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sexta-feira, 3 de maio de 2013

O discurso dominante

A grande maioria dos comentadores e dos jornalistas criticam hoje veementemente as medidas financeiras que o primeiro-ministro se prepara para anunciar, parte das quais foram hoje objecto de fugas de informação seleccionadas e noticiadas ao longo do dia de ontem.

As críticas não se limitam porém ao governo e aos cortes que ele se prepara para fazer. Afirmam, com a mesma convicção, que o único partido que poderia ser alternativa de governo – o PS – não constitui verdadeiramente uma alternativa. Aliás, qualquer proposta que venha do PS é imediatamente classificada como demagógica ou irrealista por jornalistas (estes através de fórmulas do tipo fact-checking) e por políticos-comentadores .

Ora, a crítica ao governo e a afirmação sistemática e paralela de que o PS (ou qualquer dos outros partidos) não constitui alternativa, mostram que ao imporem enquadramentos para definir e construir a realidade social os média limitam a discussão, impedem a compreensão dos factos e o acesso de vozes alternativas.

As notícias e os debates sobre a crise económica e financeira nacional e internacional têm em grande parte contribuído para esconder muitas das suas verdadeiras causas, isto é, limitam o conhecimento, “cegando” a realidade em vez de a revelarem.

As notícias sobre a crise apoiam-se nas estruturas e nas fontes institucionais ao mesmo tempo que as reproduzem. Os procedimentos profissionais que levam os jornalistas a solicitarem a comentadores e a políticos profissionais reacções e comentários aos acontecimentos, mais não fazem do que legitimarem o status quo.

Em suma: os enquadramentos jornalísticos das notícias sobre a crise produzem e ao mesmo tempo limitam o seu significado, criando a convicção de que “o governo pode ser mau mas a oposição não é melhor”. É este o discurso dominante sobre a crise que os média reproduzem e alimentam.

Fonte: Vai e Vem

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