Pub

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Cinema Paraíso: Crítica - Zero Dark Thirty (2012)


Realizado por Kathryn Bigelow
Com Jessica Chastain, Joel Edgerton, Mark Strong

Se não soubéssemos melhor, quase poderíamos encarar este “Zero Dark Thirty” como uma sequela do oscarizado “The Hurt Locker”. Os dois filmes abordam conflitos diferentes, é certo. Mas é como se fossem duas faces da mesma moeda, já que o contexto histórico é o mesmo e Kathryn Bigelow filma a captura de Osama bin Laden com a crueza e o sentido de realismo que tantos louvores trouxeram a “The Hurt Locker”. Claro que, no entanto, há diferenças assinaláveis entre ambos. O filme de 2008 afirmava-se como um ensaio sobre a dependência que a guerra pode causar no espírito humano e possuía uma palete de cores quentes e aguerridas, com os amarelos e os laranjas da fotografia de Barry Ackroyd a inserirem-nos por completo nas terras áridas do Iraque. “Zero Dark Thirty”, por outro lado, é mais negro que carvão e assume-se como um estudo sobre a obsessão e a futilidade da guerra. As personagens de Jessica Chastain e de Jeremy Renner partilham alguns atributos nucleares, como a ausência de vida pessoal e a dedicação excessiva a um trabalho deveras invulgar. Porém, Chastain vence esse duelo particular, já que a sua personagem atinge níveis de profundidade bem mais elevados, desabrochando ultimamente como uma protagonista mais interessante e de leitura mais espinhosa. “Zero Dark Thirty” emerge assim como um filme mais completo e consistente do que “The Hurt Locker”, merecendo por inteiro as 5 nomeações para os Óscares deste ano. No entanto, curiosamente, Bigelow foi deixada de fora quando mais justificava a nomeação e o filme dificilmente sairá vencedor da cerimónia de 24 de fevereiro, apesar de se afirmar como um dos melhores até ao momento.


Desta feita, Bigelow leva-nos a acompanhar a longa caminhada de uma agente da CIA até à noite em que finalmente captura o inimigo número um da América. A película começa com a recordação dos arrepiantes eventos que marcaram o dia 11 de setembro de 2001, no sentido de contextualizar a caça ao homem que ocupa as duas horas e meia de filme. Depois disso, Maya (Jessica Chastain num registo nunca antes visto) entra em cena e não mais abandona o espectador. Apesar de ser ainda muito jovem e de possuir uma aparência frágil, Maya demonstra talentos invulgares no trabalho desenvolvido em Washington e, como prémio envenenado, vê-se prontamente destacada para o cerne da ação, onde depressa integra a equipa de investigação que trabalha em território inimigo com o intuito de descobrir o paradeiro do líder da Al-Qaeda e seus principais aliados. Os primeiros tempos revelam-se difíceis e nenhuma pista parece levar a mais e melhores informações. Contudo, numa altura em que muitos já nem pensavam em bin Laden por o considerarem um alvo inatingível, Maya tem uma epifania e descobre uma residência no Paquistão que poderá ocultar o mais precioso dos tesouros. Uma equipa de militares bem treinados forma-se então nas barbas do inimigo… e o resto é História.


“Zero Dark Thirty” assume-se claramente como um triunfo técnico e artístico. Tal como “The Hurt Locker”, é um filme pesado e de visionamento difícil, podendo não agradar a todos os públicos. Mas ao contrário de “The Hurt Locker”, nunca se torna excessivamente moroso, nunca perde o propósito de vista, nunca se torna inverosímil e nunca deixa de manter o espectador colado ao assento. É talvez o filme de guerra moderna mais bem concebido desde “Saving Private Ryan”, embora não possua sequências de batalha extraordinárias e rios de sangue a salpicarem a câmara. O realismo impera por completo do início até ao fim e as personagens jamais se tornam gratuitas ou desmioladas, dando a impressão de se estar a visionar um documentário corajoso. Bigelow põe a nu todos os seus dotes de cineasta, demonstrando sentir-se mais do que à vontade neste tipo de cenários e narrativas bélicas. A sequência final do assalto à fortaleza de Bin Laden é de um realismo excecional, usando o negrume do ambiente em redor para dar vida a uma das cenas mais tensas de 2012. Para além disso, Bigelow não hesita no momento de espetar a faca na própria América, afastando-se do moralismo barato e do patriotismo imbecil para expor os procedimentos reais de uma nação que consegue ser tão bárbara como qualquer outra em tempos de guerra fria. Talvez por isso tenha ficado de fora da corrida ao Óscar de Melhor Realizador e talvez por isso o filme esteja a ser alvo de alguns ataques ferozes por parte do público norte-americano. Mas a realidade é mesmo esta e é apenas de louvar o facto de ainda haver quem tenha a coragem de mostrar as coisas como elas são, em vez de se limitar a atirar poeira para os olhos das mentes impressionáveis.

Aliando o primor técnico a uma sensibilidade fora do comum, Bigelow filma também a sua protagonista de uma maneira que a deixa completamente vulnerável (no bom sentido), dando o papel de uma vida a Jessica Chastain e oferecendo ao grande público uma das melhores personagens do ano transato. Uma personagem que tanto consegue ser frágil como implacável. Uma personagem que tanto dá um murro na mesa quando o tempo urge como solta uma lágrima de perdição no momento mais inesperado de todos. Chastain será, porventura, a grande rival de Emmanuelle Riva na noite de 24 de fevereiro, embora a estatueta dourada não deva escapar à francesa octogenária. Resumido em poucas palavras, “Zero Dark Thirty” desponta então como um filme de visionamento obrigatório para quem desejar conhecer um pouco melhor o mundo em que vive atualmente, despindo-se de preconceitos e de patriotismos obtusos para ensaiar um estudo sobre a obsessão levada ao extremo e suas naturais consequências.

Nenhum comentário:

Postar um comentário