros contextos. O ensino existe na vida primitiva. Por exemplo, entre camponeses, no processo ritual, na medida em que a informação deve ser transmitida primeiro. Mas o ritual não traduz signos, bem como símbolos que é preciso descodificar, isto é, entender. O signo escrito, que a cultura letrada tem também introduzido entre primitivos, tem de ser decorado porque ele é fixo e o seu significado não é polivalente. A memorização de só uma alternativa é o que fecha as estruturas mentais: o ritual, como o mito, pelo contrário, é agir e decorar várias alternativas para um mesmo objectivo, várias maneiras de fazer a mesma coisa, várias versões. Não é que a escrita seja negativa e a oralidade positiva, é a escrita como fim em si que transporta nela a desvantagem do signo fixo e fechado. A aprendizagem da combinação de signos com textos relativizados é, na vida ocidental, o que o entendimento do rito e do mito que a vida primitiva tem e faz, à força, desenvolver o entendimento e varrer a subordinação ao texto para centrá-la na hierarquia, ela própria uma incógnita a ser permanentemente entendida, para ser obedecida ou não.

3. Entre portugueses

Podia também dizer que entre qualquer povo que age a partir de ideias modelares, fundamentais, onde o real está abstraído em fórmulas que digam respeito ou não à sua reprodução, deve aprender, isto é, essas fórmulas são-lhe ensinadas. O texto fundamental do saber é o grupo social ele próprio, bem como o texto escrito. O texto escrito é produto da experimentação da parte do grupo social total que chegou a entender as regras da semântica e do discurso lógico indutivo-dedutivo. A divisão social do saber está estruturada pela possibilidade universal de ter acesso às instituições que retiram a mente do saber quotidiano com o objetivo generalizado do ganhar habilitações naquilo que cada um conseguir, conforme as capacidades financeiras numa sociedade onde o valor é moeda, suas alianças ou clientelas, ou possibilidade de ter nascido em grupos domésticos produtores de ideias e já manipuladores de textos. Os novos membros da sociedade são retirados do lar para serem ensinados num mesmo conhecimento, sem aferir grandes capacidades pessoais, habilidades ou ancestrais. O objetivo do processo educativo é treinar a nova geração nas técnicas da escrita e do entendimento de grafias, em conteúdos que explicam o movimento das pessoas entre si e das coisas a partir de modelos preparados por eruditos distantes da existência e vivência dos aprendizes. A aposta é feita na escrita, leitura e cálculo como um fim em si, onde os conteúdos se perdem nas dificuldades de entender a estrutura dentro da qual se deve exprimir o conhecimento. O conteúdo é uma verdade que não se experimenta, mas que se repete depois de enunciada pela autoridade de quem diz e da letra impressa. O debate das ideias, ou a técnica de debater ideias, fica submetido à memorização do que o instrutor ensina, onde a comparação textual e o contexto não são considerados importantes. O processo educativo consiste em reproduzir fielmente o saber que os eruditos do grupo social, aqui nacionais, têm produzido. Há duas contradições importantes que ajudam a que este ensino não sirva, não seja útil para a aprendizagem que permite entender o movimento, os processos que vão formando as estruturas da memória social. A primeira diz respeito à parte do saber social ser entre nós oralmente transmitido, porque também entre nós são utilizadas as genealogias e hierarquias baseadas em capacidades e habilidades para o entendimento do trabalho social. As instituições que ensinam o saber social desconhecem este facto, já que definem o saber social como o saber cientificamente produzido. O saber oral transmite, por meio do lar e do grupo de vizinhos e parentes, as lealdades e adesões que fazem do agir uma motivação para aprender. Uma segunda contradição do processo educativo é a sobreposição de duas formas de entender: a religião, que prepara, prega e pratica quotidianamente, com ou sem fé, com ou sem igreja, a solidariedade social. Esta é uma representação simbólica da união e do trabalho entre os homens com mais de três mil anos de idade histórica no ocidente, que a recolheu das tradições e práticas bíblicas dos judeus e da crueldade mitológica grega. A fé é uma outra contradição que define o nosso processo educativo: o desenvolvimento desde o século IV da ideia de indivíduo, que, dotado de razão, é livre para optar entre alternativas consideradas iguais para todos, é a origem da teoria económica que nos governa desde o século XVII.

4. Entre gerações

O processo educativo é o comportamento que mais marca o quotidiano das nossas vidas, e é o mais quotidiano dos processos que orienta o nosso agir. Seja como ensino, seja como aprendizagem, procura sistematizar o conjunto do dia a dia de todos os seres humanos de diversas idades que coexistem. Se bem que na sociedade primitiva há variabilidades que se refletem na diversidade com que os mitos são transmitidos, o ritual com que se aprende a comunicar símbolos fixos é que permite o entendimento e a experimentação do que o ritual ensina: é o processo pedagógico do saber que se explica. Mas, nas sociedades primitivas, como na europeia rural ou proletária, ou ainda numa pequena burguesia mais monetarizada que iluminada, o registo da variabilidade é, devido à técnica oral predominante, lenta. Nas sociedades eruditas, ou nas sociedades com eruditos, onde o método indutivo-dedutivo felizmente produz saberes provados que podem sempre experimentar-se outra vez, e onde há consciência que devem experimentar-se outra vez, estão sempre a surgir novas ideias que entram em contradição com outras, anteriores ou contemporâneas, donde a variabilidade é rápida, quase vertiginosa. Os ciclos individuais de vida ficam, assim, como os ciclos locais, atados, encadeados à estrutura do tempo definido pela descoberta científica. O processo educativo, cuja união com o tempo estrutural é feita pela teoria económica que nos governa – não com a qual nos governamos, mas que nos obriga a governarmo-nos com tudo –, está afetado por uma decalagem permanente no tempo. A nova geração que aprende dos seus pais, parentes e vizinhos, está a aprender diversas experiências históricas, diversas racionalidades, no ato único de educar-se.

No caso da maior parte dos países europeus, a reforma liberal da sociedade dinamizou mudanças que a geração que ontem ensinava, aprendeu a entender de seus próprios pais, parentes e vizinhos, uma prática de adesão ao seu saber; enquanto a geração que hoje ensina, precisa aprender na concorrência e na rutura. No caso português, a experiência liberal tentou ser encapsulada durante cinquenta anos, dentro da invariância histórica de uma unidade fabricada na base de um catolicismo que tentou congelar a experiência e governar com modelos fixos de classes sociais. Por muitas décadas, uma forte estrutura hierárquica fechou a mobilidade social, texto básico em todo o grupo que permite aprender comportamentos diversos, e prendeu as gerações a um ensino subordinante a uma verdade modelar única. A força das ideias acabou com esse modelo social para entrar rapidamente, sem transição quase, à concorrência e ao eclodir de classes sociais. No entanto, ficou a teoria dentro das mentes dos seres humanos que foram ensinados na unidade e na força do hierárquico que não divide o saber social, mas que impõe o dogma. Este facto histórico tem marcado o processo educativo a todo o nível, definindo-o como sendo de ensino porque se considera a criança suspeita de incapacidade de raciocinar pela aplicação do Direito Canónico no governo da nação, assim como a teoria estruturada no processo quotidiano de vida, incapaz de produzir conhecimento. A figura do professor, semelhante à do padre, passa a ser, a continuar a ser, a da autoridade da qual tudo se recebe e à qual há que obedecer. Emerge assim a figura de um mediador entre o saber dos eruditos do grupo social e o das crianças irracionais e dos adultos incapazes de se governar e entender o movimento da história que eles quotidianamente produzem, o professor. O professor sabe para onde é que a vida vai, e, com clarividência, incute este saber na instituição escola, isto porque assim nisso acredita e porque assim mesmo ele foi ensinado, separando esse saber da cultura à qual pertence e a cujos membros tem que ensinar. Enfim, a minha ironia, ao colocar esta questão, deriva do contacto com tanto professor convicto da verdade absoluta do seu saber, de tal forma que ficam de fora do campo social. O professor, essa profissão que tem sido ensinada a substituir gerações e conjunturas, e que, como todo o adulto que precisa de certezas para viver, encontra a sua no seu papel estratégico de ponte entre a ignorância do povo das matérias geradas pela investigação de outros e a sua própria ignorância de como o conhecimento é produzido. Aliás, de todo o professor, qual é a pessoa que vem ensinar? Do ciclo da vida que o leva ao Magistério, qual o saber aprendido desde o qual ensina? Se o professor trava o processo de aprendizagem entre gerações, pela sua figura charneira entre eruditos e aprendizes, e se, não sendo investigador, não aprende ele próprio o processo do quotidiano com que a existência é teorizada e vivida, deve ter um papel no processo educativo que ele gere.

5. A infância do professor

É verdade que o professor é um inocente filho da conjuntura histórica que o formou. É verdade também que a imagem do professor, derivada da figura monacal ou goliarda, é resultado da sua possibilidade de explicar, de trabalhar com as categorias da razão. O processo de vida quotidiana que forma as crianças é vorazmente emotivo: por exemplo a chantagem derivada do mito cristão da morte de um homem que assume na sua vida o erro de todos os demais, excepto o seu, e que é a base teórica da nossa cultura ocidental; ou a hipótese de teoria cultural ocidental. O processo educativo de pais, parentes e vizinhos, é baseado na dosificação do amor e da agressividade familiar, um facto que só podemos aceitar, pelo menos contextualizar para viver em paz. O professor trabalha com outras categorias, não fabricadas por ele, mas que lhe foram incutidas como teoria de afastamento para desenvolver mentes de lógica da prova. Não é que o professor não ame, deve é racionalizar a afetividade com que ensina. E, assim, não chega ao processo de liberar os aprendizes da sujeição à sua palavra e conhecimento: primeiro, porque deve transmitir a teoria oficial de saber não relacionada com a experiência da classe social e de técnicas passíveis de entender pelos mais novos; segundo, porque todo o indivíduo que ele forma deve ser cidadão, isto é, moeda do mesmo valor. Mas, é verdade também, e isso é evidente no agir do professor, que ele é filho, principalmente, da sua infância. O professor também aprendeu a ser com os pais, parentes e vizinhos, e, a partir desse quotidiano, aprendeu então, como seus alunos hoje, as categorias racionais do conhecimento. Assim como na sociedade totémica de cada grupo entende a parte da natureza com a qual se identifica analogicamente, também na sociedade de classes a experiência de trabalho do grupo doméstico, e seus associados, explicam ao seu «rebento» a sua perceção da vida. Essa perceção da vida é difícil de mudar, como se pode apreciar em dois factos: nas metáforas com que os professores ensinam o programa preparado pelos eruditos; e na dificuldade evidente nos factos e nas estatísticas de insucesso escolar, de transmitir o conhecimento erudito à próxima geração. O professor poderia mudar o seu quotidiano refletido no seu ensino, se ele próprio fosse um investigador que reproduz o que tenta entender na sua pesquisa. Mas, na sociedade de massas em que trabalha, o seu objeto de trabalho é definido como o de um artífice da escrita, leitura e cálculo, para o qual o conteúdo é um pretexto para desenvolver estilos literários como ditado, composição, ensaio, teste. A opção de quem movimenta o processo educativo é a de ensinar, porque não lhe é dada a oportunidade de experimentar, de pesquisar sobre o processo de dinamizar a aprendizagem. Assim, a infância do professor acaba por ser a teoria que marca essa única opção com a qual fica, um quotidiano que se impõe por saber as teorias que lhe são entregues. A análise de infância do professor, de toda a conjuntura em que nasceu, é a pista que nos faz falta para entender porque é que o processo educativo é mais marcadamente ensino e não aprendizagem. Isto é, foge dos símbolos culturais que, explicitados na consciência do aluno, permitiriam a compreensão por parte dos aprendizes do racionalismo científico manipulado pelos eruditos. Se o professor não investiga da mesma maneira que os eruditos, as alternativas do processo educativo ficam fechadas e o processo educativo sujeito aos seus símbolos aprendidos no quotidiano que marca a percepção dos factos durante a sua carreira burocrática. O processo educativo, ensino e aprendizagem, tem a forte componente de ensino com os conteúdos eruditos decorados, percebidos pela experiência do ciclo de vida do indivíduo que é professor e que elabora uma pedagogia a partir da sua experiência do dia-a-dia das aulas, do afastamento cultural com a população que ensina e, paradoxalmente, da sua interpretação de pais e crianças trazida do seu próprio quotidiano pré-profissional.

6. Outras culturas

Permita-me o leitor dar um pequeno rodeio por outras terras, essas que os antropólogos estudam fora do continente europeu, para comparar e relativizar o território português. Entre os povos que nós chamamos primitivos, e que são nossos contemporâneos, o conhecimento de como se relacionar com os outros, e o lugar que cada um ocupa na estrutura social, está determinado antes de um indivíduo nascer. O primeiro conhecimento que se incute a cada nova geração é o das hierarquias sociais, que começa logo pelas históricas, quer dizer, desta terra até às dos ancestrais que desde algum lugar fora da matéria observam e intervêm nos destinos dos vivos. Todo o indivíduo Tallensi, no Gana, como Meyer Fortes estudou (1949), sabe que o seu destino não depende da sua vontade, mas da arbitrariedade da divindade que passou a ser seu antepassado. Assim como todo Tallensi sabe que em caso de guerra (Fortes, 1940), não pode matar nem ferir pessoas do deu próprio sangue que, por lei da exogamia que governa a troca matrimonial, se encontrem entre o clã com que se batalha. Os meninos Baruya, da Nova Guiné (Godelier, 1982), sabem que um dia serão separados das sua mães para irem viver com homens na casa reservada a eles; o sobrinho do chefe Kiriwina, na Melanésia (Malinowski, 1922 e 1928), está advertido desde sempre que não pode brincar sexualmente com as mulheres jovens de seu tio, sob pena de ser expulso e perder a chefia, a terra e as suas relações. Enfim, uma mulher Maori, na Nova Zelândia (Firth, 1929), quando sai da casa dos pais para ir casar a outra casa, sabe que já que seu filho voltará um dia ao lar original a reclamar a herança da mãe e trabalhá-la. Este é o segundo conhecimento que se ensina a cada membro da tribo ou clã, de que há uma estrutura dentro da qual decorre o processo de vida, e que sair dela é o risco de não ser aceite no meio dos outros. Sem dúvida que tudo isto acontece dentro de signos e símbolos que permitem o entendimento das regras do convívio, assim como sob as ideias religiosas que estabelecem que se assim não agirem serão punidos até pelos outros seres humanos. Não há diferença entre estes comportamentos e os nossos, enquanto processo, embora existam enquanto conteúdo. A diferença não é de primitivo contemporâneo para civilizado contemporâneo: a diferença é, simplesmente, entre prática e prática dos povos conforme a sua experiência histórica. A questão que se coloca é como é que se chega a conhecer, quais as maneiras, conteúdos e processos que permitem que a memória social seja incutida e respeitada pelos membros dos grupos. É verdade que o saber se transmite, mas que saber é transmitido, por que procedimento, é o que interessa analisar. A resposta geral é que é a cultura – isto é, as formas de pensar a vida material e de interação -, a tradição, os valores, a autoridade, a instituição que ensina. Eu penso que, sobretudo, e já que existe a possibilidade de discordar, o que existe é um conjunto de conceitos partilhados por todos os grupos sociais de uma mesma cultura, que se impõem como aprendizagem a cada pessoa e que forma o processo educativo ao qual se adere, porque do entendimento individual e social depende a sua subsistência, coordenada com os outros, a felicidade e a permanência entre os seus.

7. Querer aprender

Depois de ter observado o processo educativo durante vários anos, e em culturas diversas, não tenho dúvidas de que toda a criança quer aprender. Até por que ganha com isso a aprovação dos adultos que a rodeiam. Mas, mais importante que isso, porque ao aprender entende o que se passa em torno de si. O processo educativo é, em consequência, mais amplo do que é o ensino em instituições especializadas. A primeira aprendizagem que procura a criança é a de distinguir pessoas. É evidente que, desde o seu nascimento, uma criança tem uma aproximação emotiva, pelo menos à pessoa que a cria e alimenta. O que eu quero referir aqui é a aprendizagem genealógica, entre pessoas com as quais se tem relações de subordinação, direitos e obrigações, e aqueles que é preciso evitar. A distinção genealógica leva à distinção entre os parentes e os que o não são, tais como vizinhos e amigos, adultos e pares, jovens e velhos, homens e mulheres. Daí, segue-se, apenas numa ordem convencional através do crescimento, a distinção do que cada um deles faz, qual o seu trabalho, o que parece ser o que a criança quer imitar. Em qualquer cultura, o que se quer aprender é altamente diferenciado: primeiramente, porque se o grupo é altamente hierarquizado, isto é, com pouca mobilidade, a criança será e é orientada para o trabalho da pessoa que depois vai substituir; se a sociedade é menos hierarquizada, e apesar de entender principalmente o que fazem os adultos com os quais convive, prática que tem grande influência na sua memória, uma criança pode ser orientada para conhecimentos diferentes daqueles do lar. Seja como for, na aprendizagem existe sempre o limite do que o grupo sabe, conhece e pratica, o que a nível universal resulta de sociedades e povos pescadores, pastores, caçadores, industriais e outros. É na medida da compreensão do que aí é feito, que quem está a aprender ganha ou não o respeito dos restantes. Respeito que é um estímulo para querer aprender: todo o pequeno ser que mostra conhecimento e entendimento, recebe também a aprovação dos demais. Na vida quotidiana, o processo educativo é funcional à incorporação dos mais novos nos afazeres do grupo, uma incorporação interessada por parte dos adultos que estão empenhados em ter permanentemente mão-de-obra e outras inteligências que colaborem com eles. O facto de percorrer os sítios e lugares onde tudo acontece é já parte do processo. Para levar as crianças a outras atividades, é preciso contrariar as primeiras tentativas de imitar os adultos com mais importância. E é isto o que se faz nos processos de iniciação, quer entre os povos primitivos quer nos rituais dos povos denominados civilizados. Em ambos os sistemas existem, ou estão organizados, grupos de especialistas que empurram o seu candidato para este desencadear do processo mais primário de querer aprender. Saber é fazer parte dos que têm o conhecimento. Saber o quê é ser parte útil à função social da continuidade histórica. O problema de querer saber apresenta-se quando no grupo aparecem formas diferenciadas de técnicas para ensinar, e a arte de contrariar não fica nas mãos do grupo, mas nas mãos do poder que destina a sua atividade a só preparar essa política de contrariar.

8. Poder saber

Significa ser capaz de entender a contradição da sociedade em que vive, apresentada à infância como seu destino. Se me permitem ainda os leitores outra passagem pelos grupos primitivos, gostava de lembrar o caso da chefia Maori da Nova Zelândia (Firth, 1929). O chefe domina o conhecimento da natureza, das hierarquias, da distribuição do território, da origem, da guerra e da reprodução. Normalmente, ele é o filho mais velho do chefe anterior e é treinado para estes conhecimentos, mas se não consegue afastar-se das suas habilidades prediletas para entender aquela universalidade é logo destituído e substituído pelo irmão mais velho do chefe anterior. Quer dizer, tem que mostrar as capacidades que o povo espera de um condutor de povos para assegurar a sua estabilidade no cargo: a lei Maori não prevê um prazo para o seu governo. Prevê, antes, uma capacidade. Mas prevê também um treino para chefia e uma companhia e ajuda de especialistas para desempenhar o trabalho. Na vida primitiva, como na vida rural europeia, o conhecimento, embora especializado, emerge do conjunto de experiências que as tribos ou aldeias têm, e é do mesmo tipo de lógica para o conjunto: analógico, religioso e metafórico. Na sociedade ocidental, a referida contradição às aptidões pessoais, especialmente no que diz respeito às formas industrializadas de vida, provêm de ideias diferentes acerca do destino social. A divisão final do trabalho não é feita por aptidões para qual a infância é longamente preparada: a divisão é feita para as necessidades de distribuição de pessoal pelas atividades que a produção industrial precisa. Não existe uma sequência entre as bases cognitivas das crianças e o saber que é incutido para o funcionamento social. A diferença está em que um povo, como o Maori, é um conjunto de pessoas distribuídas em tribos que exercem funções miticamente atribuídas pelos diversos domínios da natureza; enquanto a sociedade industrial é uma heterogeneidade de funções díspares que requer habilidades que a própria indústria decide – seja na produção, circulação, distribuição ou consumo dos bens. A sociedade Maori tem hierarquias; o Ocidental industrial tem classes – que vieram intervir na prolongada vida rural. Poder saber, em consequência, passa por uma preparação específica e especial que a sociedade industrial determina de acordo com parâmetros diferentes dos conhecimentos analógicos, religiosos e metafóricos com que também a infância ocidental se defronta nos seus primeiros anos – quer na cidade, quer no campo. Poder saber não é a consequência de processos imitativos de adultos significantes ou de formas previstas hierarquicamente de contrariar as preferências ou aptidões pessoais. É, antes, resultado de uma lógica externa ao grupo de política educativa, que retira o aprendiz do seu meio, dos seus estímulos culturais, para o transferir para uma estrutura onde todo o conhecimento é elaborado na base da experimentação para o desenvolvimento do saber técnico. Como a criança Maori, a criança da sociedade industrial passa pelo ensino mítico, familiar e metafórico. Mas a diferença é logo afastada deste para ficar ligado ao ensino baseado em conceitos que contrariam toda a experiência da primeira infância: de querer saber. O processo educativo desloca o poder do saber, ao colocar as crianças entre o provável ou possível e o provado acerto. Acaba por não se poder saber porque a contradição entre a emoção e a razão é tão forte que limita o entendimento.

9. A emoção

Se o processo educativo começa na vinculação dos seres humanos mais novos aos que os antecedem, é um processo que fica dependente da afetividade entre as crianças e os adultos que tomam conta delas. Nas sociedades primitivas, cultiva-se a afetividade entre progenitores e filhos, e entre iniciador e iniciados. O conteúdo é a explicação dos laços sociais que unem as pessoas entre si, a devoção a quem explica, o respeito ao totem e à divisão taxonómica e hierárquica entre pessoas, envolvendo direitos e obrigações mútuas. Uma grande maioria de povos africanos explica o EL-AL Corão, que define principalmente onde deve estar colocado o coração de uma pessoa. Nos povos ocidentais, também desde há centenas de anos, como acontece no caso muçulmano, o código em que a infância é treinada é o do amar, respeitar, entender-se a si próprio. É deste ensino que os grupos domésticos retiram as suas maneiras de se relacionar; e ainda que entre eles existam rixas e agressividades, a relação afetiva acaba por ser a mais importante, a procura de harmonia e comunicação o alvo principal do que diz se faz. Isto não porque a lei mosaica, ou Kiriwina ou Tallensi, o mandem, mas porque entre estes povos, como entre judeus, ciganos, muçulmanos, cristãos e católicos, todos eles, seres humanos enfim, a capacidade de amar existe como a pedra mármore que o pensamento e a experiência histórica vêm talhando, esculpindo, dando forma e direção, hierarquia e orientação. À criança que aprende e desenvolve a capacidade humana de construir amor e entendimento, falta-lhe experiência de deslealdade e traição; ignora o valor de transação como moeda de troca: confiando em quem toma conta dela, deixando correr o fluxo da confiança e prevendo um mundo de festa. É-lhe ainda entregue ritualmente, quando está na idade estimulada de entendimento, o conhecimento, palavra a palavra, das formas de amor e estima que os seres humanos podem praticar entre si. Finalmente, a emoção é coroada pela prática específica de produzir a vida por meio do trabalho organizado na base do respeito e obediência a quem detém a autoridade: o trabalho rural, nativo, e de outras minorias mesmo ocidentais, como pescadores, operariado industrial, e a colaboração doméstica que existe em todos os grupos e classes, caracteriza-se para as crianças pela adesão. Há grupos onde parece reinar a raiva e a disputa perpétua, mas, como tenho observado, os filhos ficam mais coesos entre eles; os pais têm que ser vencidos permanentemente, mesmo quando têm que lutar para ganhar pelo grito e pela porrada aquilo que não está garantido por uma outra maneira de afetividade (a meiguice das classes burguesas como estratégia de solução). A idade da pré-iniciação é o período de treino de todas as emoções que mais tarde vão configurar o adulto. Esta etapa do processo educativo desenvolve-se ao longo da vida e repete-se nos próprios filhos que as crianças virão a ter. Exprimem-se de forma diferente nas culturas distantes e nas que estão em contacto umas com as outras.

10. A razão

Não falo da capacidade de raciocinar. Falo da faculdade que foi salientada como a mais importante entre os seres humanos, quando o ocidente generalizou a circulação da moeda de um investimento, a usura e a avareza, a criação de empréstimo, os juros e a banca (Iturra, 1991); isto é, quando o ocidente começou a passar ao cálculo de rendimentos para avaliar atividades e capacidades. Para tanto, foi necessário travar-se a solidariedade estatamental a partir a partir do séc. XVIII na Europa e dinamizar também a igualdade entre as pessoas como equivalentes monetários umas às outras. Esta é a vontade externa que, no processo educativo, vem contrariar os desenvolvimentos emotivos e orientar capacidades para conseguir trabalho. Junto as ideias de amor, desenvolveu-se as de concorrência. O processo educativo institucional orienta o conteúdo do seu ensino para a aprendizagem do trabalho produtivo como bem supremo, e à criação de valor e renda como meios de obter moeda. O moteto ocidental do ensino é de que cada pessoa é um indivíduo responsável, que pode optar entre alternativas que entende e para as quais tem recursos que maximiza (Stuart Mill, 1789). Cada uma destas palavras é um conceito indicativo da atividade dentro da instituição escolar, em clara consonância com a teoria que preside a vida social e com a economia liberal organizada a partir do séc. XVIII (Adam Smith, 1776). É verdade que a tradição greco-judaica, da qual nasce o cristianismo, fala permanentemente de livre arbítrio. No entanto, os conceitos não são equivalentes. O livre arbítrio é o discernimento que define os limites do Eu e o respeito do outro, enquanto o indivíduo define a capacidade de um membro do grupo social capaz de viver sem precisar de mais ninguém, e até em concorrência com os outros (Freud, 1989; Jung, 1954). A responsabilidade de que se fala é soma das tarefas que uma pessoa aceita nas suas mãos, mesmo à revelia dos outros e em contradição com eles. Optar define a capacidade de entender todos os processos sociais, mesmo o da criação da riqueza, e, mesmo, de criá-la. A alternativa é a capacidade de agir em várias direções diferentes, mudando o rumo quando a riqueza, isto é, a felicidade, não é encontrada. Recursos são os bens que se têm de guardar para investir e maximizar-se, são os rendimentos acrescidos através de só uma ação. Todas estas ideias têm como fundo que cada um sabe dos preços de toda atividade e que pode pagá-los. Um modelo feito a imagem e semelhança do proprietário dos bens, que precisa de pessoal preparado e formado no cálculo abstrato para que lhe emite a vida e crie assim um valor (Marx, 1863; David Ricardo, 1873). Este é o modelo que se explica no processo educativo institucional. Finalmente cheguei ao que está a ser ensinado na instituição escolar e praticado na vida social. É evidente que a instituição não pode deixar de ensinar o que se espera que a sociedade seja. O que é duvidoso é que a sociedade ocidental esteja constituída por esse tipo de seres sem identidades nem lealdades, bem como é duvidoso de que um modelo assim pensado tenha sucesso. Porque será que no final da glorificação do individualismo as antigas Nações-Estado passem as ser outra vez regiões federadas? Seria esta glorificação do individualismo a forma de se defender de um processo educativo unificante de concorrência que existe mesmo entre seres da mesma genealogia?

11. A erudição

É isto que se pensa que seja o processo educativo: a quantidade de informação universal que uma pessoa tem. A erudição atual é uma consequência do Enciclopedismo dos sécs. XVII e XVIII, dessa rebeldia de intelectuais contra o dogma: não contra o conteúdo do dogma, mas contra o saber porque uma autoridade diz que é assim e não admite contra-argumento. A erudição é a cultura dividida em modelos e parcelas que sistematizam um domínio da interpretação e transformação dos factos sociais e que é logo entregue, com a sua prova, a outros; a transferência é feita a, pelo menos, dois tipos de pessoas: os que vão continuar a investigar esse campo e os que vão reproduzir o conteúdo aos neófitos. A cultura erudita é resultado da experimentação e, por meio dos textos em que se guarda o saber, é entregue às gerações de crianças e jovens como uma verdade, contra a sua argumentação. A função da escola para a infância e juventude, desde o começo até ao fim, é entregar as descobertas dos outros como a interpretação fiel e verdadeira do real; raramente os professores ousam investigar com os seus alunos, como deveria ser. A questão aqui não é criticar este tipo de formação; a questão é debater a estrutura, dentro da qual é formada o saber e no qual a mente é estruturada, entre a escola e lar. Normalmente o conhecimento é lecionado aos estudantes para ser decorado, e a quantidade aprendida é avaliada como positiva ou não: ai, a cultura erudita, que foi essencialmente dialética e antidogmática, passa a ser verdade que substitui as outras. Como consequência, a mente esta preparada para aceitar a verdade que uma autoridade diz, por parecer ser quem sabe, uma mente que na formação emotiva não só aderiu a princípios, bem como estruturou o pensamento para lhe aderir. Aliás, quem estuda está a preparar-se para viver numa sociedade concorrencial; a maior quantidade de saber e a maior adesão ajudam o reproduzir a receita do sucesso preconizado por quem se tem à frente. A vida para o estudante passa a ser um conjunto de textos contraditórios da experiência de definem como a sociedade há-de ser e que mostra o que foi, que entrega uma ideia definitiva do corpo, da hierarquia da sociedade, da ordem e outras ideias. Retira-se do campo de aprendizagem a fluidez do erudito, a fluidez da descoberta, a reprodução da fórmula para que quem é ensinado procure por si. A fraqueza do ensino não está no conteúdo, mas na forma como se ensina e no uso dos textos. Seria talvez necessário introduzir uma distinção na pedagogia: dar informação e logo fornecer metodologia para comparar e descobrir. O que consegue a erudição dos reputados formalmente sábios é uma universalidade de conceitos espalhados de forma igual pelas mentes desiguais dos estudantes. Isto é, uma tentativa de impor um tipo igual de conhecimentos entre todos, que sirva de base à construção de um convívio social uniformizado mais fácil de governar. No entanto, se o processo educativo tem emoção e há empatias dentro da sua parte institucional, a aprendizagem só será possível se, quem explica conseguir reconstituir na mente do estudante os sentimentos com que, quem ensina, aprendeu outras formas de convívio, antes de passar à abstração racional letrada e teórica do dito processo. Os conteúdos transformarão, ou não, a ligação emotiva e racional a que se consiga chegar entre professor e estudante. Este não é o aspeto que mais interessa de todo o processo educativo. Se a emoção e a razão estão juntas, esta última deve incluir a capacidade da instituição de entregar os elementos para a concorrência. Se muitos ficam pelo caminho é devido a que o apetite individual não se consegue impor à coesão social como identidade para cada estudante.

12. Os universais e a multicultura

Emoção, razão e erudição acontecem, ou são percebidos, de forma diferente dentro de uma mesma turma devido as origens heterogéneas dos alunos, como grupo interativo social. Entre os primitivos contemporâneos que os antropólogos estudaram, quer as escolas autóctones quer as iniciações rituais são diferenciadas dos conteúdos do ensino oficial, conforme a hierarquia que, genealogicamente, virá ocupar a criança. Entre os ocidentais (Stoer e Araújo, 1993), a grande massa da população está subdividida em meninos e meninas com experiência diversificada de classe social e de pertença a etnias. Os países da Europa têm recebido dentro de si um conjunto de imigrantes vindos das ex-colónias, ou têm aparecido nas aulas grupos sociais que, até a pouco, em consequência da sua origem, não assistiam à escola ou eram em tão pequeno número que não se dava por isso. Se a formação é, como já referi antes, de uma intensidade marcante, as formas explicativas do real simplesmente não deixam marca se a cultura de origem não é trazida também à aula. A questão é que uma turma heterogénea tem um conjunto de estereótipos à volta. O primeiro, o que cada membro pensa de si como eu, conforme a sua aprendizagem infantil. O segundo, é o que o mesmo sujeito pensa sobre os outros e se os aceita ou não. O terceiro, é o que os outros pensam do Eu. E, finalmente, o que professor pensa de tudo isto. A verdade unificadora não é facilmente conseguida, não passa a existir nas mentes, porque há outras mais forte que a impedem. Quem aparece na escola autóctone primitiva, ou na oficial ocidental, não é o pequeno futuro indivíduo, é a sua genealogia. E não só quem vai à escola: é também a autoridade de quem aí o enviou, que não é a da lei, mas a concorrência social. Quem está na escola é a expectativa do que cada um virá a ser conforme o seu contexto etno-sócio-cultural. Mesmo que no fim venham todos tapar buracos nas ruas, não só os Cabo-Verdianos bem como o resto da respeitável turma branca portuguesa, francesa, ou britânica natural das ilhas, uma hierarquia esperada que esta sempre presente. Quando se inicia a procura da integração na vida ativa, o etnocentrismo mantém a divisão por grupos conforme a experiência cultural e não a solidariedade institucional escolar. O processo educativo ensina de forma clara a universalidade da cultura erudita é possível porque nasceu dentro de um mesmo sistema de comunicação, o cristianismo, e dentro de um mesmo pensamento reprodutivo, o liberalismo monetarista. Os não eruditos têm uma cultura, já que os universais se encontram dentro do seu próprio grupo de classe e de etnia. A questão é pô-los a falar juntos, o que só me parece possível se o ensino académico começar por ter como disciplina obrigatória o Processo Educativo em todas as Universidades; e se, muito cedo, existir a cadeira obrigatória de Culturas Comparadas. Conhecendo, no entanto, a força do etnocentrismo e a fraqueza do esquecido relativismo, confesso que não me parece possível a compreensão mútua entre eruditos e aprendizes. A cultura dominante é da classe burguesa que, para se reproduzir, precisa também destes meandros. Tudo o que disse não foi no sentido de aumentar o pessimismo que muitos sentimos perante as Políticas Educativas, mais sim para ensaiar ideias acerca do processo educativo.

domingo, 14 de abril de 2013

A comunicação professor-aluno: Diálogos improváveis

João, quando é que começas a fazer o trabalho?
Setôra, tou a pensar. Podia fazer assim uma cena, assim tipo ... sei lá.
Não percebo.
Setôra a cena era fixe, fazia assim, tipo com cores.
Continuo a não perceber bem o que queres fazer.
Setôra, também ainda tou a pensar, mas podia fazer assim tipo com muitas cores, ficava bacano e até fazia depressa.
Mas fazias o quê João.
Setôra, estou a pensar, ya, podia fazer assim tipo assim como aquela cena que uma vez a Setôra mostrou na aula que um bacano estrangeiro tinha feito, a Setôra mostrou um no computador, tava fixe.
Não me lembro do que se tratava.
Então, a Setôra é que mostrou aquela cena, devia lembrar-se, era assim tipo … sei lá, mas era fixe.
João, não consigo mesmo entender-te.
É sempre assim, ninguém me entende. Fica assim uma cena tipo sei lá, depois dizem que a gente não fala.

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