sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Regiões em Números 2015/2016 (DGEEC)

Nos últimos dez anos vimos diminuir o número de alunos, o número de docentes, o número de estabelecimentos de ensino, as taxas de retenção e desistência, o rácio alunos com computador e o rácio aluno com computado com internet.

Vimos aumentar a taxa de escolarização em quase todos os domínios.


A DGEEC disponibilizou a publicação “Regiões em Números 2015/2016”, composta por 5 volumes – Norte, Centro, Área Metropolitana de Lisboa, Alentejo e Algarve. Poderá encontrar informação estatística oficial, desagregada por NUTS e municípios, referente às diferentes ofertas de educação e formação, compreendendo a educação pré-escolar e os ensinos básico e secundário:

  • Regiões em Números 2015/2016 – Retrato Geral [XLSX] [ODS]
  • Regiões em Números 2015/2016 – Região Norte [PDF] [XLSX] [ODS]
  • Regiões em Números 2015/2016 – Região Centro [PDF] [XLSX] [ODS]
  • Regiões em Números 2015/2016 – Região Área Metropolitana de Lisboa [PDF] [XLSX] [ODS]
  • Regiões em Números 2015/2016 – Região Alentejo [PDF] [XLSX] [ODS]
  • Regiões em Números 2015/2016 – Região Algarve [PDF] [XLSX] [ODS] 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Lágrimas Nacionais


Meu querido senhor, não o conheço mas atrevo-me a escrever-lhe estas palavras tão sentidas quanto esse olhar que a todos nos abraça! Choro ao escrever-lhe, sabia? Porque vejo nesse olhar um vazio total de esperança, a esperança que um dia, com o vosso suor, todos vocês, que trabalharam desde que começaram a andar, ofereceram às gerações vindouras, as mesmas gerações que hoje vos tratam como lixo! Choro, choro muito, porque sei quão isolados e abandonados vocês vivem, como se fossem lixo que envergonha os engravatados que nunca trabalharam seriamente na vida! Choro, porque sei que muitos de vós morrem entre suspiros de lamentos e gritos de socorro, sem que nenhum de nós vos tente sequer ouvir! Choro, porque o que hoje ficou queimado não foi apenas os lares simples que vos protegiam da chuva, o que hoje ficou a descoberto foi o horror social em que milhões de vocês, no Interior, vivem diariamente! Choro, porque sei que muitos de vós jamais tiveram um dia de férias, cultivando solos debaixo de sol, chuva e até granizo, tratando de animais que nos alimentavam no dia a dia, tratando da Terra como quem trata de um filho, a mesma Terra que hoje vos utiliza para gritar ao mundo que está com pena do que vos aconteceu! Como é possível não chorar perante a ternura de um olhar vazio de vida!? Como é possível não chorar perante a simplicidade de uma camisa suja que deveria cobrir de vergonha quem se apresenta de gravata e em viaturas que custam mais do que a construção de uma casa? Como português que nasceu nos tempos "modernos", que usa e abusa dos luxos construídos com o dinheiro do vosso suor, não posso deixar de, a chorar, vos pedir perdão! Desculpem! Perdoem-nos por todo o mal que vos estamos a fazer! Desculpem a nossa apatia perante tudo isto! Perdão! Mil vezes vezes perdão! Um país justo e de pessoas de bem jamais vos abandonaria à vossa sorte! Poderia aqui dizer que vossemecês deveriam ser mais pró-activos, mas isso seria não ter vergolha alguma perante quem trabalhou uma vida inteira e, de idade já avançada, merecia muito mais que respeito, merecia consideração, dedicação e paixão. Desculpe-me meu rico senhor, em meu nome, em nome de um país que amo porque vocês mo fizeram amar, mas não este país que nos querem impingir, um país sem valores, sem respeito e sem amor por quem tanto deu à pátria de todos nós. Perdão meu rico senhor! Como eu gostaria de o conhecer, abraçar e ouvir, e dar um pouco de mim para o confortar. Que a vida nos junte, é o meu desejo.

Soube agora que o Sr. Francisco faz hoje 82 anos.
Do fundo do coração, em nome do meio milhão de pessoas que hoje segue a página Aldeias de Portugal:
PARABÉNS SR. FRANCISCO.

Texto: Paulo Costa (Retirado do Facebook - Aldeias de Portugal)
Foto: Adriano Miranda - Jornal Público

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ainda os incêndios! Outra vez os incêndios...


Quando os responsáveis se preparavam para encerrar a época oficial dos fogos, eis que a conjugação da habitual mão criminosa ou negligente com os factores de risco máximo de incêndio – mais de 30º de temperatura, menos de 30% de humidade relativa, ventos a mais de 30km/h – varreu novamente o país de labaredas.

A crescente gravidade destes fenómenos, que não encontra paralelo em qualquer outro país europeu, deveria levar a repensar seriamente as estruturas e o modelo que ao longo destes anos foi criado para a prevenção e combate aos incêndios e a protecção das populações vítimas dos fogos.

Além dos terrenos florestais e agrícolas, das casas e dos automóveis ardidos, o último balanço, quando escrevo estas linhas, vai já em 41 mortos e cerca de 60 feridos. Isto é intolerável. Até quando terá de continuar a morrer gente, para que se perceba que não podemos deixar que estas tragédias, como parecia sugerir ontem o primeiro-ministro, passem a fazer parte do novo normal?

De facto, a protecção civil cresceu em cargos, responsabilidades e dinheiro para gastar. Houve jobs for the boys e também para gente experiente e competente. As câmaras viram as suas competências acrescidas a este nível, profissionalizaram-se bombeiros, investiu-se na formação, fizeram-se contratos milionários em torno de meios aéreos e outros equipamentos dispendiosos de combate ao fogo e num caprichoso sistema de comunicação de emergência que nas horas críticas deixa de funcionar. Mas o que se constata é que tudo isto falha clamorosamente de cada vez que temos um verão mais seco e prolongado.

Não se pede a quem coordena todas estas coisas que faça milagres, e sabemos que algumas situações extremas serão, pela sua natureza, incontroláveis. Contudo, o que se passou ontem nalgumas estradas portuguesas, por exemplo, parece demonstrar que se aprendeu muito pouco com o incêndio de Pedrógão.

Só por sorte não houve ontem à noite, no IP3, uma catástrofe ainda pior do que a de há quatro meses, quando vários automóveis e autocarros cheios de passageiros ficaram cercados pelas chamas.


A juntar a tudo isto, há declarações de governantes que são minimamente infelizes e que demonstram o desnorte completo e incompetência dos mesmos para lidar com estes tipo de situações.

É urgente que haja responsabilidades políticas! Depois deste ano, o combate aos incêndios e a proteção e ordenamento da floresta têm que tomar outro rumo, sob pena de voltar a suceder o esquecimento do assunto após a época de incêndios.

Impotentes perante o fogo, acabamos todos a pedir que chova!

Adaptado de: Escola Portuguesa

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

A mercantilização da Educação: o dinheiro não fala às Humanidades

A cada novo ano letivo é o vigor democrático que é questionado, ao ser posta em causa uma educação plena para a cidadania.

Carlos Alves

A educação liberal visa proporcionar um conjunto de competências intelectuais e práticas, instigadoras do desenvolvimento do pensamento analítico crítico, competências ao nível da escrita e oralidade, enquadramento das matérias em contextos históricos e multiculturais, valorizando a autonomia e capacidade de trabalhar em equipa, desempenhar papéis cívicos e aplicação do conhecimento na resolução de problemas num mundo em mudança, no qual tem uma atitude valorizadora do papel da cidadania. Ou seja, competências transversais a todas as profissões.

Trump foi, recentemente, a voz mais audível de um notório ressentimento cultural que desvaloriza as áreas do conhecimento, tradicionalmente identificadas como essenciais numa educação liberal em simultâneo a uma ascensão da ideologia STEM (science, technology, engineering, math). Esta falsa obrigatoriedade de escolha instiga os governos a subfinanciar as humanidades e ciências sociais favorecendo as áreas associadas à ciência, tecnologia, engenharias e matemática ou áreas profissionais.

Nas escolas portuguesas, a cada início de um novo ano letivo, deparamo-nos com as turmas de Ciências e Economia assoberbadas com alunos motivados pela ideia de saídas profissionais mais facilitadas, publicitada pelo pensamento tecnocrático e neoliberal do money talks, centrado no PIB, que alastrou à educação.

Paralelamente, o curso de Línguas e Humanidades e o de Científico-Humanísticos de Artes Visuais perdem importância e reconhecimento. Nesta mercantilização da educação insuflada por rankings com guerra de matrículas entre as escolas mais bem posicionadas, o dinheiro não fala às humanidades, reféns da valorização económica, cada vez mais definidas como pouco vantajosas, alastrando a incompreensão da sua utilidade e relevância, ante políticas educativas, da ciência e da cultura servis ao utilitarismo neoliberal.

As consequências deste downsize a que estão votadas as humanidades estão espelhadas na carga horária das disciplinas abrangidas por estas nas nossas escolas. A avidez pelos cursos de Ciências e Tecnologias e Ciências Socioeconómicas faz com que, possibilitada pela autonomia das escolas, haja uma transferência de recursos para estas áreas, nomeadamente na distribuição de tempos letivos por disciplina. Assim, a nível nacional regista-se na carga horária da matriz curricular do 2.º ciclo do ensino básico a atribuição de um mínimo de 250 minutos semanais às disciplinas de Português e Matemática individualmente, a mesma carga horária que Inglês e História e Geografia de Portugal partilham entre si. A Educação Artística e Tecnológica (Educação Visual, Educação Musical e Educação Tecnológica) conta com 270 minutos, ficando a distribuição ao critério da escola, sendo que obrigatoriamente 90 minutos são para Educação Visual, podendo verificar-se o caso de apenas 45 minutos estarem disponíveis para Educação Musical no 5.º ano.

O ensino artístico sai, assim, penalizado. Para um professor de música ter um horário completo necessita de um número exagerado de turmas e, face à escassez de tempos letivos disponibilizados, os objetivos educativos/pedagógicos são postos em causa.

Ao abrigo da sua autonomia e do seu regulamento interno, a escola pode definir disciplinas cujo resultado levará à retenção ou transição do aluno, independentemente do número de níveis inferiores a três. Como exemplo, um aluno com nível 2 a Português e Matemática poderá reprovar se a escola assim o definir, ao passo que outro aluno, na mesma turma, com nível 2 a Português e Inglês transitará de ano. Essa mesma autonomia permite a criação de critérios específicos que definem a integração ou não do aluno num Quadro de Honra ou Mérito (prática comum nas escolas), espelhando uma discriminação de disciplinas em detrimento de outras, em que se regista o fato de a Matemática sair exageradamente valorizada e ser elemento impeditivo para a integração se o aluno tiver nível 3 (e não negativa!) a Matemática, mesmo que tenha obtido nível 5 a todas as outras disciplinas. A situação insólita (e existente) incentiva uma cultura baseada na convicção de que há disciplinas mais importantes do que outras, para além do embaraço indefensável de dar azo a casos em que alunos com média elevada ficam excluídos do Quadro de Honra relativamente a alunos com nível 4 a Matemática (mas média inferior aos primeiros), bastando aos primeiros ter um nível 3 na disciplina de Matemática para se verem arredados dessa possibilidade de integração. A média é, assim, preterida com base na valorização excessiva de uma disciplina.

A carga horária da matriz curricular do 3.º ciclo do ensino básico prevê um total mínimo de 200 minutos quer para Matemática quer para Português, atribuindo às disciplinas de Línguas Estrangeiras em conjunto 270 minutos e a Geografia e História 200 minutos no 7.º e 8.º anos e 250 no 9.º ano.

Penalizado continua o ensino das artes em geral, deixando de existir Educação Musical no 3.º ciclo e contando a área de Expressões e Tecnologias (TIC, Educação Visual, oferta de escola e Educação Física) com um total de 300 minutos no 7.º e 8.º anos e 250 no 9.º ano.

No panorama citado salvaguarda-se nesta análise o caso do Português (disciplina obrigatória em todos os cursos até ao 12.º ano), cuja carga horária sofre, porém, um decréscimo no ensino secundário.

As lacunas das escolas ao nível das línguas e aprendizagem da música são supridas, com sacrifício familiar, pelo recurso a institutos e escolas de línguas e a escolas de música e conservatórios regionais.

Esta sobrevalorização tem contribuído, ainda, para alimentar o comércio paralelo e sinuoso das explicações (com especial ênfase para a Matemática) que ajudam a ultrapassar o calvário dos testes sobredimensionados das escolas e dos exames (à data de redação deste artigo discute-se um exame único de Matemática) associados aos cursos mais procurados pelos alunos, nomeadamente Medicina, Gestão, Informática, Economia. Com todos estes custos acrescidos suportados pelas famílias, derivados destas opções, é a própria noção de gratuitidade do ensino que fica posta em causa.

Por outro lado, a desvalorização das humanidades tem como corolário a diminuição do seu peso relativo, conduzindo esta situação à redução do número de graduados e a um decréscimo do financiamento público direcionado para estas, fruto da dificuldade de justificação da pertinência das investigações face à perda de preponderância.

A eliminação de departamentos universitários, decréscimo de salários, diminuição de recursos destinados a bibliotecas, alteração de práticas de comunicação específicas e a aplicação de modelos de avaliação da atividade científica desadequados relativamente à especificidade das Humanidades são também consequências visíveis.

Autores como Martha C. Nussbaum alertam, ainda, para esta desvalorização de que resulta o menosprezo das qualidades cidadãs imprescindíveis para a democracia em si. Em Cultivating Humanity: A Classical Defense of Reform in Liberal Education (1997) argumenta que o propósito da educação liberal é cultivar a humanidade, ou seja, educar para a cidadania, e em Not For Profit: Why Democracy Needs the Humanities (2010) denuncia a “crise silenciosa” a que as nações estão votadas ao desvalorizarem competências necessárias para a vitalidade democrática, provenientes das humanidades, em virtude da sua “sede pelo lucro nacional”.

Em Portugal, a “aposta” em disciplinas como Educação para a Cidadania e Debate e Argumentação (por vezes com um tempo letivo semanal) funciona como um paliativo ou remendo para o desinvestimento na História, Geografia, Filosofia, Literatura, formadoras de cidadãos conscientes, críticos e participativos essenciais para a democracia.

A cada novo ano letivo é o vigor democrático que é questionado, ao ser posta em causa uma educação plena para a cidadania, possibilitada pelo estudo das humanidades, que proporcione aos alunos o exercício do pensamento crítico, estimule a coragem e a vontade de examinar, refletir, discutir, argumentar sem indulgências pela autoridade ou tradição, a empatia pelo outro e de conceber os desígnios nacionais como constitutivos de uma realidade global.

É por isso que a memorização das artes e humanidades é um luxo só para milionários.


Fonte: Público

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

As ferramentas do Prof-Folio: Analisador Morfológico

Trazemos hoje aqui, uma ferramenta que poderá ser útil em várias circunstâncias: Um analisador morfológico online.

Aceda aqui: WebJspell

domingo, 8 de outubro de 2017

Dos resultados das Provas de Aferição (2)


Os resultados, aparentemente desastrosos, das provas de aferição – chegou a haver, nalguns parâmetros aferidos, percentagens superiores a 80% de alunos que não conseguiram fazer o que lhes era pedido – estão a suscitar diferentes reacções da parte dos diversos intervenientes e interessados nestas coisas. Interessa ver é se bate a bota com a perdigota, ou seja, se aquilo que dizem é o resultado de uma análise e reflexão serena, com base nos resultados e nas condicionantes destas provas, ou é apenas o engatilhar de um discurso que já estava preparado para o efeito.

Comecemos pelo ME, onde o secretário de Estado João Costa se confessa preocupado com o facto de tão grande número de alunos não estar a aprender “com qualidade”, desfiando em seguida o rol de medidas que pretende implementar. E que são, regra geral, mais do mesmo:

Segundo João Costa, a Português será feito um estudo do impacto dos projetos dirigidos ao desenvolvimento da leitura e da escrita nos 2.º e 8.º ano, com o alargamento da formação de professores do 1.º ciclo, com a atualização e a reedição dos materiais produzidos pelo Programa Nacional do Ensino do Português.

No domínio da Matemática, adiantou, e para os 2.º e 5º anos, o Ministério vai acompanhar as escolas com desempenhos mais frágeis, alargar a formação de professores do 1.º ciclo, criar uma equipa de acompanhamento do currículo nesta área específica e atualizar e reeditar materiais de apoio.

O Ministério da Educação assume uma aposta na formação de professores uma vez que esta é, em todos os anos de escolaridade em análise, uma das respostas apresentadas para combater as fragilidades assim como a elaboração de materiais em colaboração com universidades e escolas superiores.

Esta formação, explicou o secretário de Estado da Educação, será em formato de oficinas com uma grande componente prática.

Em matéria de expressões artísticas, no 2.º ano de escolaridade, o secretário de Estado anunciou a expansão do Programa de Educação Estética e Artística (DGE-PEEA), nomeadamente na sua vertente de formação docente na área da educação artística, assim como o desenvolvimento de projetos de parceria entre o Ministério da Educação e o Ministério da Cultura, tais como o alargamento do projeto-piloto “Residências Artísticas”.

No que se refere à História e Geografia de Portugal no 5º ano, os resultados das provas revelam a necessidade de monitorizar as aprendizagens essenciais, e no que se refere às Ciências Naturais no 5.º ano e Ciências Naturais e Físico-Química do 8.º ano o Ministério da Educação anuncia o reinvestimento no ensino experimental, nomeadamente através dos Clubes Ciência Viva.

Do lado dos representantes dos pais, a Confap insiste numa linha que também já não é nova: rejeitam a escola “do autocarro” e querem mudanças que façam sentido numa “escola do século XXI”, um slogan tão sedutor quanto vazio de sentido. Ainda assim, as palavras destes pais, que querem uma “revolução” no sistema educativo, merecem reflexão mais atenta e demorada, pelo que provavelmente se justificará voltar a elas um dia destes…

“Estes resultados mostram que o atual modelo de ensino é feito para os alunos memorizarem, fazer o teste e esquecer, e por isso tem de ser repensado. Isto não tem que ver com a escola em si, mas com a cultura instalada na sociedade, em que a escola é apenas vista como um meio de acesso ao ensino superior, quando deve ser um instrumento para o desenvolvimento dos jovens para a cidadania e para o pensamento crítico”, disse ao CM Jorge Ascenção, presidente da Confap, que tem defendido uma maior separação entre ensino secundário e superior, com as universidades e politécnicos a definirem por si os critérios de acesso.

O responsável da Confap afirma que “o modelo do autocarro na sala de aula, com todos a olhar para as costas dos colegas, já não faz sentido”. “Para quem nasce na era digital e trabalha muito à-vontade com computadores, este modelo não está adequado. É preciso um trabalho diferente, mudar este modelo e colocar nas crianças o gosto pela descoberta. Há muito que pregamos sozinhos sobre isto”, disse o responsável, defendendo ainda uma mudança feita “com calma, serenidade e com todos os intervenientes”.

Quanto aos professores, as reacções são variadas e reflectem uma visão que, ao contrário do olhar exterior dos pais e dos académicos, dirigentes e burocratas ministeriais, foca sobretudo o contexto em que estas provas surgiram e foram aplicadas:

  • Tendo em conta que os resultados estão muito abaixo dos habitualmente obtidos, quer em provas nacionais de final de ciclo, quer em testes internacionais, nenhuma análise séria pode ser feita se não se questionar, previamente, a própria concepção e elaboração das provas, que provavelmente não avaliam correctamente o que era suposto avaliarem;
  • Os níveis de exigência estavam desajustados em relação à idade dos alunos e aos anos de escolaridade em que se aplicaram as provas, sobretudo no caso do 2º ano, onde ainda pouco há para aferir;
  • Passou-se a ideia de que estas provas “não contam para nada”, o que terá levado, sobretudo entre os alunos mais velhos, a que houvesse pouco empenhamento na realização dos exercícios propostos, sobretudo quando implicavam a produção de texto ou a elaboração de raciocínios mais complexos;
  • Os melhores resultados obtidos na área das expressões do 1º ciclo, onde se esperavam maiores dificuldades, tendo em conta as falhas que têm sido reportadas nesta área, sugerem que o conhecimento prévio do que iria ser avaliado contribuiu para a melhoria de resultados.

Depois de ter acabado com os exames no 1º e no 2º ciclo, este ministério necessitava de uma avaliação nacional que pudesse fazer o ponto da situação relativamente à qualidade das aprendizagens dos alunos do ensino básico, que surgiu com as provas de aferição realizadas em 2017. E aqui, a obtenção de resultados que só não são catastróficos porque não têm consequências para os alunos pode vir dar um novo alento às mudanças curriculares que o governo pretende introduzir, mas que estão longe de despertar entusiasmo entre a maior parte das escolas e dos professores.

Estaremos assim a assistir a um clássico que já vimos com outros governos: trata-se de inculcar a ideia de que isto está pior do que a gente pensava, e de que só com as sábias medidas que o governo irá implementar – e com provas substancialmente mais fáceis daqui por um ano ou dois – será possível colocar os alunos portugueses na senda das aprendizagens de qualidade exigíveis na escola do século XXI.

Afinal de contas, sabemos há muito tempo que quando os alunos melhoram as suas aprendizagens isso se deve às iniciativas dos ministros. Já quando não aprendem a culpa é, invariavelmente, dos professores…


sábado, 7 de outubro de 2017

Quando não estou em aula...


Olho para os dossiers de Direção de Turma dos meus colegas. Estão todos direitinhos, organizadinhos, bonitinhos, arrumadinhos… O meu está em branco, só com os separadores… Tenho uma data de papéis soltos dentro de uma capa à espera de serem arquivados… Atrevo-me a comentar a minha situação e as colegas, porreirinhas, tranquilizam-me: - “Com tempo, Dalila, isto é aos poucos!” -, enquanto arquivam mais uns documentos nos já volumosos dossiers que são os delas…

Vou dar uma espreitadela aos meus mails. Já recebi 97 na minha caixa de correio institucional iniciada a 8 de setembro… Foram rápidos a criá-la. A escola é até bastante eficaz com essas coisas. Não me posso queixar. Disponibilizam tudo. Têm tudo organizado, esquematizado, prontinho para ser usado. E não deixam dúvidas. É assim e pronto. Gosto que seja assim. O que não falta por aí são coordenadores ou diretores que são ambíguos, não esclarecem, contradizem-se, e na hora em que as coisas correm mal, somos nós que não soubemos “interpretar” ou então fomos mesmo incompetentes…

Os meus colegas são prestáveis e parecem-me todos muito cumpridores e profissionais. Isso é bom, é ótimo, mas deixa-me ainda mais nervosa. Era tão bom poder culpar alguém por andar à nora! Não… Já todos me enviaram vários documentos… regimentos (tudo tem um regimento), papéis relacionados com as tutorias, com as necessidades educativas especiais, com a equipa para a prevenção da indisciplina, testes diagnósticos, plano anual de atividades… Ontem, andaram em trocas de mails sobre o PAA. Será que também queriam a minha opinião? Não consegui arranjar tempo para me debruçar sobre aquilo…
Ai, as siglas! Na nossa profissão, gostam todos muito de siglas e de acrónimos… Consegui perceber alguns: aqueles que também se usam nas outras escolas. Tenho apontado os outros para pesquisar depois… Já repararam que quase todos têm um P? Depois… Faço isso depois… Há coisas mais urgentes para já!

Ao meu lado, uma colega que está nas duas escolas do agrupamento. Agora tem de ir para a terceira escola que ela conseguiu para completar o horário. Tem tudo calculado, esquematizado, programado. Não pode falhar nem distrair-se um pouco. “Tem de ser!”, diz ela.

Tenho que me encontrar com a professora de Educação Especial para falar dos vários casos da minha Direção de Turma. Apontar as alíneas. Tenho que apontar as alíneas e enviar isso aos meus colegas do Conselho de Turma.

Logo, tenho reunião para perceber o funcionamento da Equipa para a Prevenção da Indisciplina. Não me posso esquecer!

Deixa-me ver se não tenho mais alunos para as tutorias. Pediram-me para confirmar isso, já me esquecia…

Deixa-me ir ao cacifo buscar o meu bloco de notas para ver o que me falta. Deram-me a chave ontem. Tenho um cacifo! Há anos que não tinha! Espera, qual é a chave? É esta! Sim, é esta! E agora, qual é o cacifo? Não me lembro do número… Apontei-o mas está lá no bloco de notas dentro do cacifo… Bolas… Vejo depois…

Tenho que pedir os manuais às editoras. Faço isso por mail mais logo. Até é rápido… Mas tantas coisas rápidas juntas e passa-se o dia… Ainda bem que as minhas colegas me emprestaram os delas enquanto chegam e não…

Deixa-me ver se está muita gente na secretaria. Não. Boa! Vou aproveitar e ver o que se passa com as horas de Direção de Turma que ainda não tenho no sistema para sumariar. Ah! Chegou o cartão da escola. Aproveita também para o levantar, Dalila…

“A tua Gabriela voltou a dar-me uma resposta torta!”, diz-me uma colega quando saio da secretaria. A “minha” Gabriela… Pois, são meus… Vão ser os meus João, António, Manel, Francisco… As minhas Ana, Sofia, Teresa… A “minha” Gabriela… Caramba, não me recordo de nenhuma Gabriela! Qual delas é? Sorrio. “Eu vou falar com ela!”, acabo eu por dizer. “Não, não vale a pena! Era só pra saberes!”…

Falando em maus comportamentos, tenho que redigir as participações dos miúdos do CEF. Aquelas aulas com eles dão cabo de mim! Ainda tenho que fazer fichas para eles para a aula de amanhã… Não me posso esquecer que a reprografia está fechada na hora do almoço. Tenho que arranjar maneira de as fotocopiar de manhã no intervalo. Pode ser que não haja muita gente ou estou tramada…

“Dalila, já conheceste a colega Maria? Ela andava à tua procura. É a DT dos miúdos a quem dás TT (Olha, este acrónimo não tem “P”!) e como costuma ser uma disciplina dada pelo DT, ela queria falar contigo para se organizarem em conjunto!”. O colega que me aborda é super prestável. Já me ajudou com pequenas coisas várias vezes. Quero dizer o nome dele, mas não me lembro… Bolas… Ele sabe o meu nome e eu não sei ainda o dele… Bolas… Limito-me a sorrir “Não, não conheci ainda…”. E ele continua “Eu já lhe disse quem tu eras, quando ela chegar à sala dos professores, apresento-vos!” E eu quero dizer “Obrigada, João ou Manel ou Pedro ou Alziro”, mas fico-me pelo “Obrigada!” sem me conseguir lembrar do nome…

Está na hora da minha aula. Corro os vários cacifos com a chave até encontrar o meu. Retiro de lá os testes diagnósticos e corro para a sala. Separo os alunos e começo a distribuir as folhas. Ai, não é este! É o outro! Recolho as folhas e distribuo o teste adequado. Que figurinha a minha! Foca-te, Dalila! Concentra-te!

Já na sala dos professores, conheço a Maria e falamos do tal TT da sua DT. Uma outra colega vem ter comigo. Quero tomar um cafezinho, mas acho que não vou conseguir. “Tu é que és a Dalila? Eu sou a mãe da Rita da tua Direção de Turma!” Quem é a Rita? Oh, valha-me Deus! Sorri! Sorri, Dalila… Ai, não, o assunto é sério. Pára de sorrir! Foca-te! Concentra-te! Ouve! Esquece o café!

De volta aos meus mails, leio os assuntos antes de abrir. Tanta oferta formativa. Devia ler isto com atenção, mas não tenho tempo. Tantas ofertas de atividades para os alunos. Também devia ler isto com calma, já que tenho Direção de Turma… Mas… Prioridades, Dalila! Abro tudo aquilo que está relacionado com a DT. É tanta coisa que até me assusta, mas acabo por me sentir amparada. Está aqui tudo… Abro um documento “Calendário para realização de embelezamento da escola”. Fico perplexa. A medo, pergunto à minha colega no computador ao lado “Desculpa, que documento é este? Sabes?”. Muito simpática, responde-me “Temos que marcar uma vez por mês, acho eu, no Tempo Turma uma hora para cuidar da escola. Pode ser apanhar lixo, decorar uma sala, coisas assim…”. Fecho a boca para a abrir de novo, desta vez com um sorriso “É uma iniciativa muito louvável!”, acabo eu por dizer, antes de voltar a fixar o meu ecrã… Por instantes, apetece-me bater com a cabeça na parede, mas há mais pessoal na sala e acabo por conseguir conter-me…

Tenho que agendar a minha primeira reunião com os Encarregados de Educação… Ainda não tenho dossier, mas tenho que tratar disso… Não posso deixar arrastar. Mais uma vez, tenho ordem de trabalhos já pronta para essa reunião. Boa! Vou ver para redigir a convocatória. Com tantas coisas para fazer, é bom que esteja tudo assim: mecanizado. É só fazer e pronto! Há um ponto que é "Tomada de conhecimento dos documentos referidos na alínea q) do artº 7º da Lei nº 51/2012 de 5 de setembro"… Que é isto? Ah! Regulamento Interno, Estatuto do Aluno… Claro, claro…

Na hora de TT, trato da eleição do delegado e do subdelegado de turma. “Professora, estávamos a pensar fazer a nossa viagem de finalistas em Espanha. A escola dá-nos autorização para sairmos do país?” Respondo que vou perguntar, e só penso “Mas a viagem de finalistas também tem a ver com a escola?” e tremo só com a pergunta…

Quando chegar a casa, tenho que enviar os conteúdos dados na minha disciplina à DT daquele miúdo que tem faltado… E tenho que fazer a ata da eleição do delegado… E as fichas de CEF…. Se sobrar tempo, preparo a aula para o 9.º e a do 8.º… Se não sobrar tempo, abro os livros e sigo as instruções dadas pelas editoras sobre os passos da aula… As editoras também são super organizadas hoje em dia…Está tudo mecanizado! Felizmente… Sim, felizmente… É mecanizar tudo para se ser eficaz… Assim, consigo fazer as coisas… 

Consigo, sim… Mecanizar! Mecanizar!... Alguém me explica este sabor a ferro que me incomoda apesar de tudo?

Texto de Dalila Ribeiro publicado em Professores Lusos

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Dos resultados das Provas de Aferição



Já foram divulgados os resultados das provas de aferição e os resultados são preocupantes em todas as áreas avaliadas à excepção das Expressões Artísticas e Motoras. O Ministério já divulgou um conjunto de medidas a desenvolver destacando a promoção da formação de professores.

Como já aqui tenho escrito continuo com muitas dúvidas sobre a realização das provas de aferição em anos intermédios dos ciclos, 2º. 5º e 8º. Uma aferição, creio, deverá ser realizada no final de um período de aprendizagem. Só nessa altura será possível “aferir” os resultados que se encontram face aos resultados que se esperam e ter uma visão global comparativa.

Uma avaliação durante um período de trabalho com o objectivo de detectar dificuldades e corrigir trajectórias é evidentemente um requisito de qualidade mas é, do meu ponto de vista, uma avaliação de diagnóstico, de regulação, não de aferição. Assim deveremos olhar para estes resultados não esquecendo a sua eventual contaminação pela representação que os discursos sobre as provas de aferição podem ter provocado nos alunos e famílias no sentido da sua desvalorização.

Os alunos que agora responderam às provas de aferição serão avaliados no PISA de 2018, 2021 e 2024 e passaram globalmente pelo efeito das metas curriculares e da examocracia desde 2011 e 2012. Veremos se conseguimos manter a trajectória de sucesso no PISA que vinha a registar-se até 2015.

Quanto aos resultados e à sua melhoria o ME identifica a Formação de professores como eixo central.

Sabemos que apesar do peso das variáveis relativas aos alunos e contexto social, económico e cultural, o trabalho na e da escola e dos professores é um factor significativamente explicativo do sucesso dos alunos mais vulneráveis e capaz de contrariar ou minimizar o peso dessas variáveis.

Este trabalho da e na escola envolve dimensões como organização e funcionamento, clima, níveis de colaboração e cooperação, estilo e competência das lideranças, por exemplo e, definitivamente, o trabalho em sala de aula em que surge a diferença produzida pelo professor, pelos professores.

Quando abordo estas questões cito com frequência uma afirmação de 2000 do Council for Exceptional Children, "O factor individual mais contributivo para a qualidade da educação é a existência de um professor qualificado e empenhado". Neste quadro a formação é sempre importante mas será que é a principal fragilidade?

Terá a generalidade das escolas recursos (tempo, docentes e técnicos) e autonomia para organizar dispositivos de correcção de trajectórias escolares de insucesso ou em risco detectadas nestas provas de aferição?

Também sabemos que o sucesso se constrói identificando e prevenindo dificuldades de forma precoce, com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio eficazes, competentes e suficientes a alunos e professores, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados e reais de autonomia, organização e funcionamento das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, com a valorização do trabalho dos professores, com práticas de diferenciação e expectativas positivas face ao trabalho e face aos alunos, com melhores níveis de trabalho cooperativo e tutorial, quer para professores quer para alunos, etc.

Sabemos tudo isto. Nada é novo.

Só falta um pequeno passo.

Construir para todos os miúdos trajectórias de sucesso. Não, não é uma utopia. Tal como o insucesso não é uma fatalidade do destino.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Resultados nacionais das provas de aferição (2016/2017)

Foi hoje disponibilizado um documento com os resultados das provas de aferição e respetiva análise, tendo por base as provas realizadas no ano letivo 2016/2017.
O Ministério da Educação deu também a conhecer uma série de medidas que pretende implementar/desenvolver.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

À consideração dos professores do meu país

“Quando eu tinha cinco anos, a minha mãe dizia-me que a felicidade era a chave da vida. Quando fui para a escola, perguntaram-me o que queria ser quando fosse grande. Escrevi feliz. Então eles disseram-me que eu não tinha entendido o exercício. E eu disse-lhes que eles não entendiam a vida.”
John Lennon 


Santana Castilho

Como qualquer humano explicado por Freud, somos o resultado da disputa entre o nosso “id”, vertente primária subjugada pelo instinto, o nosso “ego”, bússola de navegação pela realidade externa, e o nosso “superego”, o árbitro implacável que vigia e obriga os outros dois estádios a permanecerem entre os limites da moral vigente e a considerar os seus dilemas.

Poderemos falar de um “superego pedagógico”, que obrigue os que têm por missão orientar os seres em crescimento a não lhes dar o que não lhes deve ser dado, mesmo que imposto pelos normativos modernistas dos que mandam, prolongando a abulia e subjugando as vontades? Deverá esse “superego” atípico impedir que os professores empurrem as crianças pelos corredores da pressa e do utilitarismo, quando as deviam guiar pelos trilhos calmos do personalismo e dar-lhes tempo para terem tempo? Trilhos onde os livros tradicionais ganhem aos meios electrónicos, a memória seja uma qualidade intelectual respeitada e o silêncio cultivado como meio para nos encontrarmos connosco próprios, aprendendo que até um cabelo projecta a sua sombra.


A missão de um professor é também impulsionar e acelerar a evolução da humanidade dos seus alunos, tornando-os mais sensíveis, ensinando-os a distinguir a verdade da mentira, a justiça da injustiça, a humildade da vaidade, a bondade da inveja. O desiderato de um professor é também ter alunos que prefiram uma derrota com honra a uma vitória com trapaça, que escolham a gentileza à brutalidade, que prefiram ouvir a gritar, que saibam que chorar é próprio de quem sofre, não diminui e, quando acontece, só engrandece. A obrigação de um professor é também ensinar aos seus alunos que só aquece aquilo que se consome, que a falta de uma só trave pode tombar todo um sistema, que é mais difícil fazer o que o coração dita que o que os outros esperam, que é impossível tocar uma nuvem mantendo os pés no chão, que são os erros e as esperanças desfeitas que ajudam a crescer e que, citando Confúcio, “não poderão mudar o vento mas poderão ajustar as velas do barco para chegarem onde quiserem”.


Na Escola não vivemos ao Deus-dará. Vivemos ao Governo-dará, em situação de permanente experiência, conforme o lado donde sopra o vento, sem ponderar impactos, sem avaliar as políticas ou com avaliações pré-ordenadas para que os resultados sejam os pré-decididos. Na Escola permitimos que as teorias sobre a formação de “capital humano” capturem as teorias sobre o funcionamento da educação integral, expulsando as artes e as humanidades. Na Escola vivemos obrigados por leis verga-carácter, constantemente alteradas e interpretadas segundo a conveniência do legislador, esquecendo o dever que nos assiste: não calar! E calamos. E desistimos. E pactuamos. Pactuamos com insanos que se julgam profetas e tomam decisões em nosso nome.


Eu sei que a complacência produz amigos e a franqueza pode gerar ódios. Mas exponho-me, com o que sinto. Se queremos resolver e não apenas discutir os problemas da nossa profissão, temos que começar por tomar consciência de que fomos convertidos em proletários mal pagos, ao serviço de senhores que não têm que fazer prova nem de saber, nem de coerência, muito menos de ética, para mandar. Quando a nossa indignação for maior que o nosso medo, então sim, discutiremos razões em vezes de colocações. E viveremos, como os outros portugueses, sem pânico de nos desmembrarem a família em cada ano que começa.


Aldous Huxley escreveu algures que a ditadura perfeita teria a aparência da democracia. Que seria um sistema de escravatura onde os escravos teriam amor à sua escravidão. No início deste ano escolar, abraço os professores do meu país e ouso sugerir-lhes que pensem no que acabo de escrever.


Fonte: Público

domingo, 1 de outubro de 2017

O novo(?) perfil do docente

Sem novidades o novo Perfil do Professor, publicado pela DGEEC, construído a partir dos dados estatísticos mais recentes, que se referem ao ano lectivo 2015/16.


De facto, não tendo havido, nos últimos anos, qualquer alteração significativa ao modelo de concursos, carreira ou grupos de recrutamento, apenas se pode esperar, deste novo estudo sobre os docentes portugueses, que confirme e reforce as tendências que já anteriormente se evidenciavam.

Ficamos assim a saber que existiam, em 2015/16, no ensino não superior 142 913 professores, dos quais 122 452 no ensino público. Bem menos do que os cerca de 180 mil que chegaram a existir dez anos antes. Ainda assim, os valores apurados são ligeiramente superiores aos números reais de docentes em exercício efectivo nas escolas, pois incluem, por exemplo, situações em que um professor em baixa médica é substituído temporariamente por um colega, sendo, para efeitos estatísticos, contabilizados ambos os docentes.

Os professores portugueses distribuem-se, por níveis e ciclos de ensino, da seguinte forma:



Uma questão que continua a ser pertinente é a do envelhecimento da classe docente, que rapidamente se constata ao verificar que a idade média dos professores oscila entre os 45 e os 49 anos nos diferentes níveis de ensino. Olhando para a forma como os docentes se distribuem por diversas faixas etárias, percebe-se que cerca de 80% da classe é constituída por docentes que ingressaram na profissão no final dos anos 70 e ao longo da década de 8o, um período em que o alargamento da escolarização e uma natalidade superior à actual obrigaram à contratação de muitos professores. Posteriormente, a estabilização do sistema e a redução da natalidade reduziram bastante a procura de novos profissionais e as medidas austeritárias dos últimos dez anos fecharam a escola pública à entrada de jovens professores.



O desequilíbrio da estrutura etária na profissão docente é evidente e, sem que sejam tomadas medidas políticas para o contrariar, tenderá a aumentar nos próximos anos. Ainda assim, a sua incidência apresenta, numa análise mais pormenorizada, aspectos que vale a pena destacar.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

"Quem defende que as crianças têm de trabalhar mais, depois de um dia inteiro na escola, esqueceu-se do que é ser criança"


Saltou para a ribalta ao ser considerado um dos 50 melhores do mundo pelo Global Teacher Prize, uma espécie de prémio Nobel da Educação. Aos 45 anos, o espanhol Cesar Bona quer avisar o mundo que ser professor é um privilégio. Afinal, se uma pessoa tiver paixão pelo que faz, mais facilmente imprime esse gosto nos outros.

Em Portugal para promover o seu mais recente livro A Nova Educação, este maestro, que em castelhano designa o professor dos primeiros anos de escolaridade, assume que, além de ensinar, a escola também existe para educar os adultos de amanhã, para os estimular a querer viver num mundo melhor.

"O importante é promover a cooperação, educar por empatia", salienta. Oriundo de uma pequena aldeia perto de Zaragoza, filho de um carpinteiro e de uma dona de casa, o professor que sabe de onde vem, e para onde vai, diz que foi o destino que o pôs neste papel: "Quando era mais novo queria ser futebolista."

Porque diz que ser professor é um privilégio?

Todos os dias são um desafio e também uma grande responsabilidade. É um privilégio porque podemos convidar as crianças a olhar para o mundo à sua volta e a tentar melhorá-lo. Para mim, ser professor não é só abrir um recipiente e enchê-lo de conhecimento. É a possibilidade de estimular a ser melhor e a querer mudar o que o rodeia. É também uma grande responsabilidade porque essa marca fica para sempre sobretudo quando se é o professor referência, o primeiro contacto com a escola e a aprendizagem. E se aqueles alunos se vão lembrar de mim para toda a vida, quero que seja uma lembrança positiva.

É o mesmo lema do Homem-Aranha: "Com um grande poder vem uma grande responsabilidade."

É por aí, exatamente. O professor tem esse poder imenso nas mãos: imprimir a melhor mensagem possível em milhares de crianças que lhe passam pela frente.

O que valoriza mais na sala de aula: que aprendam, que fiquem curiosos e queiram saber mais, que sejam pessoas bem formadas?


Há de facto muita coisa que hoje recai sobre a escola. Mas o desafio é esse: ensinar-lhes o que precisam, estimular-lhes a curiosidade para gostarem de aprender e irem à procura de mais conhecimentos, e ainda formar boas pessoas, gente que trate bem os outros, que respeite o meio ambiente, que tenha responsabilidade social.

Ter paixão pelo que faz é meio caminho andado?

Paixão e esperança. Se convives com quem está cheio de esperança na sua essência, porque as crianças são os adultos de amanhã, são ambas imprescindíveis. À mistura com a curiosidade e a criatividade, as possibilidades que se apresentam a um professor para provocar alterações nas vidas dos seus alunos são imensas. Temos de ensinar muitas coisas, mas temos de ser um abre-portas, para que todos tirem a curiosidade da caixinha e a ponham ao seu serviço, para que seja o motor do seu dia a dia. Uma criança que gosta de aprender vai fazê-lo a vida toda. Estimulando a curiosidade das crianças, alimenta-se ainda a criatividade, muito importante para resolver problemas e encontrar caminhos novos quando já ninguém sabe o que fazer. Porque lhes permite ver as coisas de outra maneira.

Parece então que subestimamos constantemente as crianças...


Sim, em todos os sentidos. Eles têm imensas coisas que podem partilhar connosco e não valorizamos. A nível social, isso também acontece. Faz falta perguntar às crianças como mudavam um parque, que alterações gostariam de ver no bairro onde vivem, o que gostariam que acontecesse para melhorar a vida dos outros. Quando uma pessoa arrisca fazê-lo, os resultados são sempre surpreendentes.

Regra número um: nunca esquecer a criança que há em nós. É isso?

Nunca. Nas crianças está toda essa maleabilidade, esse olhar sem preconceito, sem ideias feitas. Isso permite compreendê-las melhor e ajudá-las no seu percurso. Ao colocarmo-nos ao seu nível, olhos nos olhos, tudo fica mais fácil.

No livro A Nova Educação, alinham-se ideias como "Não faço nada de extraordinário, apenas me divirto na sala de aula" ou ainda "Sou professor mas não sei tudo. Vocês também podem ensinar-me". Como é que se faz isso ?

Quando me divirto, desfruto. E isso é muito importante porque à minha frente estão pessoas que, durante toda a infância e adolescência, não podem mudar de vida, como um adulto faria. Estão ali e têm de ali estar, na escola, na sala de aula, diante do professor. Daí a grande responsabilidade: conseguir que tenham ganas de voltar no dia seguinte. Todos os dias, aqueles miúdos são obrigados a estar sentados durante seis horas, apenas a escutar e a repetir, e isso é aborrecido para qualquer um. Para um adulto também, não?

Imagino que o desafio seja maior por vivermos numa zona do globo mais envelhecida e onde as crianças são cada vez mais raras e crescem superprotegidas...
É importante não cair nesse equívoco: nem sempre tudo corre bem e é importante ensiná-las a lidar com a frustração. É assim que se estimula a resiliência na circunstância em que você é diferente de mim, e temos todos de aprender a respeitar essas diferenças.

Como se educa para a cooperação e não para a competitividade se vivemos num mundo cada vez mais competitivo?

Daí a sua premência. Porque uma das maravilhas da escola é que ela pode mudar a sociedade. Se acreditamos que é a chave para mudar o mundo, então temos de educar para a cooperação. A escola é o lugar ideal para promover o que queremos para o mundo em que vivemos.
Muitas famílias mudam os seus hábitos e a suas rotinas por força das aprendizagens que os filhos trazem da escola: alteram o que compram, passam a fazer reciclagem... Imagine--se isso replicado por milhares de casas, em todo o mundo. É um poder extraordinário à nossa disposição.

A crise perturba esse processo? A escassez torna-nos mais competitivos?

Depende. Temos vivido em crise nos últimos anos, mas isso não nos tornou menos sensíveis, por exemplo, à questão dos refugiados. As crianças, e as escolas, têm promovido os valores da solidariedade com quem tem menos insistindo que juntos somos todos mais fortes. Claro que tanto podemos instigar uma criança a ter uma nota melhor do que a do companheiro como podemos estimulá-la a ajudar o outro para os dois terem notas melhores. Depende do que queremos.

E os pais, preocupados com o sucesso do seu filho, não perturbam esse processo?

Às vezes penso que temos de nos reeducar todos. Claro que cada pai quer o melhor para o seu filho. Mas às vezes o melhor para um filho é dar um passo atrás para ajudar o colega do lado e depois seguirem os dois em frente. Melhoramos a sociedade sempre que ajudamos um companheiro. E é uma maneira maravilhosa de aprender: aquele que ajuda o outro sente-se depois tão bem, tão orgulhoso, que nunca mais esquece o que se tratou ali. É disso que se trata: somos seres sociais, não podemos continuar a ensinar como se fossemos indivíduos que vivem isolados.

Ainda ouvimos muitas vezes que a escola ensina, a casa é que educa. O que pensa sobre isto?

Temos de apagar isso do discurso da educação. A casa e a escola são parceiros num projeto educativo. Há um ditado africano que diz que é preciso toda uma aldeia para educar uma criança e a escola é o melhor lugar para ajudar os pais a educarem os seus filhos. A aula funciona como uma espécie de micro sociedade. Se queremos mudar a sociedade, então devemos promover também essas alterações na sala de aula.

Recentemente, cresceram as críticas a uma instituição que está igual ao que era há 150 anos. Porque é que a Escola resiste tanto à mudança?


É uma forma de nos sentirmos mais tranquilos. Queremos educar os nossos filhos como fomos educados, esquecendo todas as transformações que o mundo conheceu. Há ainda um outro fenómeno: aplaudimos os exemplos de fora, mas não aceitamos mudanças cá dentro: por exemplo, a escola finlandesa anunciou que acabou com as paredes e todos aplaudem. Se eu, aqui, quiser derrubar um muro que seja, já me acusam de estar a querer fazer uma revolução. As escolas estão organizadas como fábricas, como locais de trabalho. Penso que quem desenha escolas devia saber tanto de arquitetura como de crianças. O meu objetivo é que, ao fim do dia, quando vão para casa, todos reflitam sobre o que aprenderam e como vão utilizar essa aprendizagem.

E tem sempre autonomia para fazer isso?

Nem sempre e não é fácil. Mas os professores têm estado muito à defesa. Optam demasiadas vezes por fechar a porta da sala, proclamando que a aula é deles e portanto fazem como querem. Defendo o contrário: deixar a porta aberta. Prefiro sempre partilhar o que faço. É neste processo que descobrimos que não somos ilhas e não estamos sozinhos na difícil tarefa de educar os outros.

Polémicas de Portugal que se repetem em Espanha. Como vê a questão dos TPC?

Quem defende que as crianças têm de trabalhar mais, depois de um dia inteiro na escola, esqueceu-se do que é ser criança e como, quando era mais pequeno, gostava de aprender mas também de estar com a família e de brincar. Eu gostava de ir ao parque e ao rio. Hoje, há milhares de crianças a fazer deveres horas a fio, depois da escola, até à hora do jantar. E não têm culpa que os currículos escolares sejam tão compridos. Todos os dias, segunda, terça, quarta, quinta, sexta. Quem é que, depois disto, tem vontade voltar de ir para a escola no dia seguinte e aprender? Os TPC são uma prática ultrapassada.

Mas esteve contra a greve aos TPC, que os pais promoveram em Espanha?

Sim, porque uma greve implica estar contra alguma coisa. No caso, opõe pais a professores, e eu acredito que esse caminho deve fazer-se antes pelo diálogo. Devemos pensar como chegar a um acordo, tendo em conta que no centro está a criança e temos de pensar é no que é melhor para ela. Sabemos que a força dos TPC e da obsessão dos resultados escolares assenta também no impacto que têm na elaboração de rankings de escolas... Vemos o que está a acontecer com o PISA: Parece uma competição desportiva. Ah, Espanha ficou em quinto lugar, ah, Portugal está à frente. E o quê? O que quer isso dizer? Qual o impacto disso? E tem muita importância para quem? Para os governos. Sei que Portugal melhorou mas Espanha está na mesma, em 15 anos a avaliar as competências matemáticas, científicas e domínio da língua materna. Então e a respeitarnos uns aos outros? E a ter consciência ambiental? E ser tolerante com o diferente?

E é possível manter essa aposta numa educação diferente mesmo com as piores turmas?

Sobretudo bom, e não dividiria as turmas em piores ou melhores. Há turmas menos fáceis, geralmente constituídas por crianças que têm milhares de razões para estarem tão descontentes, tão revoltadas. Primeiro, temos de tentar saber o que passam, nas horas em que não estão ali, e temos de ver isso como um investimento. Para lhes ganhar a confiança, o respeito e depois arrancar a alta velocidade para as outras aprendizagens.

Soa a provocação...

E é, um bocadinho. Mas a verdade é que todos temos algo para oferecer. Se nos focarmos no mal, só vemos o mal. Se desviarmos a atenção para o bom, então esse valor vem ao de cima. Estimula a sua autoestima e isso pode fazer maravilhas no futuro.


Fonte: Visão

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Educar não é moldar uma mente!

Como professores, pais, a nossa função vai muito além de transmitir certos conteúdos. Abrange o desafio de aceitar o outro (criança ou adolescente) como um ser individual e único que absorverá dentro de si mesmo, à sua maneira, o conteúdo que lhe foi transmitido.


Esta animação: “Cloudy Lesson”, “Como fazer nuvens”, mostra-nos, de modo lúdico e belo, o quanto as possibilidades e a realidade pode ser adequada, criativa e inteligente, quando se percebe que até mesmo para “fazer nuvens” poderemos fazê-lo de diversas formas.


Adaptado de Revista Pazes 


domingo, 24 de setembro de 2017

Boca do Inferno: Reductio Ad Portugalum

É possível que, no limite, Tancos não exista – e mesmo Portugal, por absurdo, pode ser um produto da nossa imaginação. Mas em princípio não é, porque ninguém conseguiria inventar isto.


É um quadro de Werner Buttner: tem um copo, uma escova de dentes, uma bisnaga de pasta dentífrica e uma espingarda. Por baixo, a legenda: “Cuida tus dientes como tus armas”. Se o ministro da Defesa segue o conselho do pintor, temo pelo seu hálito. Caso dedique aos dentes o mesmo cuidado que dedica às armas, Azeredo Lopes não sabe quantos dentes tem, onde estão, nem o estado de conservação em que se encontram. Há jornais espanhóis que sabem mais sobre os seus dentes do que ele próprio.

Numa recente entrevista, a propósito do furto das armas do paiol de Tancos, o ministro disse: 
“No limite, pode não ter havido furto nenhum. Como não temos prova visual nem testemunhal, nem confissão, por absurdo podemos admitir que o material já não existisse (…)”. Ora, quando a tropa permite que lhe roubem as armas, já estamos perante uma situação absurda. Tenho dúvidas de que ensaiar raciocínios que reduzem ao absurdo ocorrências absurdas seja filosoficamente possível. Gera-se uma concentração de absurdo que não pode fazer bem à saúde. O absurdo devia ser o sal da conversa: uma pitada de absurdo num argumento com pés e cabeça entretém e até ilumina; considerações absurdas sobre ocorrências absurdas são bastante menos proveitosas e costumam ser expendidas em sanatórios.

Sísifo empurra a pedra montanha acima; depois, a pedra volta a rolar para o sopé, e Sísifo começa tudo de novo. Isso, já foi assinalado, é absurdo. No entanto, se Sísifo se puser a conjecturar que, no limite, a pedra talvez não exista e que, por absurdo, a montanha pode nunca lá ter estado, a gente questiona a saúde mental de Sísifo. Uma coisa é executar repetidamente uma tarefa que se sabe ser desprovida de sentido; outra coisa é estar armado em parvo. Higino não falaria dele, e Homero arranjaria maneira de o expulsar da Odisseia.

Quando, em Julho, o Presidente da República visitou Tancos, disse: “Não podemos, em matéria de furto de material militar, ter furtos desta dimensão. Há que prevenir para que não volte a acontecer”, e acrescentou: “É preciso investigar se há alguma ligação entre este furto e furtos que têm acontecido nos últimos dois anos em países membros da NATO”. O ministro Azeredo Lopes, que o acompanhou, não disse (mas deveria ter dito) que não havia nada para prevenir, e que subsistiam dúvidas de que houvesse algo para investigar. É possível que, no limite, Tancos não exista – e mesmo Portugal, por absurdo, pode ser um produto da nossa imaginação. Mas em princípio não é, porque ninguém conseguiria inventar isto.

Fonte: Visão

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Crónicas (2) - António Lobo Antunes - Mãe

Levei-a à igreja, ela inclinou-se sobre o caixão e beijou-o na boca. Foi o único beijo deles na boca que eu vi, porque eram pessoas de um grande pudor.



A minha mãe achava que a coisa mais sensual num homem era a inteligência e a coisa menos sensual um rabo grande, embora acrescentasse não haver nada mais estúpido que um homem inteligente

(“Um homem bonito e burro ao fim de um quarto de hora não tem cara”)

e que os seus próprios filhos eram muito inteligentes para umas coisas e muito burros para outras, no que tinha, como aliás em quase tudo, razão. Acima da inteligência só colocava a bondade, que era uma das mais importantes características do seu pai, que ela adorava. A minha relação com ela foi sempre complicada. Mas quando tive o cancro

(um em cada pulmão)

veio visitar-me e enquanto o meu irmão Pedro me agarrava os ombros e me sacudia a chorar

– Não me morras, não me morras

(logo o Pedro que quase nunca chorava)

compreendi que, se pudesse, dava a vida por mim. Anos depois o Pedro morreu e nós, os filhos, fomos, os cinco

(o Pedro já não estava, claro)

dizer-lhe. Achava-se sentada na sua cadeira e respondeu com duas frases apenas. A primeira foi

– Tenham misericórdia de mim

e a segunda, passados momentos

– Uma mãe não tem o direito de estar viva com um filho morto

e por isso quis morrer e morreu, ela, a pessoa menos piegas que conheci. Anos antes o pai tinha partido. Passava o tempo fechado num quarto, com os seus livros, a sua música, a sua medicina, e quase só o víamos à hora das refeições. 
A casa era grande e sem o pai parecia vazia. Disse-lhe

– Esta casa sem o pai parece vazia

e ela respondeu-me

– É que ele tinha uma presença muito forte

O que era verdade. Levei-a à igreja, ela inclinou-se sobre o caixão e beijou-o na boca. Foi o único beijo deles na boca que eu vi, porque eram pessoas de um grande pudor. Depois endireitou-se e saímos. Ainda hoje tenho um enorme orgulho nesse beijo, ela que começou a namorá-lo com catorze anos, eles que viveram juntos mais de sessenta. Julgo que foram felizes

(nunca falaram disso connosco)

tiveram de certeza problemas complicados e fases difíceis, claro, mas continuaram sempre juntos. E o meu pai não era um homem simples: contraditório, violento, apaixonado. Teve a sorte de encontrar uma mulher do caraças, ainda por cima linda. Da cabeça aos pés, eu que nunca vi pés tão bonitos como os seus. Achava o marido atraentíssimo

(eu achava-o feio como o caneco)

e se calhar devia ser atraentíssimo porque via isso nos olhos das mulheres. E tinha a voz mais sedutora que conheci. Tão sedutora que às vezes lhe telefonava só para o ouvir dizer

– Filho

e era impossível ter-se frio ao pé dele. Claro que era muito consciente disso e irritavam-me as aulas de Neurologia na Faculdade com ele a conquistar as minhas colegas todas, jogando com toda a gama de graves da garganta e o olhinho azul a passear pela plateia enquanto eu sentia ganas de o estrangular. A mãe, pesarosa

– Nenhum dos filhos herdou a voz do pai

e era capaz de ter razão porque as netas lhe faziam todas fosquinhas apaixonadas. Às vezes penso no que ele sentiria por mim. Sei que me gabava diante dos outros mas a mim

(como aos meus irmãos)

não nos elogiava, suponho que por razões de autoridade. Sei que pensava, coitado, que eu tinha nascido para fazer grandes coisas, esse tipo de sentimentos que qualquer pai sente por qualquer filho. Como sei que tinha orgulho nos meus irmãos que tão pouco o ouvi elogiar e compreendo que assim fosse. Nunca houve efusões entre os nossos pais e nós e não lhes quero mal por isso. Tinham outras formas, sempre muito discretas, de o comunicarem, eu que sou desbocado e acho que tenho uns irmãos de penica. Mas disso também não falávamos, nós que vivíamos uns com outros, que continuamos a viver uns com os outros uma relação fortíssima. Tenho imenso orgulho nos meus irmãos

(devo estar parvo porque nunca digo isto)

e sinto-me imensamente afortunado com a minha família. A minha mãe costumava dizer

– Desafio qualquer mulher a ter filhos tão inteligentes e tão bonitos como os meus
e declarava isto com uma sinceridade absoluta. 
O amor de mãe é assim cego, mesmo numa pessoa tão extraordinariamente contida como ela foi sempre. 
O melhor é desculpá-la, fingindo que não ouvimos. 
Ou então dizer-lhe, como fiz tantas vezes

– Quer que lhe diga poemas?

para ela se levantar logo do seu lugar e vir sentar-se ao meu lado. Só nunca tive coragem de murmurar-lhe

– Mãezinha

como tantas vezes me apeteceu.


António Lobo Antunes in Visão

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Pai, não conheço ninguém na escola nova! Tenho saudades dos meus amigos!

Quando uma criança experiencia mudanças na sua vida, desde uma mudança de casa a uma mudança de escola, e mesmo quando essas mudanças são muito desejadas, tal implica sair de uma zona de conforto e o afastamento da rede de suporte que seria o núcleo de amigos. Por esse motivo, as preocupações e os receios são naturais: “Quero voltar para a escola antiga. Tenho saudades dos meus amigos”. “Como vou fazer novos amigos? Com quem vou brincar se não conheço ninguém?”

Não desvalorize os receios do seu filho. O desafio pode ser mesmo grande, uma vez que ainda não tem as suas competências sociais e emocionais totalmente desenvolvidas. É importante que o ajude a gerir o novo desafio com sucesso e prevenir que passe por outras experiências difíceis, como isolar-se, ser excluído das brincadeiras, ser ridicularizado pelos pares, ou começar a ter vergonha e receio de realizar atividades na sala de aula nas quais sinta que está a ser observado e avaliado pelos colegas.

Muito importante:
  • Mostre-se disponível para ouvir o seu filho sem o julgar.
  • Explique ao seu filho que todos nós, perante mudanças, podemos sentir receio do novo contexto, alguma vergonha em relação a pessoas desconhecidas e questionar se seremos capazes de enfrentar as novas exigências.

Converse com o seu filho sobre alguns truques que o poderão ajudar a fazer novas amizades:
  • sorrir para os novos colegas e professores;
  • evitar ser o último a sair da sala;
  • observar os colegas que têm interesses e brincadeiras semelhantes, para que posteriormente se sinta mais confiante para se aproximar deles;
  • não ficar sozinho enquanto os outros brincam em grupo, aproximando-se dos colegas, mesmo que não tenha havido um convite formal para brincar;
  • não dar ouvidos a pensamentos negativos, como “não sou bom naquele jogo” ou “de certeza que eles não vão querer brincar comigo“;
  • respirar fundo, contar até 10 e pensar em algo positivo, quando se sentir mais ansioso.

Se o seu filho lhe tem dito: “Não conheço ninguém na escola nova. Tenho saudades dos meus amigos.”, então este livro é para vocês:


Inês Afonso Marques in ComRegras

domingo, 17 de setembro de 2017

Carta aos professores

Façam-nos pensar, despertem-lhes a curiosidade, incentivem-nos a partir à aventura. Ensinar é a arte da assistência à descoberta!



Caros amigos,

Não se importam que vos trate por amigos, certo? É que não vejo melhor palavra. Com quatro filhos em idade escolar, sinto que são uma espécie de companheiros de viagem. Escrevo-vos porque falar destes assuntos naquelas reuniões de pais é complicado – vocês sabem, é mais ou menos como nas reuniões de condóminos: muitos pais angustiados e impacientes e muitas perguntas idiotas sobre assuntos que não importam nada. 
O essencial parece que fica por dizer.

E há tanto para falarmos, caros professores, no arranque de mais um ano letivo, este marco definitivo nas rotinas de tantas famílias portuguesas como a minha. Espero encontrar-vos bem, carregados de energia para mais uma espécie de missão impossível – tenho a noção que é quase isso que se pede aos professores nos dias de hoje. Bem sei que muitos pais esperam que vocês façam todo o trabalho por eles: que ensinem, que eduquem, que sejam exemplos, que inspirem, que mantenham a serenidade em toda e qualquer situação, e que ainda por cima se contentem felizes com pouco como recompensa. Não é fácil corresponder a tanta expectativa, eu sei. Mas alguns de vós dão o vosso melhor e quase que chegam lá. Tiro-vos, honestamente, o chapéu.

Num ponto todos concordam – os professores moldam vidas e são eles o coração do sistema de ensino. Um bom professor guardamo-lo para a vida, marca para sempre. Mas não se deixem vergar pelo peso da responsabilidade. Não formalizem demasiado as relações. Tentem não perder a chama e a paixão dos primeiros dias, mantenham aquela boa dose de instinto na gestão de uma sala de aula. Usem e abusem do humor, sejam empáticos, sejam performers – era Steinbeck que dizia que um professor é um grande artista. A sala de aula é o vosso palco. Não se deixem formatar. Os melhores professores que tive foram sempre aqueles que fugiam do padrão.

Cada miúdo é um miúdo, não há fórmulas rígidas e infalíveis. Se tivesse de vos pedir uma só coisa, seria que se dedicassem a conhecer realmente as crianças que têm pela frente. O que lhes faz brilhar os olhos, o que detestam e o que lhes faz sono. Oiçam-nos: eles são mesmo seres incríveis. Acreditem, não será tempo perdido – a partir daí 
saberão como os agarrar.

Preocupem-se mais em estimular a curiosidade do que em debitar a matéria do manual. Aqui que ninguém nos ouve, quem me dera que pudessem esquecer essa rigidez das metas curriculares e algumas das coisas que se obrigam os miúdos a saber hoje em dia. Expliquem-lhes porque aqueles assuntos importam, e eles quererão conhecê-los melhor. Empinar matéria, em pleno 
século XXI, é absolutamente anacrónico. Os factos desgarrados são dados adquiridos: estão aí à distância de uma pesquisa no Google. Mais do que lhes dizer o que aconteceu, expliquem-lhes porque aconteceu assim. Façam-nos pensar, despertem-lhes a curiosidade, incentivem-nos a partir à aventura. Ensinar é a arte da assistência à descoberta.

Valorizem outras coisas que não as notas – venho a crer que elas importam afinal tão pouco na vida. Mais do que seres cheios de conhecimentos acumulados, ajudem a formar boas pessoas e adultos interessantes. Ensinem-lhes os valores da partilha, generosidade e espírito de equipa. Quem não ajuda um colega jamais deveria ter lugar num quadro de honra.

E, por favor, não menorizem os miúdos – deem-lhes máxima liberdade acompanhada de máxima responsabilidade. Eles têm desde cedo que perceber que a escola é o seu trabalho, não o dos pais. Imponham regras e limites claros desde o primeiro dia, e expliquem-lhes as consequências. Já agora, expliquem isso também aos pais, que cada vez mais tratam as crianças como flores de estufa no deserto para compensar a sua crónica ausência.

Peço-vos, é verdade, uma combinação de talentos e competências que parece quase de alquimia. Mas isto não é mística: é bem possível e há quem o faça todos os dias por essas escolas do País. Bem-hajam.

Mafalda Anjos in Visão Online

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