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sábado, 12 de janeiro de 2013

Vida de cão


Parece que já circula uma petição para salvar do abate o “Zico”, o cão que matou uma criança de ano e e meio em Beja, e “todos os outros Zicos espalhados pelo país”. Segundo o Público, os 15 mil subscritores acreditam que o Zico “merece uma segunda oportunidade”, embora não digam para quê. E que “um cão que nunca fez mal durante oito anos e atacou é porque teve algum motivo”.
Não podia estar mais de acordo: todos os cães merecem uma segunda oportunidade. Se até o Sócrates, que era um vago “animal feroz”, teve segunda maioria para levar o país à falência, como negar o mesmo direito a um inocente pitbull que se limitou a desfazer o crânio de uma perversa cria de outra espécie que tropeçou e lhe caiu em cima? Só respeitando os direito caninos, muito especialmente o de mastigar criancinhas, seremos uma sociedade mais humana.
Aliás, anda toda a gente preocupada com a igualdade de oportunidades, e os pobrezinhos, e o Estado social, e essas coisas. E a dualidade de oportunidades dos “Zicos espalhados pelo país”? Quem é que se preocupa com isso, hã?
O Zico nunca fez mal a ninguém em oito anos – e conheço muitos putos que fazem bué mal em ano e meio. O Zico vem de uma família desestruturada (a mãe era uma cadela). O Zico é arraçado e sentiu no pêlo o sentimento de exclusão de quem nasce de uma união inter-racial. O Zico cresceu entre dois mundos de cão, sem saber quem era, sem identidade. Foi uma sorte não ter ido parar à Al-Qaeda. O Zico nunca teve os luxos de um qualquer Labrador da Lapa. Nunca ninguém lhe cantou ternamente o “Atirei o pau ao gato”. O Zico vivia num quarto escuro que faz lembrar a caverna de Platão. Não o devemos julgar, devemos julgar as estruturas de opressão que o levaram a revoltar-se. Sim, “há que investigar o que causou a reacção do cão”. Nada de preconceitos antropocêntricos como essa falácia das raças perigosas. Até porque o Zico é só meio pittbull. A culpa é do colonialismo. Investigue-se, pois. Proponho uma comissão parlamentar. Camarate e do BPN já estão muito vistos.
E temos, sem dúvida alguma, que “optar pela reabilitação/treino do cão!”, com ponto de exclamação e tudo. O ponto de exclamação é um forte argumento. No fundo, como dizia o Padre Américo, não há pittbulls maus. Basta tirá-los da rua, ou do quarto escuro, e pô-los na Casa Pia para que se tornem bons. Mas, primeiro, mandem embora as crianças. São uns monstrinhos terríveis.

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